pleonasmos [3]

24 10 2007

pleonasmos [1]

desenhos [3]

17 10 2007

desenhos [2]

elementar [3]

16 10 2007

[dispersão]

elementar [2]

elementar [1]

[…]

14 10 2007

[…]

[…]

reposições (1-A)

20 07 2007

De memória


Lembro-me do seu nome
De alguns pormenores do seu corpo
Lembro-me que era primavera
Que a luz entrava pela janela à minha direita
E era devolvida pela superfície espelhada do armário

Lembro-me de tudo isso
Mas tudo isso eu poderia ter esquecido
Tudo isso eu poderia ter inventado
Menos o brilho nos seus olhos
No mais profundo dos seus olhos

Como se não lhes pertencesse
Como se fosse apenas o reflexo
Da minha própria felicidade

(20) das perguntas e outras respostas

25 02 2007

I

“Porque nunca me perguntas nada?”, disse-lhe ela, e ele perguntou a si mesmo por que seria.

II

“Porque nunca me perguntas nada?”, disse-lhe ela, e ele pensou que o problema não estava nas perguntas mas nas respostas.

III

“Porque nunca me perguntas nada?”, disse-lhe ela, e ele olhou-a, interrogativamente.

fotografia daqui

Luís Ene

(19) da cor e outras ilusões

I

“De que cor é o mar?”, perguntou-lhe ela, e ele fechou os olhos para ver melhor.

II

“De que cor é o mar?”, perguntou-lhe ela, e ele olhou-a à procura de uma resposta.

III

“De que cor é o mar?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu-lhe que era da cor do seu olhar.

Luís Ene

(18) do silêncio e outros diálogos

24 02 2007

I

“Porque estás tão calado?”, perguntou-lhe ela, e ele foi todo ouvidos.

II

“Porque estás tão calado?”, perguntou-lhe ela, e ele abriu-se num sorriso caloroso.

III

“Porque estás tão calado?”, perguntou-lhe ela, e ele pensou em responder-lhe com uma pergunta.

fotografia daqui

Luís Ene

(17) da retórica e outros monólogos

23 02 2007

I

“Tens alguma coisa a dizer-me?”, perguntou-lhe ela, e ele soube que as perguntas ainda mal tinham começado.

II

“Tens alguma coisa a dizer-me?”, perguntou-lhe ela, e ele ficou à espera do que ela tinha para lhe dizer.

III

“Tens alguma coisa a dizer-me?”, perguntou-lhe ela, e ele disse a si mesmo que só lhe restava negar tudo com veemência.

fotografia daqui

Luís Ene

(16) do querer viver e outras mortes

I

“O que queres da vida?”, perguntou-lhe ela, e ele disse a si mesmo que lhe bastava estar vivo.

II

“O que queres da vida?”, perguntou-lhe ela, e ele sentiu de imediato a presença da morte.

III

“O que queres da vida?”, perguntou-lhe ela, e ele teve vontade de lhe apertar o pescoço.

Luís Ene

(15) da dúvida e outras certezas

22 02 2007

I

“O que queres dizer com isso?”, perguntou-lhe ela, e ele arrependeu-se imediatamente de o ter dito.

II

“O que queres dizer com isso?”, perguntou-lhe ela, e ele disse a si mesmo que o melhor era não acrescentar coisa alguma.

III

“O que queres dizer com isso?”, perguntou-lhe ela, e ele apressou-se a dizer-lhe que não era nada do que ela estava a pensar.

imagem daqui

Luís Ene

(14) da felicidade e outras formas de estar

21 02 2007

I

“És feliz?”, perguntou-lhe ela, e ele pensou nisso pela primeira vez há muito tempo.

II

“És feliz?”, perguntou-lhe ela, e ele sentiu a dúvida a instalar-se nele.

III

“És feliz?”, perguntou-lhe ela, e ele amaldiçoou-a por isso.

fotografia daqui

Luís Ene

(13) da verdade e outras mentiras

20 02 2007

I

“Estás a dizer-me a verdade?”, perguntou ela, e ele respondeu para si mesmo que sim, claro, que coisa, estava a dizer a sua verdade.

II

“Estás a dizer-me a verdade?”, perguntou ela, e ele começou a duvidar de si mesmo.

III

“Estás a dizer-me a verdade?”, perguntou ela, e ele mentiu-lhe mais uma vez.

fotografia daqui

Luís Ene

(12) do sexo e outros contratempos

19 02 2007

I

“Quanto tempo consegues aguentar sem sexo?”, perguntou-lhe ela, e ele calou bem fundo um sentido “Ainda mais?”.

II

“Quanto tempo consegues aguentar sem sexo?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu com um cauteloso “depende”.

III

“Quanto tempo consegues aguentar sem sexo?”, perguntou-lhe ela, e ele disse-lhe com um sorriso que atingira o seu limite.

fotografia daqui

Luís Ene

(11) do olhar e outras interrogações

16 02 2007

I

“Por que me olhas tão intensamente?”, perguntou ela, e ele mergulhou ainda mais dentro de si mesmo.

II

“Por que me olhas tão intensamente?”, perguntou ela, e ele olhou-a como se ela mesma fosse a pergunta.

III

“Por que me olhas tão intensamente?”, perguntou ela, e ele despertou finalmente do seu sonhar acordado.

fotografia daqui

Luís Ene

(10) da escrita e outras iluminações

15 02 2007

I

“O que é escrever?”, perguntou-lhe ela, e ele olhou-a intensamente até que ela se viu reflectida no seu olhar.

II

“O que é escrever?”, perguntou-lhe ela, e ele agarrou numa caneta e escreveu a pergunta na palma da mão esquerda.

III

“O que é escrever?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu que era isso mesmo, e não disse mais nada.

Luís Ene

(9) do ser e outros pequenos nadas

14 02 2007

I

“Porquê o ser e não o nada?”, perguntou-lhe ela, e ele sentiu em si um profundo abalo metafísico mas fez como se nada fosse.

II

“Porquê o ser e não o nada?”, perguntou-lhe ela, e ele percebeu que nunca antes tinha sentido em si tanta vontade de ser.

III

“Porquê o ser e não o nada?”, perguntou-lhe ela, e ele repetiu a pergunta para si mesmo, breves instantes antes de deixar finalmente de ser.

Luís Ene

Fotografia daqui

(8) da desconfiança e outras crenças

13 02 2007

I

“Por que nunca acreditas em mim?”, perguntou-lhe ela, e ele nem queria acreditar no que ouvia.

II

“Por que nunca acreditas em mim?”, perguntou-lhe ela, e ele olhou-a nos olhos, ainda com mais desconfiança do que era habitual.

III

“Por que nunca acreditas em mim?”, perguntou-lhe ela, e ele acreditou nela pela primeira vez.

Luís Ene

(7) da vontade de agradar e outras formas de surdez

12 02 2007

I

“Por que te esforças tanto?”, perguntou-lhe ela, mas ele nem a ouviu, tão concentrado estava a tentar agradar-lhe.

II

“Por que te esforças tanto?”, perguntou-lhe ela, e ele ficou a pensar no exacto sentido da pergunta.

III

“Por que te esforças tanto?”, perguntou-lhe ela, e durante várias horas ele fez o possível e o impossível para lhe explicar a razão.

Luís Ene

fotografia daqui

(6) do esquecimento e outras formas de recordar

11 02 2007

I

“Quem sou eu?”, perguntou-lhe ela, e ele lembrou-se do tempo em que tinha uma resposta simples para essa pergunta.

II

“Quem sou eu?”, perguntou-lhe ela, e só então ele percebeu que não sabia a resposta.

III

“Quem sou eu?”, perguntou-lhe ela, ele olhou-a como se a visse pela primeira vez. Só assim lhe poderia verdadeiramente responder.

Luís Ene

(5) da traição e outras necessidades incontornáveis

I

“É verdade que me trais?”, perguntou-lhe ela, e ele disse a si mesmo que sim, sim, sim, bem podia ficar à espera de uma resposta.

II

“É verdade que me trais?”, perguntou-lhe ela, e ele calou-se, mas ficou a pensar que até não era uma má idéia.

III

“É verdade que me trais?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu que não, sem hesitações, sem mesmo pensar. Se havia uma coisa que nunca faria era trair-se a si mesmo.

Luís Ene

fotografia daqui

(4) dos desejos mais profundos e outras possibilidades

10 02 2007

I

“Qual é o teu desejo mais profundo?”, perguntou-lhe ela, e ele ficou a pensar se ela tornaria o seu desejo realidade caso ele lhe dissesse qual era.

II

“Qual é o teu desejo mais profundo?”, perguntou-lhe ela, e ele nada disse: o desejo devia ser profundo e todo ele era superficialidade.

III

“Qual é o teu desejo mais profundo?”, perguntou-lhe ela, e ele caiu em si à procura de uma resposta e nunca mais voltou.

Luís Ene

fotografia daqui

(3) da morte e outros males menores

9 02 2007

I

“É melhor estar vivo ou estar morto?”, perguntou-lhe ela, e ele nem hesitou: disse-lhe que preferia estar morto. Acho que foi isso que lhe salvou a vida.

II

“É melhor estar vivo ou estar morto?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu que preferia estar vivo. Viveu ainda muitos e muitos anos, tantos que várias foram as vezes que implorou pela morte.

III

“É melhor estar vivo ou estar morto?”, perguntou-lhe ela, mas ele nem tentou responder. Havia muito que estava completamente morto.

Luís Ene

(2) da abstinência sexual e outras mentiras

8 02 2007

I

“Serias capaz de prescindir de sexo por amor?”, perguntou-lhe ela, e ele ergueu sobressaltado o olhar dos seus generosos seios e pediu-lhe para repetir a pergunta.

II

“Serias capaz de prescindir de sexo por amor?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu para si mesmo que sim, sim, sim, mal podia esperar para levá-la para a cama.

III

“Serias capaz de prescindir de sexo por amor?”, perguntou-lhe ela , e ele respondeu que sim, claro, sem dúvida, o que não faria por amor. Estava há muito habituado a mentir por sexo.

[O título é o mesmo que sugeri há dias a um amigo para um blog que pretendia criar. Se vier a criá-lo desde já lhe ofereço este texto.]

Luís Ene

a fotografia veio daqui

(1) da literatura e do amor

6 02 2007

I

“Por que me amas?”, perguntou-lhe ela, e ele não só não lhe respondeu como fez tudo para esquecer a pergunta. Tinha bastante medo de, caso um dia soubesse a resposta, deixar de a amar.

II

“Por que me amas?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu-lhe sem hesitar: Porque desconheço a razão! Foi nesse exacto momento que ela começou a amá-lo.

III

“Por que me amas?”, perguntou-lhe ela, e ele começou a falar-lhe com entusiasmo do último livro que lera. Então ela sorriu de felicidade, pois, tal como ele, também ela não sabia por que o amava.

[Por que amamos? Amamos para que o amor aconteça!]

Luís Ene

O poeta

5 02 2007

o poeta espera o poema e
quando ele afinal
chega

dispõe os versos
linha a linha
com todo o cuidado

convida-o a repousar
nas entrelinhas daquilo
que lhe é possível dizer e

quando finalmente
ele aceita
o convite

agradece-lhe muito
e retira-se
em silêncio

[Talvez os poemas nunca estejam acabados, mas isso não quer dizer que o seu autor não pare de escrever o poema, porque quando reescreve é afinal já outro poema que ele escreve.]

fotografia daqui

poema

4 02 2007

o dia nasce
mais uma vez
com o sol a pique

abrigo-me à sombra
de uma árvore que não existe
e tento pensar

por que é a vida
sempre tão difícil?

não seria tudo mais fácil
se pudéssemos
sonhar as nossas vidas?

mas o sol não se move
e a sombra enfraquece
cada vez mais

então paro de pensar e saio
à procura de outra sombra

[Acordo, como me tem acontecido nos últimos dias, com um poema a pedir-me para ser escrito, mas, tal como muitos sonhos que recordo quando acordo, logo percebo que me é quase impossível dizê-lo.]

Luís Ene

Noite

1 02 2007

escrevo
noite e
fico à espera mas

por mais que eu aguarde
num silêncio abafado
de insónia

a folha não escurece
não se salpica de estrelas

e só quando desisto
fecho os olhos
e a procuro em mim

é que ela cai
plena

a mesma noite
que eu escrevera
e só em mim

afinal
existia

[Luís Ene]

imagem tirada daqui

“O poeta é um fingidor”

5 01 2007

São tão estranhas
as palavras
e a relação
que com elas tenho

A palavra silêncio
por exemplo
só a digo para mim mesmo
em pensamento

Quanto à palavra grito
simplesmente
evito dizê-la
por educação

Já a palavra amor
só quando te beijo
meu amor
faz todo o sentido

luís ene

estranha forma de vida

24 12 2006

Aprendi a abandonar-me, por completo, e ficar a ver-me,
como uma imagem que tivesse fugido de um espelho
mas o levasse consigo no bolso mais interior.

É uma prática esquisita e perigosa, sei-o muito bem,

mas não conheço melhor forma de viver.

poema

20 12 2006

gostava que me telefonasses
marcasses encontro comigo
me passasses os dedos pelo cabelo
beijasses de leve os meus lábios
e risses dos meus olhos abertos
de espanto e de satisfação

por isso escrevi este poema

para que (talvez) o escutasses
para que (talvez) acontecesse

Luís Ene

poesia

19 12 2006

Chamei-a
muitas vezes
a cada linha
a cada verso

e às vezes
ela vinha
mas logo
se ia
embora

de repente
sem cerimónias
tal como
tinha
vindo

Então
deixei
de a chamar

mas ela
continuou
a aparecer-me
uma e outra vez

e nunca mais
me abandonou.

Luís Ene

Os olhos mais azuis do mundo

6 12 2006

Ela olhou-o bem nos olhos e ele viu um céu azul de Verão. Apeteceu-lhe logo dizer que ela tinha os olhos mais azuis do mundo, mas sabia bem que tal seria vulgar e nada diria na verdade. Pensou depois dizer-lhe que os seus olhos eram pedacinhos de céu, mas sabia muito bem que tal seria ingénuo e de um enorme ridículo. Esforçou-se ainda durante algum tempo por encontrar uma forma poética de dizer os olhos dela, mas nada lhe ocorria. Desanimado, olhou de novo os olhos dela, que sorriam ainda, e viu que eram castanhos. Então sorriu ele também, e disse-lhe numa voz clara de espanto: Tens os olhos mais azuis do mundo.

[outra versão aqui]

Fado

21 11 2006

depois que nos separámos
cada um seguiu
o seu caminho

era natural que assim fosse,
tão natural que às vezes
até penso que

só nos separámos afinal
para que tal pudesse
acontecer.

para os meus amigos

8 11 2006

Muitas perguntas existem para as quais não tenho respostas. E muitas existem para as quais tenho apenas respostas possíveis. O conto que podem ler e o modo como foi composto e é apresentado reúne muitas dessas perguntas e algumas dessas respostas. Agradecimentos especiais ao António Baeta Oliveira (e ao Guia da cidade de Silves) e à Margarida Delgado.

——————————–> Ao meu amigo

reflexo

31 10 2006

Olho-a
e aos meus olhos
o seu rosto agita-se
levemente
como a superfície de um lago
percorrido por uma brisa

E interrogo-me que estará ela
a sentir
ou a pensar
que assim a transforma

Mas de repente percebo
que é em mim
que tudo se passa
que sou eu a brisa que a toca
que sou eu o lago que se agita
e continuo a olhá-la

ainda com mais atenção.

Luís Ene

Construção do poema

12 07 2006

para o Fernando Dinis, sei e não sei porquê
para MC, pelo penúltimo verso

—>

Bebo uma cerveja pela garrafa
Olho o céu que lentamente adormece
Pergunto a mim mesmo se existo

Procuro em vão novas imagens
Imagens que digam o mundo

Os sinos da igreja distraem-me
Com o seu bater compassado
Mistura de felicidade e melancolia

Escrevo aliviado um último verso

ficção 1

9 05 2006


para o Fernando

um bocadinho

25 04 2006

Muitas são as vezes
em que sinto ser nada
nada de nada

Mas eu sei que sou
mais do que isso
muito, muito mais

Sou um bocadinho
um pequeno bocadinho
de coisa nenhuma

Que por nada ser
talvez possa ser tudo
e mais alguma coisa

[…]

18 04 2006

Esperava-te
na gare ambígua
da cidade disforme
Não era de dia nem de noite:
era aquela hora sem nome
em que os ouvidos começam a ver
e os olhos começam a ouvir
E foi então que chegaste:
um enigma à espera de ser decifrado
E o mistério adensou-se ainda mais.

[…]

17 04 2006

E sempre que posso,
encho-me da tua ausência.
E sinto-me quase feliz.

Sonho contigo

12 04 2006

Sonho contigo…

De cada vez que nos encontramos
sonhamos um com o outro.

[incongruência]

5 04 2006

Estou apaixonado
Ou penso que estou
E amo-te. E digo que te amo.
Mas não consigo escrever
Uma linha que seja
sobre isso. E duvido
Duvido desse amor
E escrevo um breve poema
de que gosto muito
a dizer-te adeus
E deixo de te amar.

[revelação terceira]

2 04 2006