As palavras

14 05 2006

[OLHAR IBÉRICO - Exposição de Fotografia e Encontro de Escritores]

As palavras
Não são janelas
Nem portas
Nem muros

As palavras
São apenas palavras

Janelas, portas, muros
Sem dentro nem fora que
Ao mesmo tempo
Nos revelam
E nos escondem
O mundo

[…]

11 05 2006
A vida acontece
A todo o momento
E dela vivemos
Pequenos fragmentos
Que falam do todo

Um piscar de olhos
Um bater de asas
Esquivo vislumbre
Lembrança distante

Vive-se toda a vida
Num único momento

[Tudo se diz]

10 05 2006
Com palavras digo
o amor que há em mim
e com palavras te amo.
Umas e outras
as mesmas palavras.

Verdade e consequência

29 04 2006
Quando digo
que te amo
amo-te
de verdade.

Só näo sei
se o digo
porque te amo
ou se te amo
porque o digo.

Seja como for
digo
que te amo
e amo-te
de verdade.

[…]

4 04 2006

[ Para o Fernando Dinis, pela simples razão que estava a ler o seu Dá-me-te quando me surgiu a ideia deste poema. Uma espécie de versão inversa deste outro.]

Sonho contigo:
As minhas mãos abertas de espanto
percorrem o teu corpo nu
Riscando-te na pele
pequenas histórias de prazer
com a ponta dos dedos

Sonho contigo:
Os teus olhos acendem-se nos meus
numa equação de espelhos
E esqueço tudo
menos o prazer que sinto
ao perder-me em ti.

Sonho contigo:
É isso que sempre faço
é isso que sempre fazemos
De cada vez que nos encontramos
sonhamos um com o outro.

29 03 2006

[e por estes dias só me apetece escrever poemas assim]

Digo
e escrevo.

E escrevo
o que digo.

E escrevendo
o que digo
digo-me.

E dizendo-me
escrevo-me.

Digo-me
e escrevo-me
com o que digo
a mim mesmo.

E penso como
é estranha a mente
com que conhecemos
o mundo e nós mesmos

Quando turva, a mente
tudo oculta e nada releva
do mundo e de nós mesmos

Quando límpida
a mente deixa-nos olhar o mundo
através de nós mesmos

E pergunto-me
se não seremos apenas
esta perturbada consciência
do mundo e de nós mesmos.

[…]

29 01 2006

Ela fazia-lhe sempre perguntas sem resposta, como…
Um todo tem quantas partes?

E ele respondia-lhe sempre sem responder, como…
Cada parte é um todo.

Um e outro sabiam que não existem perguntas e respostas,
apenas o acto de perguntar e de responder.

Repetitivo

26 01 2006

I

Esqueci-me
Esqueci-me de ti.
E ainda hoje
Tento lembrar-me.
Mas não consigo.
A verdade é que
Me esqueci
Me esqueci de ti.

II

Durante muito tempo
Durante muito tempo gostei de ti.
E depois, depois
Deixei de gostar.
Aconteceu-me assim.
Mas a verdade é que
Gostei de ti
Gostei de ti durante muito tempo.

III

Talvez um dia
Talvez um dia eu possa
Os meus dedos no teu cabelo
Os meus olhos nos teus
Dizer-te tudo o que
Tenho para te dizer
Talvez eu possa
Talvez eu possa um dia.

[…]

25 01 2006

Para ver o nunca visto
Foi onde ninguém estivera.
Pode-se ser mais cego?

E para se ouvir a si mesmo
Deixou de escutar os outros.
Pode-se ser mais surdo?

Por fim, cansado de tudo
Despiu-se de palavras e perdeu-se no silêncio.
Pode-se ser mais estúpido?

Gritos

I

As palavras não te pertencem
Nada te pertence
Essa é a tua riqueza

II

Pára
Pára tudo
Só não pares de viver

III

Tudo é real
Não sonhes
Vive apenas

Desconexos

23 01 2006

I

De me onde me chega
esta sensação de que tanto vivi
e tanto tenho para viver?

O que é muito?
O que é pouco?

Se vivesse um só instante
não teria vivido tanto
e tanto teria para viver?

E no entanto…
de onde me chega esta sensação?

Talvez do mesmo lugar
de onde chegou este poema
o mesmo lugar de onde

II

Tento ler-te
Mas não consigo
E desisto

Tento ler-me
Mas não consigo
E insisto

Esta é a distância
entre ler e escrever

Esta é a distância
entre mim e ti

III

Escrevo como quem ouve
Escrevo de ouvido

Sempre à escuta
de mim e dos outros
e dos outros em mim

É assim que eu escrevo
Não sei escrever de outra forma

Pensamentos

20 01 2006

I

Não penses mais nisso
dizes a ti mesmo
pensar nunca te levou
a lado algum

Sabes muito bem que
chegada a hora é
o coração que segues

E ele leva-te sempre
onde tens de ir
queiras ou não queiras

Por isso continuas
e dizes a ti mesmo
devias aprender a pensar

pensar com o coração.

II

Pensas de mais
dizes a ti mesmo
mas sabes que não é assim.

Pensas muito
é verdade
mas sobre poucas coisas.

Pensas-te, sim
é sobre isso que pensas
é por isso que pensas
pensas para ser

para ser quem és.

[À Espera]

17 01 2006

Ela disse
Sinto um nó na garganta.
E calou-se.
E continuou calada.
E ele olhou-a.
E continuou a olhá-la
sem nada dizer.
E assim ficaram os dois.
Depois ela saiu e levou-o
consigo para ver o rio,
os dois unidos no
silêncio da espera.

Claro-escuro

I

Tal como a sombra
Vem à luz,
Assim tu surges
Aos meus olhos.

Ao mesmo tempo
Vestida e despida
De ti própria.

II

O teu corpo é
Luz e sombra.

Ilumina-se na escuridão
Apaga-se na luz.

E de todas as vezes
Que assim acontece
Eu fico como que cego.

III

A luz só existe
Na escuridão.
Elas são uma e
A mesma coisa.

Eu sei que é assim.

E por isso te iluminas
E por isso te apagas.
E és sempre uma e
A mesma pessoa.

Tu sabes que é assim.

Poema esotérico para Heloísa

14 01 2006

[Entras…]

Sentas-te a um canto.
Esvazias-te pouco a pouco
Até que de ti apenas permanece
Uma vaga e minúscula recordação.
E é nesse instante
que de repente se faz luz
Uma luz tão forte que tu nada consegues ver
E julgas ouvir uma verdade fundamental, mas
Nada consegues dizer e,
Quando te beliscas
Para ter a certeza que não estás a sonhar,
Percebes então que
Está sentada a um canto e,
Por mais que te esforces,
Não sabes o que estás a fazer ali.
Mas isso não te incomoda.
Levantas-te e, lentamente, dás
Oito passos em direcção à porta

[… e sais.]

Diálogo Um

11 01 2006

Ainda que não possas ouvir-me
Digo-te todos os dias que te amo

Afinal o importante é amar-te
e não que tu o saibas

Ou não estás de acordo?
E olha que quem cala
Consente.

[…]

10 01 2006

Sinto às vezes que
Me entristece o amor
Que sinto por ti
E penso que ele é
Tal e qual uma luz forte
Que tudo obscurece
E cega-me e assusta-me
E deixa-me assim
Como que triste
Mas nem por isso
Menos apaixonado
Nem por isso menos feliz

Diálogos V

Fim

Ele não diz
Ela cala
E é em silêncio
Que tudo é dito
Ele não diz
É o fim
Ela cala
É o princípio
E a si mesmos dizem
Em completo silêncio
Todo o fim
É um princípio.

Diálogos IV

9 01 2006

Nós

Ela diz
Amo-te
Ele diz
Amo-te

Mas pensa
Outra coisa

Ela pensa
Amo-te
Ela diz
Amo-te
Ele diz
Outra coisa

Mas pensa
Amo-te

Ela diz
Ele pensa
Ela pensa
Ele diz

Amo-te
Amo-te

Diálogos III

Em aberto

Ao mesmo tempo
Num só momento
Ele vai-se embora.
Ela diz Está tudo terminado.
Ele diz Eu amo-te.
Ela fica calada.

Ao mesmo tempo
Num só momento
Ele diz Eu amo-te.
Ela fica calada.
Ele vai-se embora.
Ela diz está tudo terminado.

Ao mesmo tempo
Num só momento
Ela diz Está tudo terminado.
Ele diz Eu amo-te.
Ela fica calada.
Ele vai-se embora.

Ao mesmo tempo
Num só momento
Várias possibilidades
Esperam acontecer.

Coisas que eu sei

Se há uma coisa que eu sei
É que não há dentro e fora
Pois a não ser assim,
Como podias tu estar
Ao mesmo tempo
Dentro e fora
De mim?

Outra coisa que eu sei,
É que quando duas coisas
Entre si se atraem
Ao mesmo tempo se repelem,
Pois só assim podem ser
Duas e uma só coisa.

E sei ainda outra coisa
Talvez seja o que sei melhor,
Que sei pouca coisa
E posso sempre saber mais,
Desde que seja paciente
E nada queira saber.

Diálogos II

8 01 2006

Inevitabilidade

Ela diz.
Apaixonei-me por ti.
E ele ouve-a,
Mas não diz nada.
Ele sabe
Que nada puderam fazer
A não ser acharem-se
Um dia
Apaixonados.
Ela por ele.
Ele por ela.
Sabem que foi
Assim que aconteceu.
Ele sabe.
Ela também.
E desconfiam,
Um e outro,
Desconfiam
Que não podia ser
De outra maneira.

Coisas

7 01 2006

O interior e o exterior de uma coisa
É sempre uma e a mesma coisa.
Nem outra coisa podia ser.
Pois quando a coisa assim não é
É certo que essa coisa logo deixa de ser.

As coisas são mesmo assim.

Já as pessoas são uma coisa diferente.
É uma coisa que bem se pode dizer,
Pois se tal lhes acontece, não é a mesma coisa.
Não deixam simplesmente de ser; que coisa!
Mas ficam muito menos do que certas coisas,

E isto é uma das coisas que eu sei.

[…]

6 01 2006

Sentiu em si todo o peso do mundo.
Depois sorriu.

Diálogos I

5 01 2006

Relâmpago

Ela diz
Hoje senti a tua falta
E cala-se

Ele diz
Sinto a tua falta todos os dias
E cala-se

E pensa. E emenda
Sinto a tua falta todos os dias
Umas vezes mais, outras menos

E ri. Ela ri também
Mas ele pensa ainda
Podia ter dito outra coisa

Como por exemplo
Estás sempre em mim
É efeito da tua ausência

Ou talvez…

Mas já lhe diz adeus
Manda-lhe um último beijo
Desliga o telefone

E começa a sentir a sua falta

Cumplicidade

3 01 2006

O que existe entre nós é melhor do que amor:
é cumplicidade.

Fogos, Marguerite Yourcenar

Melhor do que amor
é o que existe entre nós
Mas eu não sei o que é o amor
nem o nome do que existe entre nós
E no entanto eu sei
que o que existe entre nós
é verdadeiro, e intenso
tão intenso e verdadeiro
quanto é o amor
Mesmo quando dele desconfiamos
e nos convencemos que não passa de uma mentira.

Eu e tu sabemos muito bem que assim é.

[…]

2 01 2006

Perguntas-me por que razão
é o amor tão importante para mim
e eu respondo-te de pronto que o amor
está em primeiro lugar na minha lista
a minha lista de coisas importantes
Mas tu perguntas-me outra vez por que
é o amor tão importante para mim
Como se não me tivesses ouvido
E eu respondo-te da mesma forma
Como se não te tivesse percebido

Tu e eu sabemos muito bem
que o amor dispensa razões

[…]

30 12 2005

Há perguntas a que só nós mesmos
podemos responder
E não existem respostas certas ou erradas
Apenas respostas

Sabemos que assim é
quando ficamos calados
As perguntas à espera
de respostas

E nós à espera
de palavras que digam
o que não conseguimos dizer

De um momento para o outro

No regresso a casa
Recordo o momento
A meio de uma frase
O comboio quase a partir
Em que os nossos lábios se juntaram
Ainda há pouco
Pela primeira vez

E digo-o breve
Mas também fulgurante
Intenso
Inesperado
E por aí adiante

Mas quando passo o portão
Uma rosa solitária espera-me
No jardim abandonado
E é só nesse momento
Em que de novo me surpreendo

Que percebo afinal
A completa desnecessidade
De qualquer adjectivação.

As coisas são como são

29 12 2005

1

Ele perguntou
O que tem de comum uma qualquer coisa com uma coisa qualquer?
Ele perguntou ainda
As diferenças entre as coisas são maiores do que as semelhanças?
Ela continuou calada
O sorriso ainda mais oblíquo

2

Ele disse
Todas as diferenças são mais finas do que cada um dos teus cabelos
Ou talvez nem existam diferenças
Ele disse ainda
Todas as palavras têm de ser ditas e escritas
Não existem simples palavras
Ela disse
E depois?
As coisas são como são!

Simultaneidade

26 12 2005

momento.jpg

Estás no café
sentado a um canto
perto da janela
e pareces adormecido

mas estás aberto a
tudo o que se passa
dentro e fora de ti

e ocorre-te então
que o tempo é um
simples momento que
parecendo ausente
está afinal sempre
aqui e agora.

O Tao do amor

25 12 2005

luis_ainda_mais_praia_faro.jpg

Aquilo que eu sinto
por ti não pode ser
expresso nem por palavras
nem pelo silêncio,

e estreitar-te nos meus
braços diz tanto quanto
deixar-te ir cala em mim.

Palavra por palavra

23 12 2005

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Calo a custo
as palavras que me falam de ti:
agarro-as uma a uma,
com todo o cuidado,
antes que se amontoem,
e reduzo-as a silêncio,
uma e outra vez.

[…]

17 12 2005

Conto o tempo que falta
Primeiro em dias
Depois em horas
Finalmente em minutos
como um obstáculo
Que me separasse de ti
E só quando chegas
Percebo afinal
Num momento fulgurante
Que o tempo é
Apenas um caminho
Que me leva sempre
Onde tenho de ir.

Porque sim estar é igual a não estar

12 12 2005

Onde e com quem estive eu esta semana?
Estive aqui e ali, com este e aquele.
Podia dizer-lhes os nomes,
Podia mesmo descrevê-los

Mas tal é desnecessário, completamente desnecessário

Porque eu sei que estive, onde e com quem
Ainda que, agora que regresso,
Sinta sobretudo que esta semana
Não estive, sim, não estive.

E sinto nem sei bem o quê
Porque se estive, aqui e ali, com este e aquele
Como explicar esta sensação de não ter estado
Sei lá onde, sei lá com quem?

Mas talvez seja apenas uma questão de equilíbrio
Estar é também não estar, aqui e ali, com este e aquele
E porque sim estive, sinta afinal que não estive
Talvez seja apenas isso

Talvez todas as coisas chamem a si o seu contrário
Nada mais.

Taste of India – Um poema para ti

8 12 2005

Mas esses textos que escreves,
A propósito de tudo e de nada,
São afinal poemas?
Perguntas-me tu.

E eu sorrio, mas não respondo,
Ocupado que estou a tomar nota
Das coisas sem nome

O molho verde e o vermelho, as tiras finas, o arroz colorido

Do nome das coisas

Como a cerveja Kingfisher, a do pássaro de asas abertas

Mas baralho-me todo, troco os pés pelas mãos
E quero é provar as coisas e não já escrevê-las.

Então páro de imediato,
Começo finalmente a comer
E o poema continua.

PS – Tu não estavas lá, é verdade, mas agora estás, aqui, neste poema.

[…]

7 12 2005

Estamos os dois junto ao rio
sentados ao sol, lado a lado
e eu olho-te, ouço-te e falo-te até
mas não penso, não penso coisa alguma
nem mesmo penso que não penso
porque isso só agora o faço
horas depois, palavra a palavra
enquanto ainda sou capaz de o dizer
de o dizer tal e qual aconteceu.

Uma sensação

5 12 2005

Estamos os dois na mesma sala mas não te vejo
Para tanto teria de voltar a cabeça na tua direcção
No entanto, quando falas, distingo perfeitamente a tua voz

Apetecia-me ir ter contigo, mas vou ficando
E penso entretanto que tu e eu somos o mesmo, o que
Mais que um pensamento, é uma sensação

Uma sensação tão estranha quanto a que tenho
de ser sempre eu, mesmo quando me sinto outro

[…]

30 11 2005

Sinto-me ora um ora outro.
Ou talvez me sinta afinal coisa nenhuma,
Um simples espaço entre,
E isso me assuste um pouco,
Essa rarefacção de um eu que,
Nem sei bem porquê,
Insisto em acreditar denso e pesado:
Um eu que me recuso a negar,
Um eu em que, da mesma forma,
me nego a acreditar.

[…]

Estou no café,
Fim do dia, começo da noite,
A beber um cerveja e a comer qualquer coisa
Quando dou por mim a pensar que é sexta-feira.
Ou melhor será dizer sentir,
Porque se pensasse, saberia perfeitamente que não é sexta-feira,
Mas outro dia qualquer,
Outro dia qualquer que não sexta-feira.
E a sexta-feira é tão especial para mim,
Nem sei muito bem porquê, talvez porque a sexta-feira,
Fim do dia, começo da noite,
É para mim uma espécie de não lugar,
Um purgatório, um apeadeiro,
Um lugar entre uma coisa e outra coisa qualquer.
Um lugar entre o ser e o não ser,
Penumbroso, divagante,
Onde ao mesmo tempo sou e não sou.
Estou estão no café
sentado a uma das mesas, a cerveja suspensa
o tempo todo um intervalo,
Os pés no chão, a cabeça longe, muito longe
E estou alegre, e estou triste. E penso, e não penso.
E sinto, sinto e não sinto.
Sou apenas a sensação de ser tudo e de nada ser,
Nem mesmo a tinta azul que desliza pela folha baça
Conferindo-lhe sentido, conferindo-me sentido,
Perdido e achado nesta ladainha,
A que chamo ser,
A que chamo escrever.

[…]

26 11 2005

Há muito tempo que não digo a mim mesmo o que devo fazer.
Escuto-me e faço o que tem de ser feito. Não mando, obedeço.

Pode parecer esquisito, percebo isso muito bem,
Mas é assim mesmo que me acontece, e não de outra forma qualquer.

É verdade que de vez em quando ainda tenho dúvidas sobre o que devo fazer.
Às vezes ainda me questiono, mas não me preocupo.

É mais natural ter dúvidas do que não as ter. Mas não lhes dou corda, ignoro-as até.
Escuto-me a mim mesmo e faço o que é preciso fazer.

E a maior parte das vezes, verdade seja dita, não faço nada,
Que em mim é o mesmo que dizer que vivo.

Faço afinal todas aquelas pequenas coisas a que chamamos vida,
E que a maior parte do tempo nos esquecemos de viver

Uma sensação em mim

22 11 2005

Saio da biblioteca,
os poemas completos de Aberto Caeiro na mão,
e dou de caras com o fim de tarde.

O céu era de um azul… de um azul…
de um azul quê?
O fumo saía branco da chaminé como…
como… como o quê?

Fiquei parado, a sentir, mas,
pouco a pouco, comecei,
pouco a pouco, a pensar.

Então, agarrei uma folha e uma caneta,
do mesmo azul sem nome do céu,
e acabei o poema antes que ele
desaparecesse de um todo.

poema do amor impossível

Gosto do silêncio em que vivemos
quando nos encontramos

os longos olhares panorâmicos
os corpos que parecem apenas um
os lábios que falam calando as palavras

gosto desse silêncio
que é como um manto
como o ar em que as aves voam
como um vazio em que tudo é possível

é assim o nosso silêncio
que diz tanto de nós dois

Hoje de manhã

Sinto-me tão longe
E tão perto
Desse lugar nenhum
A que chamo eu

E no entanto…
Procuro-me
Procuro-me sempre
E nunca me encontro

A distância que vai
De mim a mim
Nada mais é
que eu mesmo

Para nos encontrar-mos
Precisamos estar perdidos
da vida, de nós mesmos
ser é estar a caminho.

Uma questão de ponto de vista

21 11 2005

Não sei se sou poeta
Mas sei que escrevo poemas
Ou que eles se escrevem em mim

Talvez seja uma questão de ponto de vista

A vida é a vida, os poemas são os poemas
Mas há sempre vida em todos eles
E às vezes até ela é um

Mas, talvez, insisto
seja tudo uma questão de ponto de vista

Em mim

Estivemos tão próximos e tão longe um do outro
E assim continuámos, por muito tempo

Agora estamos ainda mais próximos
e ainda mais longe
um do outro.

A diferença entre presença e ausência
é mais fina que um cabelo

Se é que percebo o que sinto
Se é que percebo quem sou