A visita
No dia 30 de Janeiro de 200… pela manhã, José Matos recebeu a visita da morte. Estava um dia claro e preparava-se para sair. Era Helena, a sua mulher, falecida há pouco mais de um ano, mas ele não conseguiu dizer o seu nome, não conseguiu dizer nada, e ficou a olhá-la nos olhos, à espera.
Preciso que venhas comigo, disse ela, com o meio sorriso que lhe era tão habitual, a cabeça ligeiramente à banda, num inequívoco tom de comando que não admitia contestação. Ele olhou-a com saudade mas não se moveu, limitando-se a encher-se com a imagem dela.
Anda, disse ela, e juntou o gesto à palavra, pousando-lhe a mão direita no ombro. Ele estremeceu de prazer ao sentir o frio dos dedos dela beijarem-lhe a pele. Ela tinha sempre as mãos frias, de Verão ou de Inverno. Era uma das muitas coisas que gostava nela, uma das muitas razões porque gostava dela. O seu meio sorriso, o seu ar decidido, as suas mãos frias.
Anda, disse ela de novo, e ele foi com ela. Desceram de mãos dadas no elevador e assim caminharam até ao carro dele, estacionado ali mesmo em frente, mas ele nunca olhou para ela. Eu conduzo, disse ela, e ele entregou-lhe as chaves e foi sentar-se ao lado dela. Foi assim que ela morreu, disse a si mesmo, mas mal o disse logo o esqueceu, e só à saída da cidade, ao ver que ela seguia o mesmo caminho é que voltou a dizer a si mesmo que fora assim que ela morrera, mas, mais uma vez, esse pensamento o abandonou tão rapidamente como lhe surgira. Olhava em frente, fixamente, mas sentia com invulgar intensidade a presença dela, como se a sentisse com um sentido nunca antes usado, e sentia-se sereno, quase feliz, como antes.
Cinco quilómetros depois, à entrada da curva sobre o mar que ela rompera, decidida, fechou os olhos e esforçou-se por senti-la ainda mais, mais, mais, ainda mais, mas apenas sentiu então o carro guinar bruscamente, os ouvido cheios do chiar dos pneus e do riso álacre da mulher, das suas gargalhas soltas. Abriu os olhos e procurou-a mas ela já não estava ali, estava fora do carro e olhava para ele, debruçada para dentro. Agora deixa-me ir, disse ela, e desapareceu do seu campo de visão.
Ele saiu também, olhou em volta, mas já não a viu. Então encaminhou-se para a beira do precipício sobre o mar e ficou ali, no mesmo lugar onde tinham os dois assistido muitas vezes ao pôr-do-sol. Depois, voltou para o carro, olhou em frente, para a estrada, deu a volta à chave e pôs o carro em andamento.
Luís Ene