recortes de amor

28 08 2006

Fecho a luz e tu abraças-me, beijas-me, dizes que me amas, e ao acordar estranho não estares ao meu lado. Faço contas à vida: passaram cinco anos desde que te foste embora e eu ainda não te deixei ir.

Dizes que não te podes encontrar comigo e envias-me mil beijos. Digo-te que não faz mal e termino com mil beijos. Mais dois mil beijos que se perderam.

Um dias destes podemos encontrar-nos, dizes com um sorriso, e eu quase te nomeio todos os dias para vir, até que aceites um, mas já tu, perante o meu silêncio, repetes que um dia destes podemos encontrar-nos, e eu sorrio: sei que esse dia nunca vai chegar.

Parece que foi ontem, disseste, e eu concordei. Na verdade, todo o passado é ontem.

pretérito presente

26 08 2006

[porque hoje me sinto perdulário e este post estava há já algum tempo em rascunho]

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Primeiro, penso em tirar uma ou duas fotografias a partir de espelhos reflectores (será esta a designação correcta?). Depois, lembro-me de uma outra fotografia, vários anos atrás, noutra cidade, em idênticas circunstâncias, e fico a pensar o que essas fotos, tiradas nesta cidade onde agora vivo e outrora vivi, poderiam dizer-me de quem fui e de quem sou. Penso em locais particularmente plenos de memórias significativas,

e logo desde a primeira foto constato que a memória que me é oferecida é, sobretudo, a memória do que não existe a não ser quando o recordo. A carreira de tiro, local de exercícios militares, que durante um ano atravessei quase diariamente para ir à escola, lá longe, no outro lado da cidade, já não existe. E quando passo noutros locais,

o mercado, a escola primária, o café aliança, a cidade velha, em quase todos só de olhos fechados consigo deles extrair parcas memórias.

Foi por não querer confrontar as imagens da minha memória com as da realidade galopante que saí do Algarve, no início da idade adulta, e só aqui voltei, em circunstâncias excepcionais, há poucos anos. Por isso, a cidade que vejo só pela negação me recorda a cidade que vivi,

e nestas fotografias interessa-me muito mais o que eu vejo do que aquilo que é dado a ver.

[Este texto foi escrito antes e durante a tomada das fotografias e só depois passado a palavras.]

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Leio com horror que o nariz e as orelhas nunca deixam de crescer, enquanto o rosto, por seu lado, encolhe com o tempo. Fico a pensar nisso e acabo por sorrir. Afinal não é muito diferente do que se passa entre o que recordamos e o real.

pessoas que eu conheci

25 08 2006

Conheci um homem que não tinha medo de nada.
Se ainda for vivo tenho a certeza que todos ainda têm medo dele, mas o mais certo é que há muito tenha morrido.

Conheci um homem que era capaz de contar histórias sem fim.
O seu problema era que quando começava nunca sabia quando ia parar.
Uma vez contou durante tanto tempo que adormeceu, e outra ficou completamente afónico.
No entanto, de uma e de outra vez, nem assim parou de contar.

Conheci uma mulher sábia, tão sábia que não fazia a mínima ideia que o era.
A verdadeira sabedoria é invisível, mesmo para quem a detém.

Conheci um homem mentiroso, tão mentiroso que era como um relógio parado, só por mero acaso dizia a verdade.

Conheci uma mulher que tinha a maior facilidade em agradar aos homens, e podia ter qualquer um, mas não queria.
E não era que Deus tivesse dado nozes a quem não tinha dentes, mas sim que ela preferia avelãs.

Conheci um homem sensato.
Fugia de mim sempre que me via.

Conheci um homem que era um poeta maldito.
Era também, como não podia deixar de ser, um homem abençoado.

Conheci um homem muito repetitivo.
Por mais que mudasse continuava sempre o mesmo.

fragmentos de uma conversa com um amigo que já morreu

23 08 2006

[este blog continua, como muito bem refere o Henrique, intermitente.]

Dizes-me que gostas de apreciar os tornozelos das mulheres e eu sorrio. Temos praticamente a mesma idade, mas tu pareces ser do tempo em que ainda se despiam as mulheres com os olhos.

Dizes-me que a filosofia não serve para nada, respondo-te que é mesmo assim, ajuda-nos tão só a viver; mas tu insistes que é inútil, completamente inútil, e concluis, Estamos todos a morrer.

Pergunto-te por que te suicidaste e tu pareces admirado. Por que não me perguntas antes, dizes-me, por que razão me cansei de viver? E eu digo-te que sei como te cansaste de viver, e tu insistes em perguntar, Por que queres saber então por que me suicidei? Então eu calo-me, se há uma coisa que eu sei é que não se deve discutir com os mortos.

Dizes-me, Quando morreres eu morrerei outra vez, e eu respondo-te com um sorriso, Não percebeste ainda que não morreremos enquanto alguém se lembrar de nós? E apresso-me a escrever estas linhas.

mais 500

20 08 2006

Ou muito me engano ou faz hoje quatro anos que escrevo e edito em b-l-o-g.

Método e disciplina

Leio durante várias horas um extenso parecer jurídico; depois, leio um poema, o mais belo poema que alguma vez li. No dia a seguir farei o mesmo. Há muitos anos que o faço todos os dias.

Ponto de vista

Vou na rua e ouço alguém comentar que o tempo passa num piscar de olhos. Que disparate, digo a mim mesmo, que disparate. O tempo não passa num piscar de olhos; o tempo é, ele mesmo, um piscar de olhos.

Fragmento de uma conversa que nunca teve lugar

“Tens prazer em escrever?”
“Não, absolutamente nenhum. Tenho prazer em ler. Escrever é exclusivamente do domínio do desejo, do desejo todo ele dor, raiva e frustação. Por isso prefiro escrever textos pequenos, textos em que entro e logo logo saio.”

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[Este post foi feito e refeito ao longo dos dias em que nada aqui foi colocado.]