Pensamentos mais-que-imperfeitos (1)
Acontece-me muitas vezes sentir que só eu compreendo o que estou a dizer. Por mais alto que fale. Por isso calo-me cada vez mais, e no silêncio escuto-me a mim próprio.
Pensamentos mais-que-imperfeitos (2)
É tão difícil ver-me, em qualquer espelho, com ou sem metáforas.
Pensamentos mais-que-imperfeitos (3)
Prestar atenção é esvaziar-me.
Pensamentos mais-que-imperfeitos (4)
O vento lá fora
despenteia as árvores:
as folhas caem.
—>
As folhas perdem
a cor, esquecem-se que
são árvore, caem.
—>
Uma folha sem cor:
por um breve instante
esqueço quem fui.
—>
A palmeira baloiça
ao vento de Outono. Risco
outra vez o verso.
—>
O doce sabor
da uva na boca. Como é
linda a minha filha!
Pensamentos mais-que-imperfeitos (5)
Uma rã mergulha
na folha onde escrevo.
Salpicos de tinta.
Pensamentos mais-que-imperfeitos (6)
Intercontinental
Nem há um instante
que estive aí contigo
sem daqui sair.
—>
Mergulho ainda
mais na leitura: o vento
assobia lá fora.
pensamentos mais-que-imperfeitos (7)
Beberico chá,
escrevinho alguns poemas,
e a tarde passa.
pensamentos mais que imperfeitos (8)
Bem feitas as contas,
só me tenho a mim e
algumas obrigações.
pensamentos mais-que-imperfeitos (9)
Outono
1
As folhas confundem-se
com as pedras da calçada:
Outono nos pés.
2
Como é que se chama
a árvore que contemplo?
Seu nome é Outono.
pensamentos mais-que-imperfeitos (10)
A escrita e a vida
Escrevo um romance, sou romance.
Escrevo um conto, sou conto.
Escrevo um poema, sou poema.
E é assim que a escrita e a vida
em mim tanto se fundem e confundem.
pensamentos mais-que-imperfeitos (11)
Mão aberta
1
Vazio de mim
Acordo a meio da noite
Cheio de palavras.
2
Aqui e agora
Neste preciso momento
Eu sou não sei quem.
3
Aqui e agora
Tento capturar uma frase
Que já esqueci.
4
Aqui e agora
Neste preciso instante
Sou este poema
5
Um haiku não pode
Ser tudo. É na verdade
Um simples apenas.
Pensamentos mais-que-imperfeitos (12)
Dez horas e sete minutos
Está um bom dia para viajar
luminoso, nem muito quente nem
muito frio. E é tambem assim que
me sinto. Nem uma coisa nem outra,
mas, no entanto, aberto a tudo,
tal e qual este dia dia que ainda
agora começou e muito promete.
Da ambiguidade poética
Este não é um poema ambíguo:
Diz com muita exactidão e clareza
Tudo o que eu quero que ele diga
E tudo o que ele mesmo quer dizer.
Aceitem-no pois, assim, tal como
eu o aceitei. Nem outra coisa
esperava, de vocês e de mim.
Pensamentos mais-que-imperfeitos (13)
Aforismos um pouco duvidosos
1. O dedo que aponta é o mesmo que tira a caca do nariz.
2. A verdade não existe. Esta é a única verdade.
3. A verdade é só uma: a verdade de cada coisa que existe.
4. A morte não existe, só existe a vida.
pensamentos mais-que-imperfeitos (14)
Ler quem sou
Não lemos, lemo-nos, li não sei onde
e jamais me esqueci dessa verdade.
Talvez seja por isso que tento ler
apenas o que na verdade preciso
para conseguir afinal ser quem sou.
Todos os dias
Leio-me e escrevo-me
todos os dias,
do mesmo modo
que respiro e o
meu coração bate:
Como se rezasse,
como se nada
mais houvesse,
como se a escrita
imitasse a vida.
pensamentos mais-que-imperfeitos (15)
À tua espera
Estou à tua espera, no átrio do museu.
Penso no tempo. É natural que o faça.
Não porque eu tenha chegado antes da hora
ou tu estejas atrasada. Penso no tempo
apenas porque muito tempo passou desde
a última vez. Penso no tempo, em quem fomos
e em quem somos e, assim pensando, eis que
o tempo passa e tu chegas, por fim, à
hora marcada.
pensamentos mais-que-imperfeitos (16)
Desejou-a intensamente, assim mesmo, de repente, sem mais nem menos, e sentiu também nela esse desejo. Não duvidou nem por um momento da sua percepção, mas recusou-se a acreditar que o que sentia fosse algo mais que um produto da sua imaginação e, no exacto momento em que mais a desejava, disse-lhe adeus e foi-se embora, deixando-a para trás vestida apenas com o seu desejo.
pensamentos mais-que-imperfeitos (17)
É tudo verdade
Desejei-te intensamente, assim mesmo,
de repente, sem mais nem menos,
e em ti senti igual desejo. Não duvidei,
nem por um momento, da minha percepção,
mas recusei-me a acreditar que o que estava a acontecer
fosse algo mais que um produto da minha imaginação e,
no exacto momento em que mais te desejava,
disse-te adeus e fui-me embora, deixando-te para trás.
No caminho para casa fui meditando sobre a verdade das coisas,
e pensei que tudo seria incolor, inodoro, insípido e silencioso,
não fosse o dom de tudo percebermos de outra forma.
É sempre assim que afinal acontece,
foi assim mesmo que me aconteceu.
pensamentos mais-que-imperfeitos (18)
A cor dos teus olhos
“Qual é a tua cor preferida?”, pergunta-me ela,
e eu respondo: “A cor dos teus olhos”.
Então ela fica em silêncio e parece muito séria,
mas quando a olho bem nos olhos, eis que neles
vejo um sorriso luminoso, belo e subtil,
e fico a pensar que o que era afinal
um simples piropo, pode muito bem ser
uma enorme verdade.
pensamentos mais-que-imperfeitos (19)
Um poema que queria ser longo
Queria escrever um poema longo. Queria tanto.
Mas não tenho tempo. Escrevo apenas poemas breves.
É que um poema breve escreve-se num instante,
num qualquer intervalo entre duas coisas quaisquer.
Já um poema longo é algo de muito diferente,
é preciso tempo, muito tempo, para o escrever.
E não adianta somar vários poemas breves
na esperança de conseguir um poema longo.
É muito mais complicado do que isso.
Além de que os meus poemas contam histórias,
histórias sempre com princípio, meio e fim;
e uma história, toda a gente sabe, ou se conta logo ou nunca,
nunca mais acaba.
Por isso é que é preciso tempo e, já disse e repito,
eu não tenho tempo para escrever um poema
que não seja afinal um poema breve.
Isto é tudo o que eu pensava dizer-lhes, mas,
se querem mesmo saber, a verdade é outra:
até quando me sobra o tempo, como agora acontece,
falta-me de todo a paciência, e é por esse motivo
que até os meus poemas mais longos são bastante breves,
como este que escrevia e vai ficar por aqui.
pensamentos mais-que-imperfeitos (20)
O que é a poesia?
A poesia não se serve das palavras; eu diria antes que ela as serve.
Isto mesmo diz Jean-Paul Sartre, ou dizia, se assim o preferirem,
pois que ainda que ele me fale agora, no exacto momento em que o leio,
a verdade é que o escreveu há mais de cinquenta anos.
Desde então, muita poesia se fez, e não me surpreenderia nada
se as suas palavras se mostrassem hoje completamente desadequadas.
Pela minha parte nada sei de poesia, e confesso que durante muito tempo
pensei exactamente assim, que a poesia não se servia das palavras,
antes as servia, numa vassalagem exagerada e desprovida de sentido;
e esta ideia foi tão forte em mim que me afastou da poesia,
não de a ler, que sempre a li, aqui e ali, mas de a fazer.
Hoje, que escrevo às vezes o que acredito serem poemas,
já não sei o que pensar, e não tenho certeza alguma
sobre o que é a poesia, mas não me importo nada com isso,
limito-me a escrever, talvez prosa, talvez poesia, que a verdade
é só uma: seja o que for que escrevo, afinal sempre me escreverei,
e isso é que é importante para mim, seja de que forma for.
pensamentos mais-que-imperfeitos (21)
Dias de uma tristeza contentinha
(à memória de Alexandre O’Neill)
Há dias em que não me apetece voltar
à casa que não tenho
ao lar que não tenho
a tudo que não tenho e pareço ter.
Hoje é um deles, por nenhuma razão em especial,
apenas por tudo e por nada,
como se costuma dizer.
E vou ficando no café ao fim da tarde.
Vou ficando sempre um pouco mais
só mais uma cerveja
só mais um minuto
mais mais mais
só mais um verso
antes de ir.
—>
Escrever
Dizes-me que escrevo com uma simplicidade desconcertante.
Agrada-me.
Comove-me.
É isso mesmo que procuro.
Ser simples.
Desconcertar.
Ai quem me dera escrever com a simplicidade desconcertante de uma flor!
pensamentos mais-que-imperfeitos (22)
A minha morte
Se eu morresse agora
no exacto momento em que escrevo à mesa do café
haveria algum reboliço
alguma agitação.
Telefonem já para o 112!
Há algum médico aqui?
Estará morto?
A minha cabeça estaria caída sobre a mesa
à esquerda da folha onde escrevo
o caderno inclinado
à distância da minha miopia.
Eu estaria morto.
Já não seria.
E contar-se-iam histórias de como eu tinha morrido a escrever
muitos quereriam conhecer as minhas últimas palavras e
Quem sabe?
talvez não ficassem nem um pouco admirados ao saber
que eu escrevia afinal sobre a morte
a minha própria morte.
pensamentos mais-que-imperfeitos (23)
É mesmo assim!
(Ao João Pedro George)
Tenho deslizes ortográficos e cometo erros gramaticais.
Repito-me muito. Uso e abuso dos trocadilhos.
Escrevo de forma simples, demasiado simples.
O meu humor é vulgar, às vezes até boçal.
O estilo, o estilo então é melhor nem falar.
No entanto, é assim que eu escrevo
É assim a minha escrita.
É assim que eu sou.
É assim que eu me escrevo.
pensamentos mais-que-imperfeitos (24)
Um olhar poético
Tenho uns óculos novos
Mais modernos
Mais bonitos
E o que é mais importante é que
Ao contrário das lentes anteriores
Que eram em tudo normais
Estas escurecem e clareiam sob a luz
Vejo agora tudo muito melhor
Muito mais nítido
Muito mais definido
E ainda que só o comprove
Quando espreito por cima dos óculos
Essa diferença não é por isso
Em nada menos importante
Assim queria eu que fossem os poemas que escrevo
Um filtro que, de uma forma quase imperceptível,
Alterasse profundamente a visão da realidade.
pensamentos mais-que-imperfeitos (25)
Do poeta
(À memória do poeta Emiliano da Costa)
Do poeta ficou o que sempre fica:
Os versos
Admirados por alguns
Esquecidos de quase todos
O epíteto
de maior poeta do Algarve
atribuído por uma poetisa consagrada
O nome de uma rua
O nome de uma escola
Será pouco?
Será muito?
É a vida. É a poesia.
É a saudade do que podia ser.
pensamentos mais-que-imperfeitos (26)
1
Não há nada melhor que o amor
sou peremptório
Não há nada pior que o amor
afirmo com igual convicção
Amo acima de tudo
os paradoxos
2
Não gastes o teu tempo
a procurar quem és
ou quem poderás ser
só sendo podes ser
tu próprio
e é isso que deves
ser
pensamentos mais-que-imperfeitos (27)
Paradoxos do Espaço-Tempo
Ainda que sempre haja um onde e um quando
Tudo acontece aqui e agora
Neste exacto momento
E assim afirmando não nego o passado
Apenas lhe retiro alguma importância.
Quantas vezes acreditamos que o que foi ainda é?
Quantas vezes nos esquecemos de ser nós próprios?
Vivemos aqui e agora. Ponto final, parágrafo.
Neste momento nada existe a não ser este momento.
Aqui e agora, sou. Depois, depois logo se verá.
pensamentos mais-que-imperfeitos (28)
Eu
Saio de casa
Olho o céu
Limpo de nuvens
Um sol de Inverno
Ouço ao fundo o rumor
De mais um dia
que começa.
Estou descontraído.
Tranquilo.
Avanço passo a passo.
De repente, digo a mim mesmo
estou em Faro
são quase nove horas da manhã
é quarta-feira
recordo também o dia, o mês e o ano.
Sinto-me estranho
Perturbado
A que necessidade respondi?
Ainda que não o dissesse
Ainda que não o soubesse
Sempre estaria em Faro
Seriam quase nove horas da manhã
De quarta-feira
E o mesmo dia, mês e ano.
E eu?
Seria eu o mesmo
sem esta pequena revelação?
pensamentos-mais-que-imperfeitos (29)
Ao HMBF —>
Se alguma coisa escrevo
é, sem sombra de dúvida,
tudo aquilo que afinal
não posso dizer, tudo aquilo
que afinal não posso
deixar de escrever.
pensamentos mais-que-imperfeitos (30)
Ser e Escrever
1
Sou
Digo e repito
Disso tenho a certeza
Sou
Agora quem sou
É que deveras não sei
Nem procuro saber
Sou
Sou quem sou
Sei lá quem sou
Sou
Revelo-me e escondo-me
Nas palavras que escrevo
Escrevo-me
Sou
E, por estranho que pareça,
Isso é muito mais
Do que alguma vez fui.
2
Quando escrevo
só me ocorrem palavras vulgares
palavras cansadas de metáforas
cansadas do esplendor pesado
das evocações mais que duvidosas
Quando escrevo
uso palavras de todos os dias
palavras corajosas laboriosas
cheias de vontade de iluminar
o mais recôndito em mim
Quando escrevo escrevo-me
eu sou a escrita
a escrita sou eu
um homem vulgar um homem
de todos os dias
pensamentos mais-que-imperfeitos (31)
Escrever para ser
Não escolho o que escrevo
Quando escrevo limito-me a ser
Limito-me a escrever quem sou
Sou quem escrevo.
Não escolho portanto o que escrevo
Nem o que escrevo me escolhe
Escrevo o que tenho de escrever
Assim como sou quem tenho de ser.
Sou quem não posso deixar de escrever
E escrevo o que não posso deixar de ser
Escrevo quem sou.
pensamentos mais-que-imperfeitos (32)
Em construção
Duvido muito, duvido sempre
De mim, dos outros e de todas as coisas.
E se alguma certeza tenho, é
a certeza dessa dúvida.
Mas tal convicção, ainda que profunda,
não faz de mim um céptico. Acredito
apenas que a verdade das coisas
não existe para além delas.
Talvez por isso desconfie de quem
usa as palavras como muros
e dos versos que se estendem
tal e qual labirintos brancos.
Sou afinal dúvida e certeza
Uma coisa e o seu contrário
E esta é a minha verdade
Sempre negada sempre reafirmada.
pensamentos mais-que-imperfeitos (33)
Matou-se com um tiro e de seguida atingiu a namorada. Era um indíviduo pacato, dizem, que tinha como único defeito o hábito de disparar sobre as pessoas sem qualquer motivo. [Moral da história: Quando tudo está de pernas para o ar interroga-te se não estarás a fazer o pino.]
pensamentos mais-que-imperfeitos (34)
Auto-retrato de quem não sou
Dizem que sou uma pessoa triste
muito delicada
susceptível
pela minha parte considero-me
apenas melancólico.
Da tristeza retiro prazer
gosto de estar fora das coisas
observar sem participar
estar presente
mas ausente
em mim.
Nem sempre fui assim
em tempos envergonhava-me
de ser como sou e procurava
ser como os outros.
Andava sempre triste
sentia-me desajustado
em nenhum lugar era eu.
Depois fui-me aceitando
aos longos passeios solitários
à constante e dolorosa introspecção
a ser outro sendo cada vez mais eu.
Ainda estou a crescer
a transformar-me
mas sei que sou
melancólico
e sinto-me bem assim.
pensamentos mais-que-imperfeitos (35)
Escreviver
Escrevo mesmo quando não escrevo
Escrevo sempre
Em qualquer lugar
Em qualquer ocasião
Escrever é narrar, descrever
Qualquer coisa
Qualquer que ela seja
Escrever é, para mim, estar vivo
E não se está
Ora vivo
Ora morto
Assim como não se está
Ora a escrever
Ora a não escrever
Escrevo sempre sempre
Mesmo quando não escrevo.
pensamentos mais-que-imperfeitos (36)
Palavras e acções
Dizer que sem as acções
as palavras nada são
é dizer muito pouco
A verdade é que
só para os escritores
as palavras são acções
Dizer vou fazer isto
ou vou fazer aquilo
não corresponde a uma acção
Se nada se fizer
ficam apenas as palavras, a não ser
que as diga um escritor
E então…
Pensamentos mais-que-imperfeitos (37)
Crer para ver
acreditamos que em tudo
há um mistério
mas nós é que não vemos
o que está
mesmo à nossa frente
o único mistério que existe
é não existir mistério algum
nós é que somos cegos e,
como se não bastasse, acreditamos
apenas no que vemos
e vemos tão pouco
e acreditamos tão pouco.
Pensamentos mais-que-imperfeitos (38)
Ser
Não tenhas medo do ridículo
Não tenhas medo de fazer figura de parvo
Sê quem tiveres de ser
Sê tu mesmo
O ridículo está no centro da existência
Existir é desconcertante
Ser nós mesmos é não ter medo de ser quem somos
Estamos mais perto de nós quando nos esquecemos de ser
Por mais ridículo que nos pareça
Por mais assustador que seja
Rir de nós mesmo é o melhor caminho
Para se chegar a ser quem se é.
Pensamentos mais-que-imperfeitos (39)
Poética
se eu falasse dos “telhados de quatro águas” de Tavira, pensariam talvez que me permitia alguma liberdade poética
no entanto, estaria apenas a ser exacto, a usar com precisão a língua portuguesa
ainda que a verdade seja que nunca pensaria em usar tal expressão se ela não despertasse em mim a poesia.
Pensamentos mais-que-imperfeitos (40)
Coincidências significativas
A maior parte do tempo não percebo nada
E quando julgo perceber alguma coisa
Quedo-me sempre à beira da revelação
A contemplar o que não entendo
O que apenas mal pressinto
E que num momento já ali não estará
Deixando em mim uma ténue sensação de “déjà vue”
Que me acompanhará até à próxima vez
Que o ser do mundo quase se me revele
como sempre me acontece.