Estou no café, no início de mais um dia igual aos outros. Olho o galão e a torrada e ajeito-lhes várias vezes a posição, sobre a minha direita, o galão mais próximo de mim.
E é então que me recordo daqueles pequenos jogos de plástico, em que o objectivo era reconstruir uma imagem movendo cada um dos seus componentes; o que só se mostrava possível porque faltava sempre um, como se fosse ele mesmo a chave do mistério.
E é então que os meus sentidos despertam, e todo eu desperto, e sinto-me parte do mundo, um mundo que se move sem cessar à procura de um equilíbrio. E nesse mundo não existe qualquer diferença entre mim que me ilumino e uma velha estrela que se apaga, abatendo-se sobre si própria.
Inspiro e expiro profundamente, como se fosse esse o próprio movimento do mundo. Mais um dia, mais um dia igual a tantos outros, digo a mim mesmo, com um sorriso que parece ser parte do meu rosto.
Estou no mesmo café de sempre, a tomar o mesmo pequeno-almoço de sempre. Bebo um gole de café com leite, mastigo uma tira de pão torrado.