Pensar Talvez

30 11 2006

gostava que me telefonasses
marcasses encontro comigo
me passasses os dedos pelo cabelo
beijasses de leve os meus lábios
e risses dos meus olhos abertos
de espanto e de satisfação

por isso escrevi este poema
para que (talvez) o escutasses
para que (talvez) acontecesse

Luís Ene

Verdade e consequência

5 08 2006

Durante duas semanas submeto-me a uma rigorosa dieta de emagrecimento. Depois peso-me, e constato que engordei dois quilos. Sempre assumi com muita dificuldade as consequências dos meus actos.

[…]

13 07 2006

Estou no café, no início de mais um dia igual aos outros. Olho o galão e a torrada e ajeito-lhes várias vezes a posição, sobre a minha direita, o galão mais próximo de mim.

E é então que me recordo daqueles pequenos jogos de plástico, em que o objectivo era reconstruir uma imagem movendo cada um dos seus componentes; o que só se mostrava possível porque faltava sempre um, como se fosse ele mesmo a chave do mistério.

E é então que os meus sentidos despertam, e todo eu desperto, e sinto-me parte do mundo, um mundo que se move sem cessar à procura de um equilíbrio. E nesse mundo não existe qualquer diferença entre mim que me ilumino e uma velha estrela que se apaga, abatendo-se sobre si própria.

Inspiro e expiro profundamente, como se fosse esse o próprio movimento do mundo. Mais um dia, mais um dia igual a tantos outros, digo a mim mesmo, com um sorriso que parece ser parte do meu rosto.

Estou no mesmo café de sempre, a tomar o mesmo pequeno-almoço de sempre. Bebo um gole de café com leite, mastigo uma tira de pão torrado.

[…]

9 07 2006

Só do lado de cá existem todas as cores. Só do lado de cá todos os momentos são únicos e singulares. A vida repete-se banal e sem brilho. Só do lado de cá tudo parece ainda fazer sentido.

oficina de pequenos poemas em prosa

30 06 2006

Materiais:
1- Cão, Nuvem, Flor, Homem
2- Comer, Voar, Olhar, Pensar
3 - Muito, Pouco, Devagar, Rapidamente
4 - Ninguém acreditou, Não podia ter feito outra coisa, Foi a primeira e a última vez, Depois morreu

Modo de fazer:
Juntar um de cada pela ordem apresentada, acrescentando artigos à vontade.

Exemplos:
- Um cão voou devagar. Depois morreu.
- Uma flor pensou rapidamente. Foi a primeira e a última vez.

Um caminho

O cheiro da hortelã na canja de galinha. O cheiro da tangerina a ser descascada. O cheiro do teu corpo suado de prazer. Todos estes cheiros me levam, rapidamente e em silêncio, a um lugar onde tudo tenho porque nada mais preciso.

involuntário

29 06 2006

Observou atentamente o pôr-do-sol, registando com cuidado um extenso conjunto de dados verificáveis, e só quando releu as suas notas percebeu afinal que tinha escrito um poema.

Escrever e pensar

27 06 2006

(para o henrique manuel bento fialho)

Sentou-se ao fim da tarde ao computador, como fazia todos os dias, e deixou que os seus dedos batessem pausadamente nas teclas, enquanto no ecrã se formavam palavras e frases. A princípio foi isso mesmo que fez,
apenas isso.

Depois pensou
Existe alguma diferença entre escrever e pensar?
e voltou a escrever. Escrever não é traduzir ideias em palavras, as ideias não existem sem as palavras.

E de novo pensou
Se não existissem palavras não existiriam pensamentos.
e de novo tentou fixar esse pensamento.

E lembrou-se de uma afirmação sua, num dos pequenos textos que se habituara a escrever
Escrever é apanhar moscas à mão
e de como seria fácil alterá-la
Pensar é apanhar moscas à mão
e continuar afinal a dizer a mesma coisa.

Escrever é pensar o mundo, disse a si mesmo, e riu-se. E a mosca varejeira que enchia o quarto
bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz bzzzzzzzzzzzzzzzzzzz bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
riu-se também.

[…]

A sua escrita era clara, exacta e elegante, de uma forma inexcedível e nunca antes alcançada, mas ele já nada tinha para dizer: apurara tanto a sua técnica que ela deixara de lhe obedecer, e de um simples meio tornara-se afinal um fim. Decidiu deixar de escrever, até ter algo para dizer, e muito tempo passou, mas ele ainda duvidava. Reuniu então o que tinha escrito anteriormente, e queimou tudo. Só então sentiu alguma tranquilidade.

Mais palavras

Palavras palavras palavras. Palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras.

Palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras.

Palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras.

Palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras.

Palavras palavras palavras palavras.

Palavras.

[…]

22 06 2006

foto de José Alberto Mar - fragmento

—>

Acredito em Deus, disse, mas num deus estúpido, presunçoso e soberbo criado à nossa imagem e semelhança.

Enigma

Disse
O que é que estou aqui a fazer?
e repetiu
O que é que estou aqui a fazer?
mas ninguém lhe respondeu.

A verdade é que falava por todos nós.

Equinócio

Estou a escrever, à mão, como é meu hábito; mas a cada palavra, a cada frase, tudo desaparece no branco da folha.

Deve ser da luz, digo a mim mesmo, e saio para comprar uns óculos escuros.

A escrita

Uma palavra à frente da outra,

linha
após
linha,

assim se desenvolve a escrita, mesmo quando em si mesma não tem nada de linear, mesmo se a cada palavra,

a
cada
linha,

toda ela for surpresa e deslumbramento.

Início

21 06 2006

Uma estrela abate-se sobre si própria.
Um homem desperta subitamente.

Entre uma e outra coisa nada existe em comum a não ser a proximidade das linhas que suportam as duas afirmações; no entanto, estou certo que a imaginação do leitor já deve ter feito o que habitualmente faz, colocar as coisas em relação. É assim que tudo sempre começa.

Degradação

É a partir do exacto centro de cada frase que o vazio cresce e se instala, reduzindo a frase a nada,

ou pouco mais que nada,

como se fosse apenas uma ruína de si mesma, uma fachada triste que já não engana quem quer que seja.

As palavras

20 06 2006

As palavras são palavras. São instrumentos. É preciso não confundir as coisas. Ou acontece-nos o mesmo que àquele indivíduo que perante uma magnífica refeição passou o tempo a tentar comer os talheres. De prata, por sinal.

Sentir e pensar

19 06 2006

Por que fez isto assim, desta maneira?
Porque me apeteceu.
Mas o que quis transmitir? O que pensou?
Não pensei nada, limitei-me a sentir.
Não é isso que eu penso.
Mas é isto que eu sinto.

Demonstração

12 06 2006

Escrevi muitos poemas em prosa e muitas prosas em verso, até ao dia em que alguém me demonstrou, categoricamente, que uma coisa é a poesia e outra a prosa. A partir daí nunca mais escrevi coisa alguma.

Tristeza

9 06 2006

À janela, uma mulher olha para fora de casa e de si mesma, mas nada lhe devolve a alegria; tudo nela é tristeza, e o mundo que vê é um mundo triste. Quando me olha, sinto-me triste, ainda mais triste, e sorrio.

Quando escrevo

8 06 2006

Quando escrevo, há alguém que escreve. E alguém que lê. E alguém que diz que está tudo mal. E alguém que se cala. E alguém. E alguém mais.

Quando escrevo sou um monstro de várias cabeças. E não sei se alguma delas é a minha.

Lengalenga

7 06 2006

– Como descreveria o seu estilo?
– Não sei se tenho algum. Tento apenas escrever o que tenho para dizer da melhor forma.
– Esforça-se muito por ser original?
– Nem por isso. Tento apenas escrever o que tenho para dizer da melhor forma.
– E que característica da sua escrita indicaria como a mais importante?
– Não faço a mínima ideia. Tento apenas escrever o que tenho para dizer da melhor forma.

Escrever

6 06 2006

Leio que escrever é traduzir ideias em palavras e discordo com veemência. Escreve-se com palavras tal como se pensa com palavras. Não é uma questão de tradução, ou mesmo de transcrição. Escrever é, se querem mesmo saber, apanhar moscas com a mão.

O problema

4 06 2006

Caminhei ao seu redor, com toda a cautela, observando-o à distância. Era enorme. E há muito tempo que estava ali. A cada passo que eu dava parecia mudar, e não lhe conseguia descobrir um princípio ou um fim. Imobilizei-me, respirei fundo, e olhei-o com firmeza, até que comecei a ver através dele. Ainda estava lá, mas era como se já não estivesse.

Arte poética

3 06 2006

Estou com dois amigos a jantar num restaurante chinês. O empregado traz-me o gelado frito que pedi. Um dos meus amigos interroga-se: Mas isso é um gelado? E logo o outro pergunta: Mas isso é um frito? E indignam-se. E argumentam.
Enquanto isso, eu como a sobremesa.
Deliciosa!

O sorriso

2 06 2006

Saio de casa e caminho até à paragem do autocarro. As pessoas olham-me e sorriem-me. Verifico se não trago a camisa do avesso ou tenho a braguilha aberta. Ao passar por uma loja olho-me na montra e percebo finalmente. O meu rosto, habitualmente sério, ostenta um sorriso luminoso. Ainda penso em apagá-lo, mas enche-me de tal forma de felicidade que não me atrevo. Continuo. As pessoas olham-me e sorriem-me. Algumas até param, sempre a sorrir-me.

A esplanada

1 06 2006

Sempre que posso, sento-me nesta esplanada, à beira do rio, que me disseste gostar muito. Nunca te encontrei, mas continuo a vir. Talvez com o tempo te esqueça. Talvez com o tempo passe a gostar deste local.

Crescimento

31 05 2006

Vê se cresces, dizem-me. Cresce e aparece.
E eu cresço, e eu apareço, uma e outra vez, mas nunca lhes parece suficiente.
Então, um dia, cresço ainda mais, num último esforço, e volto a aparecer.
Fogem todos, aterrorizados. Eu assusto-me, e fujo também.

Demasiado tarde

29 05 2006

Mostras-me uma roseira, um exemplar magnífico, e dizes-me para ter cuidado com os espinhos. Demasiado tarde! A beleza das rosas já me feriu. Profundamente.

O anjo

27 05 2006

Ele está sentado num banco de jardim, as pernas cruzadas, a olhar o céu, azul, sem nuvens; e na sua boca aberta os lábios movem-se sem dizer nada. As pessoas passam mas não o vêem. Umas vão apressadas, outras levam a cabeça baixa. Ignoram-no. Se o olhassem saberiam que é um anjo. A boca exausta denuncia-o.
Sento-me ao seu lado, em silêncio, e fico a olhar para cima, também eu cego de azul.
As pessoas passam por nós mas não nos vêem.

Um pequeno poema

25 05 2006

Escrevo um pequeno poema, encho-me de coragem, e mostro-o a todas as pessoas que encontro. Primeiro dizem-me que não é um poema, e torcem o nariz, mas eu afirmo que sim, que é um poema, e insisto, uma e outra vez. Então dão-me razão, é um poema, garantem-me, acenando com a cabeça em sinal de concordância. Fico a pensar que é preciso ser louco para escrever poesia.

Um sorriso

24 05 2006

Observo o meu rosto no espelho. Sorrio. Noto como o sorriso se inicia nos olhos, com um pequeno ponto de luz, e se espalha por todo o rosto até terminar na boca. Sorrio de novo, uma e outra e outra vez. Lentamente. A minha maior ambição é sorrir um sorriso único.