livros

4 07 2007

Existem os livros que têm de ser lidos e os livros que têm de ser escritos. O número dos que têm de ser lidos é [sempre] infinitamente menor. E têm não só de ser lidos, mas lidos e relidos. [Estes livros variam de leitor para leitor.]

tempo

30 06 2007

Escrevi em menos de uma semana um conjunto de pequenos poemas em prosa. Precisei de mais de trinta anos para o fazer.

necessidade

29 06 2007

Escrevo com o mesmo sentir com que se abraça uma causa perdida: se não for eu quem o fará?

narrativas

28 06 2007

As narrativas respiram, adormecem, sobressaltam-se, sofrem movimentos involuntários. Têm tanto de corpo como de alma.

razão

27 06 2007

Tens toda a razão, aquiesci. Não tinha! Mas também não queria ser convencido do contrário.

mãos

Olho as minhas mãos, as palmas voltadas para cima, e digo-as vazias. Depois fecho-as. Agora sim, estão vazias, muito mais vazias.

palavras

As palavras são luzes no escuro. Mostram. Iludem. Cegam.

Literatura

6 02 2007

Há livros que se lêem e outros que têm de ser vividos.

[Escrevi esta frase como se fosse minha, mas muitos a devem ter já pensado, vivido e até, quem sabe, escrito.]

Luís Ene

A verdade é um motor a dois tempos

31 01 2007

I

Abraço-te
e esse abraço
é tão real
que tenho a certeza
de estar a sonhar

II

Antes
eu não via
agora
eu vejo

mas antes
eu não sabia
que não via

e agora
não entendo
o que vejo

[Luís Ene]

Disciplina

30 01 2007

A mim
só me interessa
o que apenas é dito
no silêncio
das palavras

A mim
só me interessa
o que palavra nenhuma
pode revelar
ou dizer

As palavras
são trampolins
territórios de passagem
luzes fortes
que iluminam

A mim
só me interessa
cruzar a fronteira de algo
muito muito
mais além

[Luís Ene]

Desconcerto

27 01 2007

eu não sei qual é a causa mas

tudo é efeito
tudo é defeito

as coisas só acontecem

porque têm
de acontecer

sem qualquer razão a não ser
a de tudo ser mesmo assim porque

tudo é efeito
tudo é defeito

e o mundo não é mais do que é

uma desordem
toda perfeição

uma perfeição
toda desordem

é assim que as coisas são e
é assim que vão continuar a ser

mesmo que não exista uma causa

ou talvez
por causa disso

–> Luís Ene

[uma causa próxima deste texto terá sido sem dúvida o visionamento pela segunda vez do filme Babel]

silêncio e literatura

25 01 2007

Assim como o silêncio é
tecido de subtis
sonoridades

também a escrita é ela mesma
tecida de luminosos
silêncios

E tudo o que dissermos
ou não
estará sempre em segundo plano

por mais que nos esforcemos
ou não
por dizê-lo e dizê-lo e dizê-lo

Porque as palavras pouco mais são
do que fracos ecos
de outros ecos

de tudo o que só poderá ser dito
uma e outra e
ainda outra vez

Luís Ene

do amor e da literatura

24 01 2007

É um não-sei-o-quê, dizia ela sempre que lhe perguntavam o que era o amor, e estou certo que não o fazia por ignorância, mas por sabedoria. Da mesma forma respondo eu quando me perguntam o que é a literatura, só que no meu caso não sei se o faço por sabedoria ou por ignorância.

Luís Ene

realidade virtual

20 01 2007

— Gostava de ler o que escreves, mas não encontro nada nas livrarias.

— Olha, lê-me na I n t e r n e t !

arte poética

Desenho
palavra a palavra
este não sei o quê
que em mim
sempre habita
e chamo-lhe
poema

Luís Ene

o mundo

17 01 2007

1.

O mundo não existe
em si mesmo

O mundo existe
porque o sentimos

O mundo existe
porque o fingimos

O mundo só existe
em nós mesmos

2.

e pouco a pouco
muito pouco a pouco
sem nada
verdadeiramente
mudar
tudo se transforma

Luís Ene

Outro conselho

16 01 2007

Não tenhas medo
de fazer perguntas
e não obter
resposta alguma

Fazer perguntas
e dar a resposta
é muitas vezes
uma mesma coisa

Luís Ene

Dois textos, um paradoxo

15 01 2007

[Escrevo um primeiro texto, a que chamo Paradoxo, e considero-o completo. Depois, logo a seguir, quando o leio uma última vez, mudo-lhe uma palavra, corto duas frases e surge um segundo texto que se parece muito mais com o que eu procurava. E no entanto… ]

Primeiro

Abro a porta e entro.
Está tudo às escuras.
Acendo a luz.
A luz cega-me.
Fecho os olhos.
Abro-os de novo.
Não vejo nada.
Recuo assustado.
Fecho a porta.
Nunca mais ali volto.

Segundo

Abro a porta e saio.
A luz cega-me.
Fecho os olhos.
Abro-os de novo.
Não vejo nada.
Recuo assustado.
Fecho a porta.
Nunca mais ali volto.

Luís Ene

Um dia de vida - [3]

14 01 2007

A visita

No dia 30 de Janeiro de 200… pela manhã, José Matos recebeu a visita da morte. Estava um dia claro e preparava-se para sair. Era Helena, a sua mulher, falecida há pouco mais de um ano, mas ele não conseguiu dizer o seu nome, não conseguiu dizer nada, e ficou a olhá-la nos olhos, à espera.

Preciso que venhas comigo, disse ela, com o meio sorriso que lhe era tão habitual, a cabeça ligeiramente à banda, num inequívoco tom de comando que não admitia contestação. Ele olhou-a com saudade mas não se moveu, limitando-se a encher-se com a imagem dela.

Anda, disse ela, e juntou o gesto à palavra, pousando-lhe a mão direita no ombro. Ele estremeceu de prazer ao sentir o frio dos dedos dela beijarem-lhe a pele. Ela tinha sempre as mãos frias, de Verão ou de Inverno. Era uma das muitas coisas que gostava nela, uma das muitas razões porque gostava dela. O seu meio sorriso, o seu ar decidido, as suas mãos frias.

Anda, disse ela de novo, e ele foi com ela. Desceram de mãos dadas no elevador e assim caminharam até ao carro dele, estacionado ali mesmo em frente, mas ele nunca olhou para ela. Eu conduzo, disse ela, e ele entregou-lhe as chaves e foi sentar-se ao lado dela. Foi assim que ela morreu, disse a si mesmo, mas mal o disse logo o esqueceu, e só à saída da cidade, ao ver que ela seguia o mesmo caminho é que voltou a dizer a si mesmo que fora assim que ela morrera, mas, mais uma vez, esse pensamento o abandonou tão rapidamente como lhe surgira. Olhava em frente, fixamente, mas sentia com invulgar intensidade a presença dela, como se a sentisse com um sentido nunca antes usado, e sentia-se sereno, quase feliz, como antes.

Cinco quilómetros depois, à entrada da curva sobre o mar que ela rompera, decidida, fechou os olhos e esforçou-se por senti-la ainda mais, mais, mais, ainda mais, mas apenas sentiu então o carro guinar bruscamente, os ouvido cheios do chiar dos pneus e do riso álacre da mulher, das suas gargalhas soltas. Abriu os olhos e procurou-a mas ela já não estava ali, estava fora do carro e olhava para ele, debruçada para dentro. Agora deixa-me ir, disse ela, e desapareceu do seu campo de visão.

Ele saiu também, olhou em volta, mas já não a viu. Então encaminhou-se para a beira do precipício sobre o mar e ficou ali, no mesmo lugar onde tinham os dois assistido muitas vezes ao pôr-do-sol. Depois, voltou para o carro, olhou em frente, para a estrada, deu a volta à chave e pôs o carro em andamento.

Luís Ene

Um dia de vida - [2]

A vida

A vida
devora-nos

até
à morte

se assim
o quisermos

se tivermos
sorte

Luís Ene

Um dia de vida - [1]

A falha

Há no mundo
uma falha
ela está
onde estou

é irregular
intensa
voraz
e tudo atravessa

perdendo-se
achando-se
num movimento
sem fim

que passa
por aqui
sim
por aqui

bem por dentro
de mim
bem por dentro
do poema

Luís Ene

paradoxo

11 01 2007

Conselho

Não tentes sempre
arduamente
mudar as coisas

às vezes basta
simplesmente
aceitá-las

Luís Ene

[O poema foi acrescentado posteriormente e actualizado o post, que era de ontem, 10 de Janeiro, e continha apenas a fotografia. Uma coisa não tem necessáriamente a ver com a outra, e talvez seja apenas isso que prolonga o paradoxo inicial.]

[6]

9 01 2007

Pode o silêncio
escrever-se?
Na verdade não sei
nem me interessa.

Quando nada quero dizer
calo-me.
Quando nada quero ouvir
fecho-me.

Por que motivo insisto
então
em escrever
sem nunca descansar?

Luís Ene

[5]

8 01 2007

Escrever é
perdermo-nos
nas palavras

Luís Ene

pensamentos - 4

Pensar é
tudo sentir
com palavras

Luís Ene

Fingimento

7 01 2007

Para vivermos o que antes vivemos
temos de sentir o que antes sentimos.
É para isso que servem as palavras.

Luís Ene

A verdade

6 01 2007

Não escrevo para dizer o que sinto
mas sim para de novo o sentir.
Toda a escrita é fingimento.

Luís Ene

Palavras

São doces
os momentos
em que as palavras
me abandonam

tão doces
que as uso
agora para assim
os recordar

Luís Ene

literatura

31 12 2006

I

O que sinto não tem nome, mas pode ser nomeado.

II

Não procuro uma resposta, sou aquilo que escrevo.

III

Dizer o mundo e dizer-me é uma e a mesma coisa.

Luís Ene

Confusão de narizes

20 12 2006

1 Não gostava do seu nariz, não gostava mesmo nada, e, ainda por cima, como se não bastasse, desconfiava dele. Um belo dia seguiu-o, e, para sua grande surpresa, ele levou-a exactamente onde ela precisava ir. A partir daí passou sempre a seguir o seu nariz e, verdade seja dita, nunca se arrependeu.

2 O seu nariz tinha de tal forma uma personalidade forte e distinta, que todos reparavam nele ainda antes de olharem para ela. Para se vingar, torcia-o por tudo e por nada.

3 Ele torcia o nariz a tudo. Ela tinha o nariz arrebitado. Certos estiveram aqueles que disseram que o casamento não ia durar muito.

[…]

8 08 2006

E momentos havia em que tinha a sensação que se despenhara e não sobrevivera.

[…]

Quase morri, pensou, e nesse momento sentiu-se mais vivo do que alguma vez na vida.

Decisão

6 08 2006

Certo dia, decidiu não escrever mais. A partir daí toda a sua obra centrou-se na impossibilidade de escrever.

[sonho]

4 08 2006

Olhas-me nos olhos  e a tua boca abre-se ligeiramente como a pedir um beijo. Mas eu sei que vais falar, que vais dizer que me amas, ou perguntar-me algo. E digo-te em silêncio, os meus lábios nos teus, o quanto acredito na completa inutilidade das palavras quando existem acções que muito melhor as podem dizer.

[…]

3 08 2006

Escreveu mais uma frase, “Ele escrevia pela noite dentro”, e era exactamente isso que queria dizer, mas achou a frase tão vulgar como a sua vida, e sentiu-se num impasse. A frase já estava escrita e a verdade é que não a sabia escrever doutra forma. Então foi à janela, olhou bem lá para baixo, e atirou-se para a morte. Atirar-me para a morte, pensou ainda, que vulgar.

[…]

2 08 2006

- Defina-se, utilizando no máximo três palavras.
- Podem ser duas?
- Claro.
- Não consigo.

[…]

Tudo o que os pais queriam era que ele fosse um simples empregado bancário; ele tornou-se um extraordinário assaltante de bancos.

[…]

Quando tinha dúvidas sobre o que fazer pedia sempre conselho ao seu cão. Nunca se arrependeu.

[…]

29 07 2006

Preparou-se durante muito tempo para ser um grande escritor, depois nunca mais escreveu.

[Pensamos muitas vezes em ser quem queremos ser mas, a maior parte das vezes, somos apenas quem nos acontece ser.]

[…]

28 07 2006

Sentiu-se mal, muito mal, e tentou virar para fora de si mesmo essa sensação, o que conseguiu. Então sentiu-se mau, muito mau, e isso foi bom, muito bom, porque se sentiu melhor, muito melhor.

[Escrever é brincar com as palavras. E com a vida também.]

[…]

26 07 2006

A vida é estúpida, pensou, e achou-se muito sábio.

[O mais estúpido de todos os estúpidos é aquele que acha sempre que a vida é que é estúpida.]

[…]

25 07 2006

(para o hmbf, a pensar nesta discussão ou, melhor, a tentar não pensar nela)

Um homem agrediu outro e este agrediu-o de volta, e durante muito tempo agrediram-se mutuamente, até que se mataram um ao outro, e nenhuma diferença fez quem tinha começado.

[Não perguntes como começou; pergunta como vai acabar.]