pleonasmos [3]
24 10 2007

[dispersão]
De memória

Lembro-me do seu nome
De alguns pormenores do seu corpo
Lembro-me que era primavera
Que a luz entrava pela janela à minha direita
E era devolvida pela superfície espelhada do armário

Lembro-me de tudo isso
Mas tudo isso eu poderia ter esquecido
Tudo isso eu poderia ter inventado
Menos o brilho nos seus olhos
No mais profundo dos seus olhos

Como se não lhes pertencesse
Como se fosse apenas o reflexo
Da minha própria felicidade
I
“Porque nunca me perguntas nada?”, disse-lhe ela, e ele perguntou a si mesmo por que seria.
II
“Porque nunca me perguntas nada?”, disse-lhe ela, e ele pensou que o problema não estava nas perguntas mas nas respostas.
III
“Porque nunca me perguntas nada?”, disse-lhe ela, e ele olhou-a, interrogativamente.

fotografia daqui
Luís Ene

I
“De que cor é o mar?”, perguntou-lhe ela, e ele fechou os olhos para ver melhor.
II
“De que cor é o mar?”, perguntou-lhe ela, e ele olhou-a à procura de uma resposta.
III
“De que cor é o mar?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu-lhe que era da cor do seu olhar.

Luís Ene
I
“Porque estás tão calado?”, perguntou-lhe ela, e ele foi todo ouvidos.
II
“Porque estás tão calado?”, perguntou-lhe ela, e ele abriu-se num sorriso caloroso.
III
“Porque estás tão calado?”, perguntou-lhe ela, e ele pensou em responder-lhe com uma pergunta.

fotografia daqui
Luís Ene
I
“Tens alguma coisa a dizer-me?”, perguntou-lhe ela, e ele soube que as perguntas ainda mal tinham começado.
II
“Tens alguma coisa a dizer-me?”, perguntou-lhe ela, e ele ficou à espera do que ela tinha para lhe dizer.
III
“Tens alguma coisa a dizer-me?”, perguntou-lhe ela, e ele disse a si mesmo que só lhe restava negar tudo com veemência.

fotografia daqui
Luís Ene
I
“O que queres da vida?”, perguntou-lhe ela, e ele disse a si mesmo que lhe bastava estar vivo.
II
“O que queres da vida?”, perguntou-lhe ela, e ele sentiu de imediato a presença da morte.
III
“O que queres da vida?”, perguntou-lhe ela, e ele teve vontade de lhe apertar o pescoço.

Luís Ene
I
“O que queres dizer com isso?”, perguntou-lhe ela, e ele arrependeu-se imediatamente de o ter dito.
II
“O que queres dizer com isso?”, perguntou-lhe ela, e ele disse a si mesmo que o melhor era não acrescentar coisa alguma.
III
“O que queres dizer com isso?”, perguntou-lhe ela, e ele apressou-se a dizer-lhe que não era nada do que ela estava a pensar.

imagem daqui
Luís Ene
I
“És feliz?”, perguntou-lhe ela, e ele pensou nisso pela primeira vez há muito tempo.
II
“És feliz?”, perguntou-lhe ela, e ele sentiu a dúvida a instalar-se nele.
III
“És feliz?”, perguntou-lhe ela, e ele amaldiçoou-a por isso.

fotografia daqui
Luís Ene
I
“Estás a dizer-me a verdade?”, perguntou ela, e ele respondeu para si mesmo que sim, claro, que coisa, estava a dizer a sua verdade.
II
“Estás a dizer-me a verdade?”, perguntou ela, e ele começou a duvidar de si mesmo.
III
“Estás a dizer-me a verdade?”, perguntou ela, e ele mentiu-lhe mais uma vez.

fotografia daqui
Luís Ene
I
“Quanto tempo consegues aguentar sem sexo?”, perguntou-lhe ela, e ele calou bem fundo um sentido “Ainda mais?”.
II
“Quanto tempo consegues aguentar sem sexo?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu com um cauteloso “depende”.
III
“Quanto tempo consegues aguentar sem sexo?”, perguntou-lhe ela, e ele disse-lhe com um sorriso que atingira o seu limite.

fotografia daqui
Luís Ene
I
“Por que me olhas tão intensamente?”, perguntou ela, e ele mergulhou ainda mais dentro de si mesmo.
II
“Por que me olhas tão intensamente?”, perguntou ela, e ele olhou-a como se ela mesma fosse a pergunta.
III
“Por que me olhas tão intensamente?”, perguntou ela, e ele despertou finalmente do seu sonhar acordado.

fotografia daqui
Luís Ene
I
“O que é escrever?”, perguntou-lhe ela, e ele olhou-a intensamente até que ela se viu reflectida no seu olhar.
II
“O que é escrever?”, perguntou-lhe ela, e ele agarrou numa caneta e escreveu a pergunta na palma da mão esquerda.
III
“O que é escrever?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu que era isso mesmo, e não disse mais nada.

Luís Ene
I
“Porquê o ser e não o nada?”, perguntou-lhe ela, e ele sentiu em si um profundo abalo metafísico mas fez como se nada fosse.
II
“Porquê o ser e não o nada?”, perguntou-lhe ela, e ele percebeu que nunca antes tinha sentido em si tanta vontade de ser.
III
“Porquê o ser e não o nada?”, perguntou-lhe ela, e ele repetiu a pergunta para si mesmo, breves instantes antes de deixar finalmente de ser.

Luís Ene
Fotografia daqui
I
“Por que nunca acreditas em mim?”, perguntou-lhe ela, e ele nem queria acreditar no que ouvia.
II
“Por que nunca acreditas em mim?”, perguntou-lhe ela, e ele olhou-a nos olhos, ainda com mais desconfiança do que era habitual.
III
“Por que nunca acreditas em mim?”, perguntou-lhe ela, e ele acreditou nela pela primeira vez.

Luís Ene
I
“Por que te esforças tanto?”, perguntou-lhe ela, mas ele nem a ouviu, tão concentrado estava a tentar agradar-lhe.
II
“Por que te esforças tanto?”, perguntou-lhe ela, e ele ficou a pensar no exacto sentido da pergunta.
III
“Por que te esforças tanto?”, perguntou-lhe ela, e durante várias horas ele fez o possível e o impossível para lhe explicar a razão.

Luís Ene
fotografia daqui
I
“Quem sou eu?”, perguntou-lhe ela, e ele lembrou-se do tempo em que tinha uma resposta simples para essa pergunta.
II
“Quem sou eu?”, perguntou-lhe ela, e só então ele percebeu que não sabia a resposta.
III
“Quem sou eu?”, perguntou-lhe ela, ele olhou-a como se a visse pela primeira vez. Só assim lhe poderia verdadeiramente responder.

Luís Ene
I
“É verdade que me trais?”, perguntou-lhe ela, e ele disse a si mesmo que sim, sim, sim, bem podia ficar à espera de uma resposta.
II
“É verdade que me trais?”, perguntou-lhe ela, e ele calou-se, mas ficou a pensar que até não era uma má idéia.
III
“É verdade que me trais?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu que não, sem hesitações, sem mesmo pensar. Se havia uma coisa que nunca faria era trair-se a si mesmo.

Luís Ene
fotografia daqui
I
“Qual é o teu desejo mais profundo?”, perguntou-lhe ela, e ele ficou a pensar se ela tornaria o seu desejo realidade caso ele lhe dissesse qual era.
II
“Qual é o teu desejo mais profundo?”, perguntou-lhe ela, e ele nada disse: o desejo devia ser profundo e todo ele era superficialidade.
III
“Qual é o teu desejo mais profundo?”, perguntou-lhe ela, e ele caiu em si à procura de uma resposta e nunca mais voltou.

Luís Ene
fotografia daqui
I
“É melhor estar vivo ou estar morto?”, perguntou-lhe ela, e ele nem hesitou: disse-lhe que preferia estar morto. Acho que foi isso que lhe salvou a vida.
II
“É melhor estar vivo ou estar morto?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu que preferia estar vivo. Viveu ainda muitos e muitos anos, tantos que várias foram as vezes que implorou pela morte.
III
“É melhor estar vivo ou estar morto?”, perguntou-lhe ela, mas ele nem tentou responder. Havia muito que estava completamente morto.

Luís Ene
I
“Serias capaz de prescindir de sexo por amor?”, perguntou-lhe ela, e ele ergueu sobressaltado o olhar dos seus generosos seios e pediu-lhe para repetir a pergunta.
II
“Serias capaz de prescindir de sexo por amor?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu para si mesmo que sim, sim, sim, mal podia esperar para levá-la para a cama.
III
“Serias capaz de prescindir de sexo por amor?”, perguntou-lhe ela , e ele respondeu que sim, claro, sem dúvida, o que não faria por amor. Estava há muito habituado a mentir por sexo.

[O título é o mesmo que sugeri há dias a um amigo para um blog que pretendia criar. Se vier a criá-lo desde já lhe ofereço este texto.]
Luís Ene
a fotografia veio daqui
I
“Por que me amas?”, perguntou-lhe ela, e ele não só não lhe respondeu como fez tudo para esquecer a pergunta. Tinha bastante medo de, caso um dia soubesse a resposta, deixar de a amar.

II
“Por que me amas?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu-lhe sem hesitar: Porque desconheço a razão! Foi nesse exacto momento que ela começou a amá-lo.

III
“Por que me amas?”, perguntou-lhe ela, e ele começou a falar-lhe com entusiasmo do último livro que lera. Então ela sorriu de felicidade, pois, tal como ele, também ela não sabia por que o amava.

[Por que amamos? Amamos para que o amor aconteça!]
Luís Ene
o poeta espera o poema e
quando ele afinal
chega
dispõe os versos
linha a linha
com todo o cuidado
convida-o a repousar
nas entrelinhas daquilo
que lhe é possível dizer e
quando finalmente
ele aceita
o convite
agradece-lhe muito
e retira-se
em silêncio

[Talvez os poemas nunca estejam acabados, mas isso não quer dizer que o seu autor não pare de escrever o poema, porque quando reescreve é afinal já outro poema que ele escreve.]
fotografia daqui
o dia nasce
mais uma vez
com o sol a pique
abrigo-me à sombra
de uma árvore que não existe
e tento pensar
por que é a vida
sempre tão difícil?
não seria tudo mais fácil
se pudéssemos
sonhar as nossas vidas?

mas o sol não se move
e a sombra enfraquece
cada vez mais
então paro de pensar e saio
à procura de outra sombra
[Acordo, como me tem acontecido nos últimos dias, com um poema a pedir-me para ser escrito, mas, tal como muitos sonhos que recordo quando acordo, logo percebo que me é quase impossível dizê-lo.]
Luís Ene
escrevo
noite e
fico à espera mas
por mais que eu aguarde
num silêncio abafado
de insónia
a folha não escurece
não se salpica de estrelas
e só quando desisto
fecho os olhos
e a procuro em mim
é que ela cai
plena

a mesma noite
que eu escrevera
e só em mim
afinal
existia
[Luís Ene]
imagem tirada daqui

São tão estranhas
as palavras
e a relação
que com elas tenho

A palavra silêncio
por exemplo
só a digo para mim mesmo
em pensamento
Quanto à palavra grito
simplesmente
evito dizê-la
por educação

Já a palavra amor
só quando te beijo
meu amor
faz todo o sentido
luís ene
Há uma linha que separa
o real da ficção.
É sobre ela que caminho.
Luís Ene

Aprendi a abandonar-me, por completo, e ficar a ver-me,
como uma imagem que tivesse fugido de um espelho
mas o levasse consigo no bolso mais interior.

É uma prática esquisita e perigosa, sei-o muito bem,

mas não conheço melhor forma de viver.

gostava que me telefonasses
marcasses encontro comigo
me passasses os dedos pelo cabelo
beijasses de leve os meus lábios
e risses dos meus olhos abertos
de espanto e de satisfação

por isso escrevi este poema

para que (talvez) o escutasses
para que (talvez) acontecesse
Luís Ene

Chamei-a
muitas vezes
a cada linha
a cada verso
e às vezes
ela vinha
mas logo
se ia
embora
de repente
sem cerimónias
tal como
tinha
vindo

Então
deixei
de a chamar
mas ela
continuou
a aparecer-me
uma e outra vez

e nunca mais
me abandonou.
Luís Ene
Ela olhou-o bem nos olhos e ele viu um céu azul de Verão. Apeteceu-lhe logo dizer que ela tinha os olhos mais azuis do mundo, mas sabia bem que tal seria vulgar e nada diria na verdade. Pensou depois dizer-lhe que os seus olhos eram pedacinhos de céu, mas sabia muito bem que tal seria ingénuo e de um enorme ridículo. Esforçou-se ainda durante algum tempo por encontrar uma forma poética de dizer os olhos dela, mas nada lhe ocorria. Desanimado, olhou de novo os olhos dela, que sorriam ainda, e viu que eram castanhos. Então sorriu ele também, e disse-lhe numa voz clara de espanto: Tens os olhos mais azuis do mundo.
[outra versão aqui]
verso
a verso
cresce
o poema
num ir e vir
constante
entre o que diz
e o que cala
Luís Ene
depois que nos separámos
cada um seguiu
o seu caminho
era natural que assim fosse,
tão natural que às vezes
até penso que
só nos separámos afinal
para que tal pudesse
acontecer.
[4 fotografias]
I - Manhã cedo
O autocarro enche
as ruas enchem-se
a cidade transborda.
II - Surpresa
No céu sujo do óleo
e do barulho dos motores
ainda voam aves.
III - Interacção
Atravesso a rua
fora da passadeira:
mandam-me apanhar no cu.
IV - Conclusão
Na cidade sou
outro que não
eu mesmo.
Muitas perguntas existem para as quais não tenho respostas. E muitas existem para as quais tenho apenas respostas possíveis. O conto que podem ler e o modo como foi composto e é apresentado reúne muitas dessas perguntas e algumas dessas respostas. Agradecimentos especiais ao António Baeta Oliveira (e ao Guia da cidade de Silves) e à Margarida Delgado.
——————————–> Ao meu amigo
Olho-a
e aos meus olhos
o seu rosto agita-se
levemente
como a superfície de um lago
percorrido por uma brisa
E interrogo-me que estará ela
a sentir
ou a pensar
que assim a transforma

Mas de repente percebo
que é em mim
que tudo se passa
que sou eu a brisa que a toca
que sou eu o lago que se agita
e continuo a olhá-la

ainda com mais atenção.
Luís Ene
para o Fernando Dinis, sei e não sei porquê
para MC, pelo penúltimo verso
—>
Bebo uma cerveja pela garrafa
Olho o céu que lentamente adormece
Pergunto a mim mesmo se existo
Procuro em vão novas imagens
Imagens que digam o mundo

Os sinos da igreja distraem-me
Com o seu bater compassado
Mistura de felicidade e melancolia
Escrevo aliviado um último verso
[OLHAR IBÉRICO - Exposição de Fotografia e Encontro de Escritores]
As palavras
São apenas palavras
Janelas, portas, muros
Sem dentro nem fora que
Ao mesmo tempo
Nos revelam
E nos escondem
O mundo
Um piscar de olhos
Um bater de asas
Esquivo vislumbre
Lembrança distante
Vive-se toda a vida
Num único momento