Volto já!

13 03 2008

Ainda há livros que quero
.
.
.
ler.

Ainda há livros que quero
.
.
.
escrever.

Ainda há tanto para
.
.
.
viver.

injustiça

9 03 2008

Matou: foi condenado numa multa. Não pagou a multa: foi preso.

CANÇÃO DO BANDIDO AO SEU AMOR APÓS A TRAIÇÃO

6 03 2008

Fica a saber que por ti enfrentaria todos os perigos, todos os desafios. No entanto, como sou fraco, o mais natural seria que falhasse e falhasse e continuasse a falhar mas, escuta-me bem, a culpa não seria minha nem do meu amor por ti. Por isso é que te compreendo muito bem e não te quero mal. Deixa-me que te diga que, no meio da minha dor, me sinto ainda assim feliz, por perceber que não deixei de te amar.

[…]

2 03 2008

A verdade do poema
não é diferente
da verdade do mundo

existe para além
do sentido
que lhe encontramos

existe para além
do sentido
que lhe damos

existe em si e por si
pois só em si existe
a sua razão de existir

por isso o poeta
escreve
o poema

mas o poema
escreve-se
a si mesmo

[…]

29 02 2008

Vou direito ao assunto:

Olhar de frente
é não ver

Dizer é sempre
não dizer

—>

O poema perfeito
escuta o que te digo
seria todo ele
feito de silêncios

—>

Não percebo
este poema
dizes-me
E eu explico-te:
O poema é uma voz
apenas uma voz
Não procures
perceber o poema
escuta-o apenas

—>

Lês um dos meus poemas e pareces admirado
Perguntas-me por que escrevo assim.
Respondo-te que é assim que eu sou.
E tu então sorris.

DIZER A VERDADE

26 02 2008

As palavras
dizem,
é isso que
elas fazem,
mas não se espere
nem por
um momento
que digam
a verdade.

Como poderiam
as palavras
dizer
a verdade
se são
elas mesmas
mentiras?

[…]

24 02 2008

para escrever
como para ler
é preciso habituar
o olhar
aceitar as sombras
as imprecisões
não temer nem por
um momento
ser livre

é simples e no entanto
é preciso saber
saber esperar e
ter confiança
como quando se entra
a meio do dia
num quarto
completamente
às escuras

[…]

19 02 2008

E então ouviu-se um som estranho, desconhecido, improvável, mas, no entanto, familiar, como quando julgamos descobrir um antigo amigo de infância num estranho. Todos se voltaram para a origem do som, junto à porta de entrada do anfiteatro, mas apenas viram um homem saindo apressadamente da sala, e seria impossível dizer se fora ele que produzira tal som e como o produzira. O orador quis continuar mas não se lembrava em que ponto do discurso ia, e ficou a olhar a folha à sua frente com surpresa. Nos rostos de muitos dos presentes reinava o espanto, os olhos e as bocas muito abertas, mas a maior parte estava séria, o cenho franzido, ainda que aqui ali algumas bocas parecessem tremer na recordação de um movimento há muito esquecido e, de repente, muitos sorriram, aqueles sorrisos tristes que todos sorriam, sorrisos de bocas esticadas e olhos parados e tristes. Se pudessem, se soubessem, certamente que ririam uns dos outros, ao verem-se assim, mas já ninguém ali era capaz de rir. Na verdade, já ninguém ali era capaz de reconhecer um riso, uma gargalhada solta e ruidosa como aquela que ainda há pouco se fizera ouvir.

[Grande merda, resmungou o homem ao mesmo tempo que se precipitava para a saída. Grande merda, resmungou ainda, e perdeu-se na multidão que enchia o átrio, o seu rosto tão sério como todos os outros rostos sérios que se repetiam numa expressão que era uma mistura de respeitabilidade e tédio. Aproximou-se do balcão da cafetaria e pediu um café e um queque de aveia, pedido que foi satisfeito com eficácia pela mulher loura vestida de um branco luminoso que o atendeu. As vozes de um e de outro, como todas que se ouviam, eram delicadas e inexpressivas, combinando na perfeição com as expressões vazias dos rostos.]

[…]

16 02 2008

A literatura salvou-me a vida!
E digo-o assim, de forma simples
Porque foi assim que aconteceu

Como leitor e como escritor
Foi isso mesmo que ela fez
A literatura salvou-me a vida

No entanto, verdade seja dita
Continuo a sofrer como antes e
A minha vida não ganhou sentido

Mas não tenho a menor dúvida
A literatura salvou-me a vida
Salvou a minha vida da morte

E continuará a fazê-lo até que
Finalmente a morte a encontre

SEGUNDO POEMA ESCRITO PELA MANHÃ

14 02 2008

(…)

vês?
disse-lhe eu em silêncio
este é
sem dúvida
o-momento-pelo-qual-esperávamos

e ela ouviu-me
e disse-me em silêncio que sim
que aquele era
sem dúvida
o-momento-que-sempre-esperáramos

aconteceu assim!
exactamente assim!
eu sei!
naquele momento
éramos um só

POEMA ESCRITO PELA MANHÃ

10 02 2008

Os que dizem que
O amor não dura sempre
Sabem muito pouco do amor
Sabem muito pouco do tempo
Porque o amor
É um facto por demais sabido
e comprovado
O amor dura para sempre
Mesmo que sempre não dure

escrever as coisas

9 02 2008

exercício n.º 2

começa pelos elementos básicos
de uma coisa qualquer

como por exemplo

tronco, ramos, folhas
às vezes flores
às vezes frutos
às vezes nada

prossegue desdobrando
cada um deles

como por exemplo

tronco
esguio, grosso, retorcido
ramos
que seguem o tronco,
se afastam, contrariam-no até
folhas
verdes, amarelas, vermelhas,
afiadas, miúdas, recortadas
às vezes flores
às vezes frutos
de todos os tamanhos
de todas as cores
às vezes nada
outono, inverno

depois experimenta apenas
uma única palavra

como por exemplo

ár vo re

e deixa que ela
se escreva em ti

SER BREVE

6 02 2008

1. Ser breve não é emagrecer um texto até o deixar fraco. Ser breve é transformar toda a sua gordura em músculo até o tornar o mais forte possível.

2. Ser breve não é usar poucas palavras. É conseguir que essas palavras digam muito mais do que delas se esperaria.

3. Para ser breve não basta enxugar o texto o mais possível. É preciso, acima de tudo, que ele sobreviva a essa operação e que dela não saia estropiado.

4. Ser breve é deixar que o silêncio fale mais alto que as palavras.

5. Toda a escrita é escolha. Ser breve é ser ainda mais exigente.

6. Ser breve não é ser avaro; ser breve é ser generoso.

TELEGRAMA

30 01 2008

por enquanto não
PONTO FINAL
mais tarde
quem sabe
RETICÊNCIAS

no comboio de Faro para Lisboa

27 01 2008

Escrever com palavras

I

escrevo
um verso com
uma só palavra
repetida

noite noite noite

e surpreendo-o imenso

de cada vez que é escrita
de cada vez que é lida
cada palavra é sempre
uma palavra nova

II

quero escrever
com a complexa simplicidade
de uma flor
de um fim de tarde
de um primeiro amor
de todas as coisas
que posso experimentar
em mim mas

atrapalho-me sempre

as palavras dizem
tanto e tão pouco

III

Escrever é ouvir as palavras. Escrever é deixar que as palavras digam tudo o que têm para dizer. Escrever não é aprisionar palavras em textos mas sim deixar que elas daí partam livres. Escrever é afirmar a impossibilidade de verdadeiramente dizer o mundo. Escrever é dizermo-nos. E que felicidade enorme é lermo-nos!

[…]

24 01 2008

junto palavras
como pedras num
muro e

ainda que cada
uma delas
seja diferente
das outras

o texto que
constroem parece
sempre
ser um só

2 poemas fáceis

23 01 2008

[para o meu amigo Salvador Santos]

O CAMINHO

o caminho mais longo é
também
o caminho mais curto

o caminho mais fácil é
também
o caminho mais difícil

um obstáculo pode transformar-se
numa rampa

um voo pode transformar-se
numa queda

mas é preciso querer
(é preciso) ir
(é preciso) deixarmo-nos ir

(quantas vezes caminhamos
voltados para trás!)

FÁCIL E DIFÍCIL

é tão difícil
queixas-te

é tão fácil
asseguro-te

e um e outro
falamos
da mesma coisa

e um outro
temos
razão

bom dia

18 01 2008

aos grandes gestos às palavras sonantes
às televisões em directo às primeiras páginas
prefiro os pequenos gestos insignificantes de todos os dias
os murmúrios quase silêncios os pequenos nadas

a tua mão a tocar ao de leve o meu rosto
os meus lábios a esboçaram um ruidoso amo-te
e mais ninguém para além de nós dois
mesmo no meio da multidão

OLHOS

1. Os leitores têm olhos grandes
2. Os cegos fecham os olhos para ver melhor
3. Quando estão tristes os olhos choram
4. Quando são vesgos os olhos desencontram-se
5. Os olhos bem abertos sofrem de insónias

Manoel de Oliveira

16 01 2008

[actualizado em 17/01/2008 ]

Aconteceu-me ontem ler o meu Poema para Manoel de Oliveira ao próprio Manoel de Oliveira, situação que me embaraçou um pouco, sobretudo quando me apercebi que me dirigia a ele por tu. A história conta-se em poucas palavras. O Afonso Rocha, artista plástico e meu grande e velho amigo, concebeu uma série de três gravuras para três cineastas (Woody Allen, Sergei Einsenstein e Manoel de Oliveira) e pediu-me para lhes acrescentar (por assim dizer) três poemas, o que fiz, depois de lhe jurar a pés juntos que era incapaz de o fazer. Pois bem, foi esse terceiro poema que li ontem. E já que estou em maré de confidências, deixem-me dizer-lhes que faz quase um ano que eu e o Salvador Santos temos um programa na Rua, o Rua do Imaginário, todas as terças-feiras, entre as sete e as oito, que pode ser ouvido on line. E… já agora, também isto. E os poemas, claro.

3 Poemas para 3 cineastas

Se há uma razão porque consigo falar sobre tudo
é porque falo sempre de mim mesmo.

Poema para Woody Allen

Recordo-me do que acontecia
quando ia ao cinema e gostava muito:
saía da sala e o filme continuava cá fora.
Aconteceu-me com muitos
dos teus filmes: sair da sala
e ver o mundo com o olhar
de um judeu nova-iorquino,
ao mesmo tempo sábio e neurótico.
Então apaixonava-me
por mulheres belas e misteriosas
tão depressa como as esquecia;
e pensava continuamente em sexo e na morte de Deus,
e tinha uma vontade incontrolável
de consultar urgentemente um psicanalista.
Conheço-te muito bem,
senti muitas vezes como tu sentiste,
e estou certo que a ti te aconteceu o mesmo,
com Fellini e Bergman.

Poema para Sergei Eisenstein

Se me perguntarem por ti, dir-te-ei
um enorme cineasta
e saberei apontar o nome de,
pelo menos,
dois ou três dos teus filmes.
Recordar-me-ei também
de algumas cenas emblemáticas,
que julgo até ter visto desmontadas,
por assim dizer, exemplificando
o teu modo de fazer cinema.
E em alguns livros devo ter lido
sobre ti e o teu cinema, quando agia
como um cinéfilo, mesmo não o sendo
verdadeiramente.
Mas os teus filmes, que vi na adolescência,
quando este velho país rejuvenesceu,
confundem-se-me sempre com a vida que então vivi.
Por isso, e só por isso, não os voltei a ver.

Poema para Manoel de Oliveira

Foi ao ver um dos teus filmes que percebi,
pela primeira vez,
que o cinema podia ser igual à vida,
mover-se com a mesma desesperante e comovente lentidão.
Não me lembro do nome do filme,
mas era baseado num célebre romance
de um escritor português e, a certa altura,
um homem entrava a cavalo numa casa
– seria o actor Diogo Dória? –
e ficava para ali a olhar para nós,
em tempo real, sem que nenhuma elipse
diminuísse o nosso aborrecimento.
Mas isso foi há muito tempo,
eu era jovem e inquieto,
desculpa-me;
desde então aprendi
a amar os teus filmes.

As coisas são como são

15 01 2008

1. As camas são leitoras compulsivas
2. As árvores esforçam-se por esconder as suas raízes
3. Os copos ora estão cheios ora estão vazios de si próprios
4. Os comboios são muito previsíveis e pouco imaginativos
5. As cadeiras estão sempre cansadas
(…)

Tudo isto e muito mais porque afinal
as coisas são como são

Ficção

13 01 2008

lembro-me que disseste que estávamos a fazer asneira
e eu respondi que não que se pensássemos assim
não deveríamos fazê-lo mas a verdade é que te menti
pois também eu achava que estávamos a fazer asneira
apesar da certeza mais que absoluta - ontem como hoje -
que asneira maior seria se afinal não o fizéssemos

AS PALAVRAS E AS COISAS

10 01 2008

falam as coisas
calam-se as palavras

falam as palavras
calam-se as coisas

ouvem-se e escutam-se
em silêncio

coisas e palavras
palavras e coisas

entre umas e outras há
um respeito mútuo

um equilíbrio
exacto e delicado

uma paixão
precisa e atenta

coisas e palavras
palavras e coisas

ESTILOS

9 01 2008

REPETIÇÃO

A morte surpreendeu-o a dormir, mesmo mesmo a meio de um sonho. Talvez por isso ele tenha ainda, durante muito muito tempo, continuado a sonhar, continuado a sonhar que vivia.

PARALELISMO

A vida é a sombra de uma sombra, disse-me, e os seus olhos eram claros e vazios como um céu de Verão. Apeteceu-me bater-lhe: a sua boca estava tão cheia de palavras inúteis quanto vazio era o seu olhar.

DESCONTINUIDADE

E se eu fosse como o sol? E por momentos imaginou-se o sol, intenso e poderoso. Continuam ainda por apurar as causas do incêndio que devastou o centro da cidade velha.

(…)

8 01 2008

Ontem mal nos conhecíamos
mal nos suspeitávamos

Amanhã discutiremos já
causas e consequências

Mas hoje vamos só
amar-nos e mais nada

(que o amor acontece
sempre entre parênteses)

NÓS OS DOIS

7 01 2008

Jantávamos os dois, pela primeira vez, no meu restaurante preferido, onde só vou muito de vez em quando. O serviço era excelente, a comida também, e até havia música ao vivo. Ela sorria, agitava-se, parecia quase feliz, mas havia nela algo indefinível, um ligeiro enfado, um ligeiro desespero, qualquer coisa assim. Conversámos, bebemos vinho tinto, trocámos confidências, e ela revelou-me o seu maior segredo. Quando algo bom lhe acontecia, sentia sempre, mas sempre, que podia ser melhor, muito melhor, e nunca, mas nunca, afinal o era. Foi então que, por alguns instantes, também eu senti que poderia ser melhor, muito melhor. Podias ser tu, e não ela, ali comigo. Mas eu sabia muito bem que nem isso era verdade.

[Jantávamos os dois
pela primeira vez
no meu restaurante preferido

onde só vou muito
de vez em quando
O serviço era excelente
a comida também
e até havia música ao vivo

Ela sorria, agitava-se
parecia quase feliz mas
havia em si algo indefinível
um ligeiro enfado
um ligeiro desespero
qualquer coisa assim

Conversámos
bebemos vinho tinto
trocaram-se confidências
e ela revelou-me
o seu maior segredo

Quando algo bom
lhe acontecia
ela sentia sempre
que poderia ser melhor
muito melhor
e nunca, mas nunca
afinal o era

Foi então que
por alguns instantes
também eu senti
que poderia ser melhor
muito melhor

Podias ser tu
e não ela
ali comigo

Mas eu sabia
muito bem
que nem isso
era verdade]

LUXÚRIA

4 01 2008

a minha boca
a tua boca
mordendo-te-me
mastigando-te-me
comendo-te-me

[Para o Fernando Dinis, por razões óbvias, pelo menos para mim. E, já agora, envia-me lá o teu Piano Works, o mail está ali ao lado. Um abraço]

O AMOR

3 01 2008

Amei-te
quase em silêncio
com gestos simples

não por vergonha
não por medo
discretamente

o amor tem em mim
um não sei quê
de oração desatenta

um não sei quê
de fé que se mantém
mesmo depois de perdida

[Amei-te quase em silêncio, com gestos simples. Não por vergonha, não por medo: discretamente. O amor tem em mim um não sei quê de oração desatenta, um não sei quê de fé que se mantém mesmo depois de perdida.]