[…]

3 04 2006

Sento-me na esplanada com um romance acabado de comprar no colo.
O dia está ameno, nem quente nem frio, apesar de estar sol e correr uma brisa.
Um dia como eu gosto.
E um romance a espera de leitura.
Olho a capa, demoro-me no nome do autor e no título do romance.
Viro-o.
Enfrento o olhar do romancista, estudo-lhe as feições.
De novo a capa.
Passo agora os dedos pelo nome do autor e pelo título do romance (uma moda, esta dos altos-relevos na capa dos livros).
E sinto o peso do livro e a sua exagerada, digo-o com prazer, a sua exagerada espessura.
Abro-o e confirmo a minha impressão com um número.
Quinhentas e oitenta e nove, sim, quinhentas e oitenta e nove páginas mais três, sim, mais três que não estão numeradas mas, embora não sejam páginas de texto, são páginas do livro.
E espreito as badanas, primeiro uma e depois a outra, espreito-as apenas, que mais para a frente as lerei, devagar, muito devagar, e depois, depois espreitarei o fim do romance, e o princípio, e ficarei a pensar nas suas semelhanças e nas suas diferenças, que de uma forma ou de outra, o princípio e o fim são muito, muito importantes e nem sempre são aquilo que parecem.
Sim. Sim. Sim.
Mas fecho de o livro, volto a deitá-lo no meu colo, e…
Olho a capa, a contracapa, viro-o, abro-o, fecho-o, uma e outra vez, num frémito de antecipação em que me demoro com um prazer multiplicado.

Lembro-me tão bem

22 03 2006

Lembro-me tão bem:
lembro-me da forma
como me tocaste o rosto
com as pontas dos dedos
e me beijaste numa carícia
de pétalas vermelhas.

Lembro-me tão bem:
lembro-me de acordar
e sentir-te ainda, desejar-te
ainda, e fechar os olhos
e tentar adormecer e
não, não, não conseguir.

Lembro-me tão bem
lembro-me tão bem
da forma como te sonhei.

[…]

16 03 2006

Cada palavra que escrevo
emociona-me e faz-me pensar.
Mas não escrevo porque
me emociono ou penso.
Escrevo tão só
porque em cada palavra há
pelo menos uma emoção
há pelo menos uma ideia
mesmo que eu não saiba
que emoção e que ideia é.
Escrevo afinal
porque me emociona
porque me faz pensar.
Não se escrevem emoções
não se escrevem pensamentos
escrevem-se apenas palavras.

[…]

Caminho pela rua abaixo com dois livros na mão
num fim de dia cinzento, bastante cinzento
ainda que, se olhar o céu com atenção
possa encontrar pequenos nesgas de um claro azul
E é assim que também eu me sinto
uma enorme sombra aqui e ali rasgada de luz
E penso que já estou muito avançado nos quarenta
E penso nos livros que levo e como serão
E penso que me sinto ligeiramente tonto
E penso em tudo e não penso em nada
E é assim que também eu me sinto
fechado no mais fundo de mim mesmo
mas aberto a todas as possibilidades

Poema chão

15 03 2006

Ser forte sem fazer força.
Ser veloz sem sair do lugar.
Ser sábio sem nada saber.
Ser belo sem dar nas vistas.
Ser uma luz intensa que não cega.
Ser o amor que por ti sinto
sem me alegrar nem sofrer
Tudo isto é o que eu queria
Ser Ser Ser Ser Ser
apenas Ser

Porrada

14 03 2006

(para todos os Fernandos)

Numa sessão onde era previsto
dizermos os nossos próprios poemas
um poeta levanta-se e lança uma bomba
A meu ver, diz ele, e sem querer ofender qualquer um dos presentes
é minha firme convicção que um poeta não deve dizer os seus próprios poemas
E fica a olhar-nos, por um instante
Eu ainda tento responder
(Mas escrever um poema é dizê-lo! Que pessoa mais indicada para dizer um poema do que aquele que o escreveu?)
Mas ele começou já a recitar um longo e glorioso poema
E durante quinze ou vinte minutos
esquecido de si mesmo
fala com a voz de um grande poeta morto.
Calei-me, então, e escutei
mas agora, para provar que tenho razão
digo este poema que voltarei a dizer
na primeira ocasião

[…]

13 03 2006

de cada vez
que se escreve
o mundo
expande-se
multiplica-se, enriquece-se
e depois… depois…
pouco a pouco
contrai-se
mingua
e
quase
de
sa
pa
re
ce
até
que
de novo
se escreve e

Não, este poema não é para ti!

12 03 2006

Afastámo-nos
um do outro
e eu nada fiz

a não ser adivinhar
o que ia acontecer.

E agora

que o nosso afastamento
é um facto consumado
nada mais nos resta

a não ser contar
o que aconteceu.

Tinha de acabar assim!

Quem esteve quase
só pode
depois
afastar-se.

[…]

O poeta sai de casa pela porta
de entrada e caminha
tal e qual as outras pessoas
com quem se cruza na rua.

E o mundo que vê - o céu,
as pedras da calçada,
as sombras - é o mesmo [mundo]
que é visto pelas pessoas
com quem se cruza na rua.

A única diferença entre eles
o poeta e as outras pessoas
é, talvez
a necessidade que ele sente
avassaladora urgente
de se dizer e dizer o mundo.

[…]

9 03 2006

Às vezes desistimos
ainda antes de começar.

E depois…
depois admiramo-nos
como é que os outros fazem
aquilo que não conseguimos.

E lamentamo-nos…
por não sermos capazes
de fazer as coisas que
eles conseguem.

Mas não vale a pena,
na verdade eles só fazem
as coisas que fazem
porque querem fazê-las.

Assim como nós,
que só não fazemos as coisas
que não fazemos porque
não as queremos fazer.

[…]

8 03 2006

(para a Aderita)

A poesia aconteceu-me
como acho que acontece a
toda a gente, por mero acidente,
sem plano nem magia,
como tudo na vida,
dia após dia.

Por estas e por outras é
que eu não me preocupo,
nem por um segundo,
com quem sou, quem fui
ou quem serei.

Limito-me a ser, tal como
todas as coisas no mundo,
aconteça o que acontecer.

E não, isto não é resignação

Da desconversa

7 03 2006

(para o Alberto)

Existem apenas duas ou três perguntas,
não mais do que isso, a que é completamente
necessário responder. E não me perguntem
quais são. Todos sabemos muito bem quais são.
São precisamente aquelas que não têm resposta,
que nunca terão resposta, mas a que é necessário
continuamente responder, para continuar a viver.
Sim, isso mesmo, para continuar a viver.
Ainda que nos sintamos, a maior parte das vezes,
muito, mas muito mais mortos do que vivos,
temos sempre de dar novas respostas às mesmas
duas ou três velhas perguntas de sempre.

Fazer o quê? Antes conversar que morrer.

Regresso ao presente

6 03 2006

Talvez eu não queira voltar a escrever
um poema tão belo
como aquele que um dia escrevi.
Um poema tão intenso e inquietante
que se escreveu a si mesmo.

Talvez eu não queira.
Talvez eu não possa.
Mas nada disso me interessa.

Não enquanto for capaz de escrever.
Não enquanto continuar a escrever-me.

A mim não me interessam os resultados.
Só me interessa o processo.
Só isso me faz continuar
no presente
[e a ele regressar.]

[…]

4 03 2006

Voltamos mais tarde
Aos mesmos lugares e
Porque somos outros
Também outros são
Os mesmos lugares.

Assim são as palavras
Com que nos fazemos
E fazemos o mundo:
Sempre as mesmas
E sempre outras.

[…]

As palavras não são as coisas
as coisas são as coisas
não são feitas de palavras.

Nós é que nos fazemos de palavras
A nós mesmos e às coisas.

[…]

3 03 2006

As coisas não são as coisas
mas o que existe à volta delas:
outras coisas com
outras coisas à volta.

Tal e qual o nada,
que só verdadeiramente é
porque existe o todo,
o mesmo todo que deve
a sua existência às partes.

Afinal o que seria
das partes sem o todo?
E do todo sem o nada?

Ou de nós sem as palavras
para dizer o mundo?

Um não sei quê

28 02 2006

Há em todas as coisas
um não sei quê
que sempre nos desafia
que sempre nos escapa

um não sei quê
que é tudo e nada
e só de olhos fechados
entrevemos

um não sei quê
que não é o mistério das coisas
mas sim o mistério dos homens
que interrogam o mundo.