[porque hoje me sinto perdulário e este post estava há já algum tempo em rascunho]
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Primeiro, penso em tirar uma ou duas fotografias a partir de espelhos reflectores (será esta a designação correcta?). Depois, lembro-me de uma outra fotografia, vários anos atrás, noutra cidade, em idênticas circunstâncias, e fico a pensar o que essas fotos, tiradas nesta cidade onde agora vivo e outrora vivi, poderiam dizer-me de quem fui e de quem sou. Penso em locais particularmente plenos de memórias significativas,

e logo desde a primeira foto constato que a memória que me é oferecida é, sobretudo, a memória do que não existe a não ser quando o recordo. A carreira de tiro, local de exercícios militares, que durante um ano atravessei quase diariamente para ir à escola, lá longe, no outro lado da cidade, já não existe. E quando passo noutros locais,

o mercado, a escola primária, o café aliança, a cidade velha, em quase todos só de olhos fechados consigo deles extrair parcas memórias.

Foi por não querer confrontar as imagens da minha memória com as da realidade galopante que saí do Algarve, no início da idade adulta, e só aqui voltei, em circunstâncias excepcionais, há poucos anos. Por isso, a cidade que vejo só pela negação me recorda a cidade que vivi,

e nestas fotografias interessa-me muito mais o que eu vejo do que aquilo que é dado a ver.

[Este texto foi escrito antes e durante a tomada das fotografias e só depois passado a palavras.]
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Leio com horror que o nariz e as orelhas nunca deixam de crescer, enquanto o rosto, por seu lado, encolhe com o tempo. Fico a pensar nisso e acabo por sorrir. Afinal não é muito diferente do que se passa entre o que recordamos e o real.