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	<title>blog d'apontamentos</title>
	<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com</link>
	<description>blog de rascunhos mais ou menos literarios</description>
	<pubDate>Mon, 15 Sep 2008 11:14:53 +0000</pubDate>
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	<language>en</language>

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		<title>pleonasmo</title>
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		<pubDate>Thu, 31 Jul 2008 11:03:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>blogdapontamentos</dc:creator>
		
	<category>ímpares</category>
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		<description><![CDATA[	O meu primeiro post tem a data de 20 de Agosto de 2002. 
	O blogue 1001 pequenas histórias foi um projecto literário com fim determinado, e terminou quando alcançou o seu objectivo, quase três anos depois, com a milésima primeira história, em 14 de Julho de 2005.
	A partir daí nunca mais me foi possível terminar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>O meu primeiro post tem a data de 20 de Agosto de 2002. </p>
	<p>O blogue <a href="http://1000euma.blogspot.com/">1001 pequenas histórias</a> foi um projecto literário com fim determinado, e terminou quando alcançou o seu objectivo, quase três anos depois, com a milésima primeira história, em 14 de Julho de 2005.</p>
	<p>A partir daí nunca mais me foi possível terminar um blogue de forma tão precisa, ora dizia que ia deixar de publicar num blogue e depois o retomava, ora fechava <a href="http://naestradadedamasco.blogspot.com/">um</a> e abria <a href="http://blogdapontamentos.blogsome.com/2005/11/08/17/">outro</a>. </p>
	<p>Perfeitamente natural. Nem seria preciso dizê-lo. </p>
	<p>O blogue, nas suas diversas manifestações, tem sido para mim, sobretudo, um instrumento de divulgação do que venho escrevendo e que, por inércia minha e dos editores, não tem chegado ao papel. Muito do que escrevi está por aí em blogues e pode ser lido, o que me agrada.</p>
	<p>E assim este blogue chega ao </p>
	<p>Fim
</p>
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	</item>
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		<title>[  ]</title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/07/24/942/</link>
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		<pubDate>Thu, 24 Jul 2008 10:46:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>blogdapontamentos</dc:creator>
		
	<category>ímpares</category>
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		<description><![CDATA[	S – Todos os que o conheciam diziam que era muito calado, e era verdade, calava-se com frequência, ainda que só ficasse verdadeiramente em silêncio quando surpreendia por instantes o mistério do mundo.
	I – Aquele homem desconhecia o silêncio: tinha uma audição apurada, que amplificava todos os sons, e, como se não fosse suficiente, ouvia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>S – Todos os que o conheciam diziam que era muito calado, e era verdade, calava-se com frequência, ainda que só ficasse verdadeiramente em silêncio quando surpreendia por instantes o mistério do mundo.</p>
	<p>I – Aquele homem desconhecia o silêncio: tinha uma audição apurada, que amplificava todos os sons, e, como se não fosse suficiente, ouvia vozes.</p>
	<p>L – Às vezes desligava o som da televisão. Era sua forma de protestar.</p>
	<p>Ê – Perante os crescentes protestos, pediu silêncio, e foi atendido, mas, quando os olhou, logo percebeu que ainda não se tinham calado.</p>
	<p>N – Ficou em silêncio. Tinha coisas demais para dizer.</p>
	<p>C – No exacto momento em que perdeu a audição perdeu também a visão. Ficou para sempre excluído do mundo do audiovisual.</p>
	<p>I – O silêncio nunca é o que fica por dizer, afirmava ele, e calava-se.</p>
	<p>O – </p>
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		<title>A Medida de Todas as Coisas</title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/07/15/a-medida-de-todas-as-coisas/</link>
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		<pubDate>Tue, 15 Jul 2008 14:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>blogdapontamentos</dc:creator>
		
	<category>ímpares</category>
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		<description><![CDATA[	
Era um grande homem.
Um grande homem?
Sim, um grande homem! Tens dúvidas?
Um grande homem? — repetiu Artur, e riu-se — Olha que ele não ia gostar de ouvir isso, sobretudo vindo de ti.
José ia já começar a protestar, mas riu-se também, percebendo finalmente, e foi em uníssono que proferiram, em voz alta e entre mais gargalhadas.
Era [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>
Era um grande homem.<br />
Um grande homem?<br />
Sim, um grande homem! Tens dúvidas?<br />
Um grande homem? — repetiu Artur, e riu-se — Olha que ele não ia gostar de ouvir isso, sobretudo vindo de ti.<br />
José ia já começar a protestar, mas riu-se também, percebendo finalmente, e foi em uníssono que proferiram, em voz alta e entre mais gargalhadas.<br />
Era um homem grande com o caralho.<br />
E logo a seguir, ainda entre gargalhadas e ainda em uníssono.<br />
Um homem do caralho!</p>
	<p>E ficaram de repente sérios, ergueram os copos e saborearam o vinho, escolhido pelo Artur que, olhando-o em contraluz, os olhos semicerrados, lhe elogiou a cor, dizendo rubis os seus bordos e negro o seu coração.<br />
Uma cor do caralho! — atalhou José, e riram de novo durante muito tempo.<br />
O restaurante não estava cheio, mas também não estava vazio e, aqui e ali, algumas cabeças iam-se voltando, não só pelos risos estridentes e continuados, mas também pelos muitos sonoros caralhos que, a partir de certa altura, bem se podia dizer que era caralho para aqui e caralho para ali. Até o empregado de mesa, o mais antigo e respeitável de todos, entrou na dança, declarando convicto, quando lhe perguntaram se o robalo era fresco, que sim, que sim, que o robalo era fresco como o caralho. Estivesse se o restaurante mais a norte e não fosse tão luxuoso, talvez o facto não fosse tão invulgar, mas também, estou certo, nunca o deixaria de ser.<br />
Há anos que jantavam ali, a espaços, primeiro os três e agora apenas os dois. Eram da casa, como se costuma dizer, e se antes ninguém os incomodava, muito menos agora, dado o carácter comemorativo do jantar, em que os dois, em memória do ausente, se empenhavam em falar como ele mesmo falava nos seus últimos anos de vida. E a verdade é que tudo começou por uma brincadeira.</p>
	<p>Um dia, em que alguém dissertando a propósito de coisa nenhuma, se alongava em adjectivos e qualificações, ele resumiu tudo, calando-o de forma contundente.<br />
Já percebi, é do caralho.<br />
E foi apenas o princípio, pois rapidamente, e quase sem que o percebesse, se habituou a cortar qualquer longa e fastidiosa explicação com um taxativo Já percebi, é do caralho. E se no início lhe achavam piada, logo deixaram de lhe achar graça, o que ainda reforçou mais o seu hábito, e até o expandiu, tornando-se um vício de que nunca mais se livrou, esse de usar a palavra caralho a torto e a direito, o que ele mesmo admitia, quando o referiam, dizendo que estava cada vez pior, e que em quatro palavras que proferia cinco eram de certeza caralhos.<br />
E era caralho para aqui e caralho para ali, de tal forma que, depois de morto, foi esse jogo que os seus maiores amigos, o Artur e o José, decidiram consagrar como tributo à sua memória, naquele mesmo restaurante onde tantas vezes haviam discutido durante horas, discussões pontuadas pelos muitos caralhos em que ele era pródigo e, talvez seja importante dizer, o único palavrão que se lhe ouvia, mesmo nos momentos de maior exaltação.<br />
O tempo estava do caralho, o vinho era do caralho, tudo era do caralho ou, se não era do caralho, então, era como o caralho, o cabrito estava delicioso como o caralho, o serviço era lento como o caralho, aquela gaja era boa como o caralho.</p>
	<p>Um dia, naquele mesmo restaurante, num dia em que estava cheio de gente importante, até um ministro, diz-se, o dono meteu-se com ele, em voz baixa e pausada, O senhor doutor desculpe-me, mas está sempre com o coiso na boca, até lhe fica mal. E logo ele lhe respondeu, de imediato, Qual coiso nem meio coiso, o caralho, quer você dizer! E ainda o outro se afastava, engolindo o riso, e eis que ele se levantava, pedia silêncio, e erguendo o copo e voz, dirigiu-se a toda a sala em tom apoteótico.</p>
	<p>O caralho, meus senhores e minhas senhoras, o caralho, fiquem a saber, o caralho é a medida de todas as coisas.
</p>
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		<title>PESADELOS</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Jul 2008 10:24:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>blogdapontamentos</dc:creator>
		
	<category>ímpares</category>
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		<description><![CDATA[	Acordou sobressaltado. Ele ainda estava ali, sentado no sofá de canto, as pernas cruzadas, e olhava-o sem qualquer expressão no rosto cansado. Fechou os olhos e inspirou e expirou lentamente. Quando recuperou o controlo ele estava já ao seu lado e debruçava-se sobre si. Não resistiu, sabia que era desnecessário. Deixou-se ir.
	&#8211;>
	Tentou desesperadamente aumentar a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Acordou sobressaltado. Ele ainda estava ali, sentado no sofá de canto, as pernas cruzadas, e olhava-o sem qualquer expressão no rosto cansado. Fechou os olhos e inspirou e expirou lentamente. Quando recuperou o controlo ele estava já ao seu lado e debruçava-se sobre si. Não resistiu, sabia que era desnecessário. Deixou-se ir.</p>
	<p>&#8211;></p>
	<p>Tentou desesperadamente aumentar a distância entre ambos, mas ela era cada vez menor. Ele estava cada vez mais perto. O fim estava cada vez mais próximo. Preparou-se para o pior e foi o que aconteceu: ele conseguiu passar-lhe à frente.</p>
	<p>&#8211;></p>
	<p>Não acreditava em Deus e estava cansado de tudo, até mesmo de existir. Um dia matou-se, sem desespero nem mágoa, e acordou sobressaltado às portas do céu.</p>
	<p>&#8211;></p>
	<p>Depois de morto ainda viveu e morreu várias vezes, mas nunca mais acordou.</p>
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		<title>Circular n.º 101</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jun 2008 20:53:57 +0000</pubDate>
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	<category>ímpares</category>
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		<description><![CDATA[	crianças cães carros
janela indecisa
televisão desligada
corpo nu sofá
mesa rectangular
livros e mais livros
mão a escrever
crianças cães carros
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>crianças cães carros<br />
janela indecisa<br />
televisão desligada<br />
corpo nu sofá<br />
mesa rectangular<br />
livros e mais livros<br />
mão a escrever<br />
crianças cães carros</p>
]]></content:encoded>
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	</item>
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		<title></title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/06/27/938/</link>
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		<pubDate>Fri, 27 Jun 2008 16:29:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>blogdapontamentos</dc:creator>
		
	<category>ímpares</category>
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		<description><![CDATA[	gostava de escrever um poema, disseste
e eu expliquei-te que era fácil, bastava colocar
uma palavra a seguir a outra. mas já tu dizias
que não sabias escrever.  então ainda é mais fácil,
conclui com um sorriso, e entreguei-te uma
tesoura e uma folha impressa de revista, para que
recortasses o teu poema, da mesma forma
que eu acabei afinal por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>gostava de escrever um <strong>poema</strong>, disseste<br />
e eu expliquei-te que era fácil, bastava colocar<br />
uma palavra a seguir a outra. mas já tu dizias<br />
que não sabias escrever.  então ainda é mais fácil,<br />
conclui com um sorriso, e entreguei-te uma<br />
<strong>tesoura</strong> e uma folha impressa de revista, para que<br />
recortasses o teu poema, da mesma forma<br />
que eu acabei afinal por escrever este<br />
como uma <strong>brincadeira</strong> de criança
</p>
]]></content:encoded>
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	</item>
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		<title>o nosso coração é vegetal</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jun 2008 21:36:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>blogdapontamentos</dc:creator>
		
	<category>ímpares</category>
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		<description><![CDATA[	um projecto interessante.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>um <a href="http://www.letrario.pt/1_pt/900/9001.htm">projecto</a> interessante.
</p>
]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>pingue-pongue</title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/06/23/pingue-pongue/</link>
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		<pubDate>Mon, 23 Jun 2008 15:14:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>blogdapontamentos</dc:creator>
		
	<category>ímpares</category>
		<guid>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/06/23/pingue-pongue/</guid>
		<description><![CDATA[	Um conto filho da puta, por assim dizer, do meu amigo Fernando Dinis.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Um <a href="http://ficoatetardenomundo.blogspot.com/2008/06/um-conto.html">conto</a> filho da puta, por assim dizer, do meu amigo Fernando Dinis.
</p>
]]></content:encoded>
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	</item>
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		<title>[NADA ACONTECE DE REPENTE]</title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/06/16/nada-acontece-de-repente/</link>
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		<pubDate>Mon, 16 Jun 2008 09:34:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>blogdapontamentos</dc:creator>
		
	<category>ímpares</category>
		<guid>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/06/16/nada-acontece-de-repente/</guid>
		<description><![CDATA[	[Apeteceu-me deixar aqui o início, apenas esboçado,  de um texto  maior, mas que me parece funcionar como um conto. Apeteceu-me ainda dedicá-lo ao Rui Costa e ao Fernando Dinis.]
	E um dia aconteceu-lhe. Não foi capaz de erecção. Mesmo no meio do trabalho. Ela foi gentil, disse-lhe que compreendia, que não tinha qualquer importância, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>[Apeteceu-me deixar aqui o início, apenas esboçado,  de um texto  maior, mas que me parece funcionar como um conto. Apeteceu-me ainda dedicá-lo ao <a href="http://minguante.com/?autor=rui_costa">Rui Costa</a> e ao <a href="http://www.ficoatetardenomundo.blogspot.com/">Fernando Dinis</a>.]</p>
	<p>E um dia aconteceu-lhe. Não foi capaz de erecção. Mesmo no meio do trabalho. Ela foi gentil, disse-lhe que compreendia, que não tinha qualquer importância, e quis pagar-lhe na mesma, mas ele não aceitou; pediu-lhe desculpas, beijou-a e saiu.<br />
Foi nesse dia que pensou profundamente nos serviços que oferecia e chegou a uma conclusão que mudaria a sua vida: o sexo era o menos importante na profissão que desenvolvia; há muito que as mulheres que o contratavam queriam muito mais do que sexo. Sentiu como que uma epifania. Estava mudado.<br />
E se até então era já uma referência na sua profissão, a partir daí tornou-se uma lenda, dentro e fora do meio em que se movimentava.<br />
Se grande parte do que se conta hoje nunca aconteceu, isso pouco importa, pois a influência que essas histórias exercem não depende da sua verdade objectiva, mas do simples facto de serem contadas e ouvidas, uma e outra vez. Contadas e vividas. Uma e outra vez.</p>
	<p>Mais tarde se diria que ele fora sempre impotente, e até as mulheres que tinham sido penetradas por ele começaram a duvidar que alguma vez o tivessem sido; mas para ele nunca foi isso que esteve verdadeiramente em causa, mas sim a natureza profunda do que fazia.<br />
Porque o procuravam aquelas mulheres? O que queriam? Porque lhe pagavam?<br />
Foi a essas perguntas que ele tentou responder naquele dia, no dia em que, pela primeira vez, não foi capaz de erecção e, se não obteve uma resposta única, palpável e sólida, descobriu sem dúvida o caminho que queria percorrer. Da mesma forma que já antes lhe tinha acontecido.<br />
O caminho menos esperado. O caminho mais inesperado.</p>
	<p>O que é que tu fazes hoje em dia para ganhar a vida?<br />
Acompanho mulheres.<br />
Vais para a cama com elas?<br />
Sim, também. Às vezes mais que isso. Ou menos. Depende do ponto de vista.<br />
Estás a brincar comigo?<br />
Não podia estar mais sério.<br />
Soube que tinhas deixado de dar aulas. Nem quis acreditar. Lembro-me da paixão que tinhas pelo ensino, pela universidade.<br />
Cansei-me.<br />
E agora… és prostituto?<br />
Acho que se poderia dizer assim.<br />
Estás doido?</p>
	<p>A primeira vez que recebeu dinheiro por sexo foi quase por brincadeira. Uma amiga da mãe, às escondidas de um jantar chato, chato, chato.<br />
Quero oferecer alguma coisa, disse ela, e ele riu-se. Não precisas oferecer-me nada, que ideia. Mas ela insistiu, foi buscar a mala, tirou a carteira e deu-lhe todo o dinheiro que tinha lá dentro. Ele riu-se, negou com a cabeça, mas ela enfiou-lhe o dinheiro nos bolsos das calças, primeiro num, depois noutro, até ficar sem nada. Tinha mais do dobro da idade dele, mas ele não via essa diferença, via uma mulher bonita, culta, bastante carente e muito desejável. No entanto, não lhe devolveu o dinheiro, voltou mesmo aceitar mais, e não se surpreendeu quando um dia uma amiga dela lhe fez uma proposta clara e directa.</p>
	<p>Não era muito bonito, pelo menos de acordo com os padrões clássicos, mas tinha muito sucesso junto das mulheres, sobretudo as mais velhas, talvez porque fossem as mulheres mais velhas que ele preferia. E eram estas mulheres que o procuravam: mulheres mais velhas, mas também mais independentes, mais decididas, mais bem sucedidas. Foi assim desde o início, embora com o tempo a diferença de idade se esbatesse à medida que ele mesmo envelhecia, acontecendo cada vez mais que as suas clientes tivessem praticamente a mesma idade que ele. Manteve-se na sua profissão até ao fim, ainda que cada vez mais discretamente, até quase não se perceber se ainda o fazia por dinheiro ou apenas por gosto. E a verdade é que nunca deixou de ser procurado, nunca deixaram de lhe fazer propostas, muitas delas quase vergonhosas, tendo em conta as quantias envolvidas, verdadeiras pequenas fortunas. Mas aqui entramos já no domínio da lenda.</p>
	<p>O que querem as mulheres dos homens? Porque os procuram? Porque se apaixonam? Porque os desprezam? Porque correm atrás deles?<br />
Estas e outras perguntas foram as que ele colocou a si mesmo naquele dia em que não conseguiu uma erecção, e pouco importava se voltaria a ter alguma ou nunca mais, pois não era isso que estava em causa.<br />
Tinha chegado a um momento em que aquelas perguntas eram importantes para ele, se não respondê-las, pelo menos levantá-las.<br />
Há já alguns anos que vivia exclusivamente de vender os seus serviços a mulheres, e a verdade é que não o fazia tanto por dinheiro mas por verdadeira paixão.</p>
	<p>Os homens são uns parvos, umas crianças. Pagam-me por sexo e querem que eu os ame. Que parvoíce. São mesmo estúpidos. E ria-se muito.<br />
Era uma profissional das mais bem pagas, os homens pagavam-lhe fortunas, esperavam meses que ela se decidisse, atiravam-se aos seus pés e tudo isso apenas por sexo.<br />
São mesmo parvos, disse-lhe ele, e ela riu-se ainda mais.<br />
Talvez te devesse contratar, disse ela, e por momentos deixou de rir.<br />
Talvez, respondeu ele, e riram-se os dois, ao mesmo tempo, pela primeira vez.</p>
	<p>	Se tivera poucos relacionamentos amorosos antes de começar a sua profissão, a partir desse momento foi progressivamente deixando de os ter, até que ficou só. Talvez por isso se tenha dito que ele era incapaz de amar, quando o que ele ofereceria não era outra coisa senão amor; pago, é certo, mas amor, e não sexo, não apenas sexo, até chegar ao ponto de o sexo, tal como é entendido vulgarmente, nem mesmo fazer parte dos seus serviços. Mas também aqui entramos já no domínio da lenda.</p>
	<p>	A mulher apresentou-o pelo nome, sem explicar quem ele era ou o que fazia, mas todos pensaram que era o seu último amante, um homem atraente e bem sucedido. E era isso que ele era, um homem atraente, bem vestido, bem-falante, de maneiras elegantes, culto, fino; aquilo que os seus maridos e amantes não eram nem nunca seriam, e todos a invejavam.<br />
Ele não escondia o que fazia, mas poucos o tomavam por aquilo que ele era, um homem que vendia os seus serviços. E no entanto ele era muito claro quanto a isso, sobretudo com as mulheres que se aproximavam dele.</p>
	<p>	Mais do que ter prazer, ele sempre gostara de dar prazer, ou, se preferirem, ele só obtinha verdadeiro prazer a dar prazer e, se no geral isto era verdade, era ainda mais verdade quando se tratava de mulheres. E foi talvez por aí que tudo começou.<br />
Ele queria dar prazer ás mulheres, ao maior número de mulheres, e queria tanto fazê-lo que nem restava tempo para mais nada que não tivesse a ver com essa necessidade fundamental. Foi assim que abandonou tudo e se dedicou por completo á sua nova profissão. E não o fez às escondidas, de forma envergonhada, mas com paixão e orgulho no que ele chamava a sua arte.</p>
	<p>Vamos no teu carro ou no meu, perguntou ela, olhando para o Porsche com admiração, e ele estendeu-lhe as chaves com um sorriso, Queres experimentar? Ela olhou para ele, riu, e perguntou antes de aceitar, Não pago mais por isso, pois não?</p>
	<p>A maior parte das mulheres que o procurava não dizia que não a sexo, mas para a maioria isso não era o mais importante, e muito menos serem penetradas, ainda que docemente.<br />
As mulheres que o procuravam queriam outra coisa. Queriam aquilo que ele tinha para dar, era por isso que o procuravam.<br />
O pagamento era acertado e efectuado no início e não se falava mais nisso, a não ser que surgisse alguma alteração ao solicitado.<br />
Durante algum tempo chegou a ter alguém que lhe tratava disso, uma espécie de agente, de angariador, mas depois prescindiu dos seus serviços, não queria intermediários. Era tudo feito como um qualquer outro negócio: tinha uma tabela de preços, solicitavam os seus serviços e ele dizia quanto queria, depois faziam-se pequenos acertos.</p>
	<p>Quero que me acompanhe a um jantar de negócios. Gente muito importante. Deve estar atento a todos os meus pedidos, cortejar discretamente as mulheres e surpreender e divertir os homens com a sua ironia. Nada de novo. Muita discrição. Muito silêncio a perguntas indiscretas. O mesmo de sempre. Um fim-de-semana, todas as despesas por minha contas, o pagamento habitual e um bónus no fim se tudo correr bem. E eu sei que vai correr tudo bem.</p>
	<p>Em regra elas escolhiam os locais, os restaurantes, os hotéis, a não ser que lhe pedissem que as surpreendesse, a não ser que ele conhecesse já todos os seus locais preferidos. Ele escolhia os vinhos, acertava todos os pormenores, com elegância, com requinte, discorrendo sempre um pouco sobre tudo, de forma clara e despojada mas com autêntica paixão. E era atencioso, e sorria e escutava, e, para todas, ele era quem elas queriam que fosse, uma espécie de homem de sonho, de príncipe que obedece sem que lhe peçam.</p>
	<p>Mas tu gostas dessas mulheres?<br />
Elas pagam-me.<br />
Mas tu gostas delas?<br />
Gosto do que faço.<br />
Mas gostas delas?<br />
Já te respondi.<br />
Sim ou não?<br />
Se queres que responda com um sim ou um não, a minha resposta só pode ser sim.</p>
	<p>A família sempre soube o que ele fazia, e foram-se afastando pouco a pouco, com excepção do irmão mais novo que manteve sempre contacto com ele, embora se recusasse a falar sobre o que ele fazia. Não se importou muito, fora sempre um solitário, uma daquelas crianças e adolescentes que são chamados ora de macambúzios ora de introvertidos.<br />
Na verdade, também não tinha muitos amigos, vivia exclusivamente para a sua profissão e ela determinava em grande parte quem era e o que fazia. Tinha muito cuidado com o corpo, lia muito, mantinha-se informado sobre os mais variados assuntos, frequentava aulas de dança e de culinária e viajava sempre que podia. Na sua profissão era invejado e copiado, mas pouco eram aqueles que se mostravam dispostos a, como ele, dedicarem-se por completo à profissão.</p>
	<p>Acima de tudo as mulheres querem ser desejadas, e isso é o mais importante. Fazer uma mulher sentir-se desejada é mais difícil que satisfazer-lhe o desejo. E é isso sobretudo que eu faço.<br />
Satisfazer-lhe o desejo?<br />
Fazê-las sentir-se desejadas.<br />
Mas não lhe pagam por sexo?<br />
Pagam-me, mas não só por sexo.<br />
Mas dá-lhes sexo?<br />
Quando querem. Mas se quer saber, até podia usar outra pessoa para isso. O sexo não é o mais importante, pelo menos para as minhas clientes. E para mim também não.<br />
Então o que é?<br />
Já lhe disse.<br />
Sentirem-se desejadas?<br />
Agrada-me que perceba.<br />
Sou mulher.</p>
	<p>No dia em que não conseguiu uma erecção a sua vida mudou, mas essa mudança já se preparava há muito tempo. É sempre assim, nada acontece de repente.</p>
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		<title></title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/06/12/934/</link>
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		<pubDate>Thu, 12 Jun 2008 21:54:57 +0000</pubDate>
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</p>
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		<title>O HOMEM ADORMECIDO</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Jun 2008 20:44:04 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[	[para a Laura, esta pequena história que lhe contei, depois de a ter contado a mim mesmo na viagem que me levou até ela,]
	O homem acordou e levantou-se de imediato. Tinha de ir… tinha mesmo de ir.
A cama ainda o tentou chamar à razão, disse-lhe que dormisse mais um pouco, que precisava de descansar, mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>[para a Laura, esta pequena história que lhe contei, depois de a ter contado a mim mesmo na viagem que me levou até ela,]</p>
	<p>O homem acordou e levantou-se de imediato. Tinha de ir… tinha mesmo de ir.<br />
A cama ainda o tentou chamar à razão, disse-lhe que dormisse mais um pouco, que precisava de descansar, mas o homem não a ouviu, estava já a vestir-se e dali a pouco sairia para a cidade.<br />
A cama, sem saber o que fazer, pediu a ajuda da camisa, das cuecas, das calças, das meias e dos sapatos do homem, pedindo-lhes que o fizessem voltar para a cama, que o convencessem a descansar mais um pouco, mas também elas não sabiam o que fazer, e quando tentaram falar com o homem, já ele saía de casa e se dirigia para o carro, determinado a ir. Tinha de ir… tinha mesmo de ir.<br />
A camisa, as cuecas, as calças, as meias e os sapatos não se calavam, dizendo-lhe que faria melhor se ficasse em casa a descansar, que bem precisava, e que também para elas seria melhor se ficassem em casa, em vez de se sujarem, de apanharem suor e fumo. Mas ele não as ouviu, rodou a chave, pôs o carro a trabalhar e rumou para a cidade.<br />
As roupas pediram então ao carro que fizesse alguma coisa, que o homem precisava de descansar, elas sabiam que ele precisava, a cama tinha-lhes dito, e nesses assuntos ela era perita, disso não tinham dúvidas, e falavam, falavam e falavam, mas o carro não sabia o que fazer e juntou-se ao coro, dizendo ao homem que devia voltar para casa e descansar, em vez de se ir meter em filas, intermináveis e desgastantes, num pára e arranca que não lhe fazia bem, mas o homem não o ouviu, assim como não ouvia a camisa, as cuecas, as meias e os sapatos que, verdade seja dita, não se calavam. E falavam, falavam, falavam todos ao mesmo tempo, enquanto o homem combinava o seu dia usando sem parar o telemóvel.<br />
Foi então que uma voz se fez ouvir.<br />
Eu sei o fazer. Eu sei o que fazer!<br />
E todos a escutaram, menos o homem, que continuava a fazer os seus telefonemas. Eu sei o que fazer, Eu sei o que fazer, disse o telemóvel, e todos se calaram, menos o homem.<br />
E o que é?, perguntaram-lhe todos em coro, E o que é?, disse o carro, disse a camisa, disseram as cuecas, as meias e os sapatos.<br />
O que vais fazer?<br />
Vão ver, vão ver, disse o telemóvel, e calou-se, e todos se calaram, menos o homem, que começou a gritar, muito zangado, porque o telemóvel não funcionava.<br />
Mas o que é isto? Então o telemóvel agora não funciona? Não pode ser!<br />
E homem parou o carro e tentou fazer mais chamadas, mas o telemóvel estava mudo e, por mais que o homem fizesse, assim continuou. Então o homem deitou contas à vida e decidiu continuar para a cidade, depois logo se veria.<br />
Rodou a chave, uma e outra vez, mas o carro não pegou, estava como morto e pouco depois o homem desistiu de o tentar por a funcionar. Deitou contas à vida novamente e chegou mesmo a pensar se não deveria voltar para casa, que até estava perto, e deixar para amanhã a sua ida para a cidade, mas depois pensou melhor e decidiu continuar. Iria de táxi… mais tarde resolveria o problema do carro, e do telemóvel.<br />
Tinha de ir… tinha de ir, disse a si mesmo, determinado, mas quando começou a dirigir-se para a praça de táxis sentiu que a roupa como que lhe encolhia, a começar pela camisa, e depois também as calças e, o que era pior, as cuecas e os sapatos.<br />
Foi aí que decidiu finalmente voltar para casa, e foi a correr que o fez porque, por estranho que pareça, descobriu que quando corria a roupa quase parecia não lhe apertar, e só quando abrandava a sentia de novo a apertar cada vez mais.<br />
E assim, num instante, o homem chegou a casa, despiu-se completamente e sentou-se em cima da cama a pensar, e pensou que devia vestir outra roupa, e começar tudo de novo, mas estava cansado, tão cansado que se deitou na cama e logo adormeceu.<br />
Dizem que ainda dorme, mas o mais provável é que não seja verdade e há muito tenha despertado.</p>
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		<title>+ 1 pequena história&#8230;</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Jun 2008 13:23:51 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[	Paradoxo
	Quando chegou a casa, a mãe e o pai discutiam, gritando e gesticulando muito. O menino sentou-se na sala, tirou da mochila o caderno de apontamentos e um lápis, e começou a escrever cada frase proferida, numa caligrafia hesitante.
	Aqui e ali olhava ainda para os pais, e descrevia minuciosamente os seus movimentos.
	Escrevia. Escutava. Olhava. Recomeçava. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p><strong>Paradoxo</strong></p>
	<p>Quando chegou a casa, a mãe e o pai discutiam, gritando e gesticulando muito. O menino sentou-se na sala, tirou da mochila o caderno de apontamentos e um lápis, e começou a escrever cada frase proferida, numa caligrafia hesitante.</p>
	<p>Aqui e ali olhava ainda para os pais, e descrevia minuciosamente os seus movimentos.</p>
	<p>Escrevia. Escutava. Olhava. Recomeçava. E aquela sensação misteriosa apoderou-se novamente de si, uma espécie de alívio envergonhado que não era capaz de explicar.</p>
	<p>Não sabia então que escrever é também uma forma de fazer certas coisas, se não desaparecerem completamente, pelo menos transformarem-se, tornarem-se quase belas.</p>
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		<title>PEQUENAS HISTÓRIAS PARA MENINOS COM NERVOS DE AÇO</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Jun 2008 15:59:20 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[	A velha
	Já ninguém sabia a idade da velha. Sempre a tinham visto por ali, ao canto da sala, a olhar para a televisão com olhos de não ver.
Era, por assim dizer, como se fizesse parte da mobília e, com o tempo, passaram a ignorá-la por completo, geração após geração.
A velha não se importou nem um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p><strong>A velha</strong></p>
	<p>Já ninguém sabia a idade da velha. Sempre a tinham visto por ali, ao canto da sala, a olhar para a televisão com olhos de não ver.<br />
Era, por assim dizer, como se fizesse parte da mobília e, com o tempo, passaram a ignorá-la por completo, geração após geração.<br />
A velha não se importou nem um bocadinho, e continuou ali, ao canto da sala, a olhar para a televisão com olhos de não ver.<br />
Aliás, se assim se pode dizer, a velha nunca se tinha sentido melhor.<br />
Há muitos anos que ninguém a aborrecia, tantos quantos estava morta.</p>
	<p><strong>O mistério</strong></p>
	<p>Era uma criança hiperactiva, sempre a arranjar problemas na escola e em casa.<br />
Depois de muito insistir, os pais ofereceram-lhe um cachorrinho, que cresceu rapidamente e se tornou tão hiperactivo quanto o dono.<br />
A criança era muito cuidadosa, sobretudo quando iam à rua, mas um dia o cão fugiu-lhe mais uma vez, aproveitando uma pequena desatenção, e morreu atropelado mesmo à sua frente.<br />
A criança chorou durante dias e jurou a si mesma que nunca mais ia querer outro cão.<br />
	Nos meses seguintes os pais ofereceram-lhe outros cães, mas também morreram todos, pouco tempo depois, de forma inexplicável.</p>
	<p><strong>Um sorriso doce</strong></p>
	<p>	No caminho da escola para casa Marco veio pensando no que tinha contado na sala de aula sobre a sua família. A última promoção do pai no emprego, o sucesso do irmão mais velho com a sua banda de rock, a beleza da mãe… de tudo isso falara com entusiasmo. Era o seu primeiro ano naquela escola e ninguém ali o conhecia.<br />
Foi andando, e pensando, e sentiu-se cada vez mais triste.<br />
Quando chegou a casa os pais discutiam por causa do irmão que, mais uma vez, tinha levado a televisão para trocar por droga. O pai, desempregado há muito, estava notoriamente embriagado, gritava muito, e Marco pensou que não tardaria nada que ele batesse de novo na mãe.<br />
Esgueirou-se para o quarto, ainda mais triste, mas a mãe viu-o e foi ter com ele, o cabelo despenteado, os olhos muito abertos injectados de sangue, e passou-lhe de leve a mão pela cabeça, com um sorriso doce no rosto, e voltou logo a seguir para a sala, onde a discussão continuou ainda mais acesa.<br />
Marco ficou sozinho no quarto, feliz, no rosto um sorriso doce, tão doce quanto o sorriso que a mãe sorrira só para ele.          </p>
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		<title>Promiscuidade e plasticidade nómada</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Jun 2008 13:56:34 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[	Não queria deixar passar em branco este texto do Rui Costa sobre micro-ficção, sendo que a menor das razões é a de que sou aí citado. Promiscuidade e plasticidade nómada são sem dúvida as características que também mais aprecio na micro-ficção!
Abraço, Rui.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Não queria deixar passar em branco <a href="http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/2008/06/sobre-micro-fico-texto-lido-no-encontro.html">este texto</a> do Rui Costa sobre micro-ficção, sendo que a menor das razões é a de que sou aí citado. Promiscuidade e plasticidade nómada são sem dúvida as características que também mais aprecio na micro-ficção!<br />
Abraço, Rui.
</p>
]]></content:encoded>
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	</item>
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		<title>7 palavras</title>
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		<pubDate>Fri, 30 May 2008 08:18:52 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[	[Prolongamento]
O amor fortalecia-os. A morte precisou esforçar-se.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>[<strong>Prolongamento</strong>]<br />
O amor fortalecia-os. A morte precisou esforçar-se.
</p>
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		<title>o som das palavras</title>
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		<pubDate>Wed, 21 May 2008 10:32:37 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[	Quero deixar aqui um obrigado ao Carlos Norton e ao Zé Matos. Espero que tenha sido tão bom para vocês como foi para mim! Revi há pouco o espectáculo em vídeo e a sensação de produto conseguido (ou de hora feliz) manteve-se. Confesso que fiquei com vontade de repetir a experiência.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Quero deixar aqui um obrigado ao <a href="http://sopadapedra.blogspot.com">Carlos Norton</a> e ao Zé Matos. Espero que tenha sido tão bom para vocês como foi para mim! Revi há pouco o espectáculo em vídeo e a sensação de produto conseguido (ou de hora feliz) manteve-se. Confesso que fiquei com vontade de repetir a experiência.
</p>
]]></content:encoded>
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		<title></title>
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		<pubDate>Tue, 20 May 2008 11:18:06 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[	 
	[integrado nos Encontros às terças do Texto-al]
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p><img src='/images/EneCoisas.jpg' alt='' /> </p>
	<p>[integrado nos Encontros às terças do <a href="http://texto-al.blogspot.com">Texto-al</a>]</p>
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		<title>seis palavras</title>
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		<pubDate>Thu, 15 May 2008 13:16:08 +0000</pubDate>
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		<guid>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/05/15/seis-palavras/</guid>
		<description><![CDATA[	Em resposta a este irrecusável desafio lembrei-me primeiro de uma  versão adaptada de algo que em tempos escrevi, e que me poderia definir,
	Idiota a caminho de idiota completo.
	mas depois regresso ao texto e percebo que se fala em pequena biografia, o que me parece diferente.
	Nasci. Morrerei um dia. Entretanto vivo.
	[Não vou nomear ninguém mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Em resposta a este irrecusável <a href="http://cerejasmaduras.blogspot.com/2008/05/em-seis-palavras.html">desafio</a> lembrei-me primeiro de uma  versão adaptada de algo que em tempos escrevi, e que me poderia definir,</p>
	<p><strong>Idiota a caminho de idiota completo.</strong></p>
	<p>mas depois regresso ao texto e percebo que se fala em pequena biografia, o que me parece diferente.</p>
	<p><strong>Nasci. Morrerei um dia. Entretanto vivo.</strong></p>
	<p>[Não vou nomear ninguém mas quem quiser pode considerar-se nomeado e continuar o desafio.]
</p>
]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>A minha vaidade</title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/05/09/a-minha-vaidade/</link>
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		<pubDate>Fri, 09 May 2008 08:36:08 +0000</pubDate>
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		<guid>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/05/09/a-minha-vaidade/</guid>
		<description><![CDATA[	Escrevo por necessidade e dou a conhecer o que escrevo por partilha. 
	[ver outros lados da questão aqui]

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Escrevo por necessidade e dou a conhecer o que escrevo por partilha. </p>
	<p>[ver outros lados da questão <a href="http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/2008/05/o-outro-lado-da-questo.html">aqui</a>]
</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/05/09/a-minha-vaidade/feed/</wfw:commentRss>
	</item>
		<item>
		<title>OS MEUS DIAS</title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/05/07/os-meus-dias/</link>
		<comments>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/05/07/os-meus-dias/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 07 May 2008 09:11:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>blogdapontamentos</dc:creator>
		
	<category>ímpares</category>
		<guid>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/05/07/os-meus-dias/</guid>
		<description><![CDATA[	[AS MINHAS LEITURAS]
	Ler é algo que levo muito a sério. Leio todos os dias sem falta, pela manhã, que é quando sinto a mente mais aberta à alegria da leitura.
	Levanto-me muito cedo e, depois de executar a minha higiene pessoal e tomar a primeira refeição do dia, leio até a fome me voltar, lá para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>[AS MINHAS LEITURAS]</p>
	<p>Ler é algo que levo muito a sério. Leio todos os dias sem falta, pela manhã, que é quando sinto a mente mais aberta à alegria da leitura.</p>
	<p>Levanto-me muito cedo e, depois de executar a minha higiene pessoal e tomar a primeira refeição do dia, leio até a fome me voltar, lá para o meio da manhã, altura em que interrompo a leitura, apenas o tempo suficiente para comer uma peça de fruta, e retomo-a depois sem mais pausas até à hora do almoço. São mais de quatro horas de leitura por dia, o que me parece perfeitamente adequado ao meu estado e à minha condição actuais.</p>
	<p>Continuo a trazer livros para casa e a enchê-la com eles, como sempre fiz, mas os livros que leio são os mesmos há anos. Não conheço maior felicidade do que reler aqueles poucos livros que me agradam sempre mais a cada leitura.</p>
	<p>[OS MEUS ALMOÇOS]</p>
	<p>O almoço é sem dúvida a refeição a que dou mais importância, a única refeição do dia em que preparo realmente alguma coisa para comer e também a única em que me sento à mesa para comer.</p>
	<p>No entanto, tal como as outras refeições, o meu almoço depende sempre do que tenha em casa, o que, por estes dias que correm, depende por sua vez do que tenha recolhido durante os meus passeios dos dias anteriores.</p>
	<p>Hoje, por exemplo, é um bom dia, tenho um pacote inteiro de arroz carolino que me ofereceram ontem e um ramo de coentros que apanhei numa pequena horta no limite norte da cidade. Tenho também uma garrafa pequena de azeite meio cheia que trouxe comigo da última vez que me sentei num restaurante.</p>
	<p>Nestas circunstâncias, o meu almoço adivinha-se pouco exuberante, mas há muito que aprendi que o apetite é o melhor dos temperos.</p>
	<p>[AS MINHAS CONVERSAS]</p>
	<p>Nos meus passeios gosto muito de conversar com os cães, os gatos e as pedras, ainda que com cada um deles por razões diferentes.</p>
	<p>Os cães abrem muito a boca, abanam vigorosamente a cauda e às vezes até ladram, mas nunca me ignoram ou me olham com indiferença.</p>
	<p>Os gatos deixam-me falar, silenciosos, atentos, como que dizendo-me que aqueles que escutam não são menos importantes do que aqueles que falam.</p>
	<p>De todos, os melhores ouvintes são as pedras, ainda que as maiores escutem melhor que as mais pequenas e as mais redondas melhor que as pontiagudas.</p>
	<p>Já com as flores raramente converso, aprecio muito a sua beleza mas não lhes suporto a tagarelice: têm sempre alguma coisa pouco importante para dizer e estão sempre dispostas a dizê-lo.</p>
	<p>Escusado será dizer que nos meus passeios nunca converso com pessoas. Elas olham-me, cada vez mais, com um misto de indiferença e desconfiança.</p>
	<p>[OS MEUS PASSEIOS]</p>
	<p>Uma única preocupação rege os passeios que dou todas as tardes, a de que não tenham qualquer objectivo. Não quero com eles chegar a algum lado ou obter algum proveito.  A única função que realizam é de ordem estritamente espiritual e tudo faço para garantir que assim continue.</p>
	<p>Por esse motivo é que são todos diferentes no seu traçado, o mais possível, apesar de, por segurança e comodidade, serem em parte iguais a si próprios, pelo menos pela metade, uma vez que regresso sempre pelo mesmo caminho que me levou onde o acaso, apesar de controlado, me conduziu.</p>
	<p>Verdade seja dita que sempre tive uma boa memória visual e um razoável grau de concentração, o que explica que nunca me tenha perdido e tenha sempre conseguido regressar sobre os meus passos.</p>
	<p>Mas se no início o fazia com alguma dificuldade, hoje em dia passeio sem esforço e com autêntica felicidade.</p>
	<p>[AS MINHAS NOITES]</p>
	<p>As minhas noites são todas iguais: fico sempre em casa mas quase não durmo. É um problema que tenho há muitos anos, e para o qual não consegui arranjar outra solução a não ser aceitá-lo, e aproveitar as poucas horas que consigo dormir.</p>
	<p>Como nunca sei quando o sono vai chegar, deixo-me ficar à espera dele quanto tempo for necessário, deitado na cama, imóvel, de barriga para o ar e com os olhos bem fechados.</p>
	<p>Aprendi desta forma a identificar todos os ruídos que se produzem no meu bairro desde que o dia desaparece até que volta, pois a insónia abriu-me os sentidos e a memória das noites é-me muito mais viva que a dos dias.</p>
	<p>Só não sei a que horas os ruídos se produzem, pois mantenho sempre os olhos fechados, mas conheço toda a sequência em que se produzem, como se fosse o próprio bater do meu coração.</p>
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		<title>rua do imaginário</title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/04/25/rua-do-imaginario/</link>
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		<pubDate>Fri, 25 Apr 2008 06:53:03 +0000</pubDate>
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	<category>ímpares</category>
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		<description><![CDATA[	ligue-se!

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			<content:encoded><![CDATA[	<p><a href="http://ruadoimaginario.blogspot.com">ligue-se!</a>
</p>
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		<title>A SUA MELHOR OBRA</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Apr 2008 21:22:45 +0000</pubDate>
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	<category>ímpares</category>
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		<description><![CDATA[	[ao Paulo Serra]
	Está excelente. É a tua melhor obra.
Achas?
Nunca fizeste nada assim. É o melhor que já fizeste, e um dos melhores quadros que já vi.
Mas ainda não está acabado.
Para mim está mais que acabado.
Não, falta qualquer coisa.
	A tela estava deitada no chão e o pintor ajoelhado a seu lado, como se rezasse, a cabeça [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>[ao Paulo Serra]</p>
	<p>Está excelente. É a tua melhor obra.<br />
Achas?<br />
Nunca fizeste nada assim. É o melhor que já fizeste, e um dos melhores quadros que já vi.<br />
Mas ainda não está acabado.<br />
Para mim está mais que acabado.<br />
Não, falta qualquer coisa.</p>
	<p>A tela estava deitada no chão e o pintor ajoelhado a seu lado, como se rezasse, a cabeça baixa. O amigo, o único verdadeiro amigo que tinha, estava em pé à sua frente, e ambos olhavam o quadro.</p>
	<p>Estás no pleno domínio da tua arte, este quadro diz isso. Conseguiste finalmente encontrar o equilíbrio que procuravas.<br />
Equilíbrio?<br />
Nota-se também no que dizes, na forma como falas da tua arte. Estás diferente. Estás melhor.<br />
Organizei-me. Precisava fazê-lo.<br />
Sim, e isso nota-se. Há um equilíbrio quase perfeito entre o que és e a tua arte.<br />
Equilíbrio?</p>
	<p>O pintor olhou para cima para o amigo e os seus olhares encontraram-se. Conheciam-se há muito tempo. Tinham aprendido a escutar-se um ao outro.</p>
	<p>Estou mais sereno mas dificilmente chamaria equilíbrio a este meu novo estado.<br />
Estás mais seguro.<br />
Mais seguro?<br />
Sim, mais seguro.<br />
Talvez.</p>
	<p>O pintor levantou-se e recuou dois ou três passos, sempre a olhar para a tela no chão.</p>
	<p>É sempre tão difícil acabar um quadro.<br />
Como é que sabes quando está acabado?<br />
Quando está acabado eu sei! O difícil é chegar lá.<br />
Mas não sabes o que queres fazer?<br />
Não exactamente.<br />
Não antecipas o quadro acabado?<br />
Não. Não propriamente.</p>
	<p>O amigo colocou-se ao lado do pintor e ficaram os dois durante algum tempo em silêncio, a olhar a tela. O dia estava a terminar e a luz entrava já a custo no atelier. O pintor continuava a olhar a tela.</p>
	<p>Vamos beber uma cerveja?<br />
Mais tarde.<br />
Tens a certeza?<br />
Tenho de acabar o quadro.<br />
Pensei que concordavas comigo.<br />
Como?<br />
Pensei que tinhas concordado que estava terminado.<br />
Não.<br />
O quê?<br />
Não está terminado.<br />
Não?<br />
Não, ainda não.</p>
	<p>O pintor continuou a olhar o quadro, silencioso, imóvel. A tela no chão oferecia-se ao seu olhar, submissa, mas ele olhava-a como que assustado, desconfiado. O amigo olhou para o pintor, de uma forma não muito diferente daquela que o pintor olhava para a sua obra.</p>
	<p>Olha que não te morde.<br />
O quê?<br />
Olhas para o quadro como se fosse um animal perigoso.</p>
	<p>E sorriu, soltou mesmo uma pequena risada, mas o pintor manteve o mesmo semblante inquieto e não desviou nem por um instante o olhar do quadro. O amigo foi até à porta, acendeu a luz, e ficou a olhar o pintor.</p>
	<p>É a tua melhor obra, disse finalmente, e saiu sem esperar resposta. Sabia que quando ele estava assim o melhor era deixá-lo sozinho. Ou terminaria o quadro ou abandoná-lo-ia, mas ia demorar. Já tinha estado noites inteiras à espera que ele acabasse um quadro. Mas quando ele conseguia acabá-lo, podia ser uma pequena pincelada, uma mancha de cor, ou até uma frase, o quadro ganhava subitamente sentido e brilhava como uma estrela recém-nascida. Mas daquela vez o quadro parecia-lhe acabado, e o mais certo é que o amigo acabasse por desistir.</p>
	<p>Dobrou a primeira esquina a seguir ao largo e entrou no café onde iam muitas vezes os dois beber uma cerveja. Numa das mesas estava um amigo que morava ali perto, também escritor, companheiro de copos e de tertúlias.</p>
	<p>Vieste visitar o teu amigo pintor?<br />
Sim, saí mesmo agora do atelier.<br />
Como é que ele está?<br />
Está bem, as coisas estão a correr-lhe melhor. Está a começar a ser reconhecido.<br />
Gosto do que ele faz.<br />
Está cada vez mais no domínio da sua arte.<br />
Os quadros dele são bastante obsessivos, não são? E ele então, é melhor nem falar.</p>
	<p>Estavam os dois a beber cerveja e davam longos golos pelas garrafas, como que pontuando cada frase com um silêncio líquido.</p>
	<p>A ligação entre a vida e a obra é nele muita íntima e intensa. Como em todos os grandes artistas! Não concordas?<br />
Claro. A técnica por si só pode produzir boas obras, mas para uma obra excelente é preciso algo mais.<br />
Havias de ver o quadro que acabou de pintar. Excelente. A sua melhor obra.</p>
	<p>E pediram mais duas cervejas, e falaram de literatura, e mudaram de sítio, e continuaram a beber cerveja e a falar de literatura. Só muito mais tarde o escritor voltou a lembrar-se do seu amigo pintor.</p>
	<p>Teria acabado o quadro? </p>
	<p>No exacto momento em que o amigo se interrogou, que a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção, o pintor levantou-se decidido, sacudindo a sua imobilidade, e dirigiu-se a uma bancada perto da janela, de onde retirou uma navalha que usava habitualmente, sempre que era necessário raspar ou cortar qualquer coisa.</p>
	<p>Trouxe-a fechada na mão até ao pé da tela e voltou a ajoelhar-se. </p>
	<p>Olhou ainda mais uma vez a tela e mais uma vez percebeu que sabia como acabá-la. Sabia o que faltava. Seria sem dúvida a sua melhor obra.</p>
	<p>Abriu a navalha, cortou os pulsos sem hesitação e suspendeu-os à sua frente, à altura do peito, o sangue a derramar-se sobre a tela.</p>
	<p>							Faro, Abril de 2008<br />
							Luís Ene</p>
	<p>[publicado <a href="http://texto-al.blogspot.com/2008/04/sua-melhor-obra.html">aqui</a>]</p>
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		<title></title>
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		<pubDate>Tue, 08 Apr 2008 17:58:36 +0000</pubDate>
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	<category>ímpares</category>
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		<description><![CDATA[	Sigam-me

]]></description>
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</p>
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		<title>Volto já!</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Mar 2008 11:02:01 +0000</pubDate>
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	<category>mistura fina</category>
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		<description><![CDATA[	 
	Ainda há livros que quero
.
.
.
ler.
	Ainda há livros que quero
.
.
.
escrever.
	Ainda há tanto para
.
.
.
viver.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p><a href="http://www.nelsondaires.net/fotoblogs/alberto_monteiro/index.html"><img src='/images/037572.jpg' alt='' /> </a></p>
	<p>Ainda há livros que quero<br />
.<br />
.<br />
.<br />
ler.</p>
	<p>Ainda há livros que quero<br />
.<br />
.<br />
.<br />
escrever.</p>
	<p>Ainda há tanto para<br />
.<br />
.<br />
.<br />
viver.
</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Volto já</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Mar 2008 15:18:34 +0000</pubDate>
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	<category>ímpares</category>
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		<description><![CDATA[	Há ainda tantos livros  que quero ler.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Há ainda tantos livros  que quero ler.
</p>
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		<title>pequenas histórias viciadas 6 e 7</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Mar 2008 07:03:16 +0000</pubDate>
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	<category>microficção</category>
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		<description><![CDATA[	[chego assim às 7x7 e por aqui fico]
	EN PASSANT
Deixou de jogar xadrez. Perdeu vinte quilos.
	O VIRA-CASACAS
Morreu e passou a acreditar em Deus.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>[chego assim às 7x7 e por aqui fico]</p>
	<p>EN PASSANT<br />
Deixou de jogar xadrez. Perdeu vinte quilos.</p>
	<p>O VIRA-CASACAS<br />
Morreu e passou a acreditar em Deus.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>pequenas histórias viciadas 4 e 5</title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/03/11/historias-viciadas-4-e-5/</link>
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		<pubDate>Tue, 11 Mar 2008 13:50:06 +0000</pubDate>
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	<category>microficção</category>
		<guid>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/03/11/historias-viciadas-4-e-5/</guid>
		<description><![CDATA[	[Depois do Fernando, duas histórias viciadas para a Margarida, completando assim a trindade minguântica.]
	CONDIÇÃO FEMININA
	Sabia-lhe bem, mas a ele sabia-lhe melhor.
	A FEMINISTA DETERMINADA
	Amava-o mas não tinha escolhido amá-lo. Deixou-o.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>[Depois do Fernando, duas histórias viciadas para a <a href="http://margarida23.blogspot.com">Margarida</a>, completando assim a trindade minguântica.]</p>
	<p>CONDIÇÃO FEMININA</p>
	<p>Sabia-lhe bem, mas a ele sabia-lhe melhor.</p>
	<p>A FEMINISTA DETERMINADA</p>
	<p>Amava-o mas não tinha escolhido amá-lo. Deixou-o.</p>
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	</item>
		<item>
		<title>pequenas histórias viciadas 2 e 3</title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/03/10/pequenas-historias-viciadas-2-e-3/</link>
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		<pubDate>Mon, 10 Mar 2008 09:35:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>blogdapontamentos</dc:creator>
		
	<category>ímpares</category>
		<guid>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/03/10/pequenas-historias-viciadas-2-e-3/</guid>
		<description><![CDATA[	[O próximo tema da Minguante é Vícios. A Minguante é uma revista de micronarrativas e uma das mais citadas é O Dinossauro de Monterroso, apenas com sete palavras. Por tudo isto, escrevo estas pequenas histórias viciadas. As duas de hoje são para o Fernando, mestre das pequenas histórias debochadas.]
	COERÊNCIA
	Profissão: percussionista. Desporto preferido: ténis. Vício: masturbação.
	TEMPOS [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>[O próximo tema da <a href="http://minguante.com">Minguante</a> é Vícios. A Minguante é uma revista de <a href="http://minguante.com/?faq=g2">micronarrativas</a> e uma das mais citadas é <a href="http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2228">O Dinossauro</a> de Monterroso, apenas com sete palavras. Por tudo isto, escrevo estas <a href="http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/03/07/pequenas-historias-viciadas-1/">pequenas histórias viciadas</a>. As duas de hoje são para o <a href="http://minguante.com/?autor=fernando_gomes">Fernando</a>, mestre das <a href="http://metamorfases.blogsome.com/">pequenas histórias debochadas</a>.]</p>
	<p>COERÊNCIA</p>
	<p>Profissão: percussionista. Desporto preferido: ténis. Vício: masturbação.</p>
	<p>TEMPOS MODERNOS</p>
	<p>Para poupar tempo fodia sempre de pé.
</p>
]]></content:encoded>
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	</item>
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		<title>injustiça</title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/03/09/injustica/</link>
		<comments>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/03/09/injustica/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 09 Mar 2008 10:53:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>blogdapontamentos</dc:creator>
		
	<category>mistura fina</category>
		<guid>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/03/09/injustica/</guid>
		<description><![CDATA[	Matou: foi condenado numa multa. Não pagou a multa: foi preso.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Matou: foi condenado numa multa. Não pagou a multa: foi preso.
</p>
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	</item>
		<item>
		<title></title>
		<link>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/03/07/913/</link>
		<comments>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/03/07/913/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 07 Mar 2008 17:38:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>blogdapontamentos</dc:creator>
		
	<category>ímpares</category>
		<guid>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/03/07/913/</guid>
		<description><![CDATA[	
	Quem me conhece sabe que sou mais do tipo de gostar de quebrar correntes, mas, vinda de onde vem e porque é sexta-feira, vou passar o prémio a sul, pelas manas, pelo António, pelo asulado e pelo Helder.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p><img src='/images/bloggerdeldia.jpg' alt='' /></p>
	<p>Quem me conhece sabe que sou mais do tipo de gostar de quebrar correntes, mas, <a href="http://zeromaisquatro.blogspot.com/2008/03/blogger-del-dia.html">vinda</a> de onde <a href="http://zeromaisquatro.blogspot.com/">vem</a> e porque é sexta-feira, vou passar o prémio a sul, pelas <a href="http://cerejasmaduras.blogspot.com/">ma</a>n<a href="http://fugirdafoto.blogspot.com/">as</a>, pelo <a href="http://blogal.blogspot.com/ antónio baeta">António</a>, pelo <a href="http://asul-blog.blogspot.com/ asulado">asulado</a> e pelo <a href="http://contrasensus.blogspot.com/ helder">Helder</a>.
</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blogdapontamentos.blogsome.com/2008/03/07/913/feed/</wfw:commentRss>
	</item>
	</channel>
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