[…]

5 12 2007

O MEU AVÔ

O meu avô tinha no quintal um pessegueiro, uma pequena árvore exigente e soberba. Quando o Verão chegava, o meu avô não conseguia resistir ao apelo dos frutos, belos e olorosos, apesar de os saber carregados de bicho. Passava então o dia a contemplar o pessegueiro, como se quisesse encher-se da sua imagem, e a recriminar-se por não se ter dado ao trabalho de tratar da árvore na altura própria. Mas à noite, no escuro da noite, o meu avô escapulia-se para o quintal e comia os pêssegos directamente da árvore com deliciosa sofreguidão. Gosto de o recordar assim.

óbvia mente

11 07 2007

Mas é culpado ou inocente?
Culpado, senhor doutor, sou culpado, mas que fique bem claro que a culpa não é minha!

explicação

5 07 2007

- Se o que é verdadeiramente importante fica sempre por dizer, porque insistes em dizê-lo?
- (silêncio absoluto)

impossibilidade

4 07 2007

uma palavra
na verdade duas
na verdade três

empatia

28 06 2007

Ela estava muito grávida, ele um bocadinho.

Reflexo

26 06 2007

[próximo tema da revista minguante: espelhos]

Olhou-se ao espelho com complacência; o espelho olhou-o com severidade.

sem solução

Gosto mais de ti por dentro do que por fora, disse ela, e ele virou-se do avesso, mas de nada adiantou.

expectativas

25 06 2007

Tudo o que esperava da vida era que ela passasse depressa. Morreu, inesperada e subitamente, aos noventa e dois anos de idade.

compensação

24 06 2007

Expressava-se com muita dificuldade. Tornou-se mestre no silêncio.

epigramática

23 06 2007

Esperou toda a sua vida pela mulher perfeita. Ela apareceu no seu funeral.

eu (fragmentos)

25 02 2007
se alguma coisa (eu) sou
é esta constante busca
de mim mesmo.

para onde (eu) vou
tenho de ir só
disse ele

e perdeu-se
na multidão

tudo o que
agora (eu) sou
é a vontade
de escrever
este poema que
ter-mi-nou.

[Suspendo aqui a minha actividade de blogger. Reparo uma vez mais que sou mais fiel aos meu sentimentos que aos meus planos. Não levei até ao final, como anunciei, a publicação dos textos em curso (ficaram a faltar oito), antes vos deixando mais cedo e com algo diferente. Até mais ver que (eu) vou ser para outro lado.]

Luís Ene

poemas insignificantes

18 02 2007

I

manhã cedo muito cedo
os passarinhos frequentam
felizes aulas de música

e depois disso não têm
nenhuma obrigação
a não ser voarem livres

II

perguntas-me
por que não escrevo
o mar

explico-te que
no seu ir e vir
constante
de tons e cores
ele é já
um poema

III

tudo o que preciso
chega-me dos outros

mas gosto de pensar
ter tido em mim
um remoto
começo

Luís Ene

fragmento

2 02 2007

Não me interessa
perceber
o que faz a beleza do poema

reconhecê-la é
para mim
muito mais do que o suficiente.

Uma palavra

29 01 2007

escrevo
uma palavra

e sei
sei que em mim
não estou só

sei que os outros
existem
também

sei que um dia
alguém
a lerá

tudo isso
eu sei e
muito mais

com uma
palavra só

Luís Ene

[apetecia-me escrever algo divertido mas por estes dias só consigo escrever parvoíces sem graça nenhuma]

Escrever

O que é para mim…
escrever?
Deixa-me ver…
Escrever…
Escrever é…
Ah! Já sei!


Escrever é
deambular
pela folha
deixando
um rasto
equívoco.

Luís Ene

entreacto

28 01 2007

em cada palavra
que eu escrevo

eu sou
e não sou

e em cada uma delas
eu vivo

e em cada uma delas
eu morro

–>

[escrevo um texto maior, perseguindo uma ideia que me escapa e, quando desisto e o abandono, surge-me este outro, muito mais breve, um quase silêncio, em que dizendo muito muito menos tenho a certeza de dizer muito muito mais.]

Luís Ene

do amor e da literatura

24 01 2007

É um não-sei-o-quê, dizia ela sempre que lhe perguntavam o que era o amor, e estou certo que não o fazia por ignorância, mas por sabedoria. Da mesma forma respondo eu quando me perguntam o que é a literatura, só que no meu caso não sei se o faço por sabedoria ou por ignorância.

Luís Ene

realidade virtual

20 01 2007

— Gostava de ler o que escreves, mas não encontro nada nas livrarias.

— Olha, lê-me na I n t e r n e t !

arte poética

Desenho
palavra a palavra
este não sei o quê
que em mim
sempre habita
e chamo-lhe
poema

Luís Ene

da literatura

19 01 2007

I

Antes, toda a sua vida lhe parecia desperdiçada: aborrecia-se, zangava-se, amargurava-se e queixava-se constantemente da vida. Agora, sabe que tudo o que vive, tudo o que em si descobre e sente, é matéria-prima pronta a ser usada: aborrece-se, zanga-se, amargura-se, escreve, e mil vezes agradece à vida.

II

Há pessoas que falam sozinhas e há pessoas que falam consigo próprias, não são as mesmas pessoas, dizias-me, e eu concordava contigo, mas a verdade é que ainda hoje não vejo a diferença.

saudade de água

18 01 2007

Passávamos muitas horas encostados às paredes do Café Aliança. O mundo à nossa volta movia-se depressa, estava tudo finalmente a acontecer, e nós ficávamos ali, contemplativos e pedantes. O café continuava a perfeita imagem da cidade, com as suas diversas salas e desníveis, compartimentos fechados por onde circulávamos à vontade. Mas a maior parte do tempo ficávamos ali, encostados às paredes do Café Aliança, na esquina em frente ao coreto e, se o mundo fosse como então o sonhámos, ainda ali estaríamos.

no centro da folha

Chamo-te
e tu vens
Estás aqui
Neste poema
Esta é a força
e a fraqueza
da poesia

o mundo

17 01 2007

1.

O mundo não existe
em si mesmo

O mundo existe
porque o sentimos

O mundo existe
porque o fingimos

O mundo só existe
em nós mesmos

2.

e pouco a pouco
muito pouco a pouco
sem nada
verdadeiramente
mudar
tudo se transforma

Luís Ene

sentir (muito) - 16

16 01 2007

Sentia sempre o mesmo e não percebia porquê. Um dia, esforçou-se por ser ele mesmo, e logo se sentiu muito diferente.

Dois textos, um paradoxo

15 01 2007

[Escrevo um primeiro texto, a que chamo Paradoxo, e considero-o completo. Depois, logo a seguir, quando o leio uma última vez, mudo-lhe uma palavra, corto duas frases e surge um segundo texto que se parece muito mais com o que eu procurava. E no entanto… ]

Primeiro

Abro a porta e entro.
Está tudo às escuras.
Acendo a luz.
A luz cega-me.
Fecho os olhos.
Abro-os de novo.
Não vejo nada.
Recuo assustado.
Fecho a porta.
Nunca mais ali volto.

Segundo

Abro a porta e saio.
A luz cega-me.
Fecho os olhos.
Abro-os de novo.
Não vejo nada.
Recuo assustado.
Fecho a porta.
Nunca mais ali volto.

Luís Ene

Um dia de vida - [3]

14 01 2007

A visita

No dia 30 de Janeiro de 200… pela manhã, José Matos recebeu a visita da morte. Estava um dia claro e preparava-se para sair. Era Helena, a sua mulher, falecida há pouco mais de um ano, mas ele não conseguiu dizer o seu nome, não conseguiu dizer nada, e ficou a olhá-la nos olhos, à espera.

Preciso que venhas comigo, disse ela, com o meio sorriso que lhe era tão habitual, a cabeça ligeiramente à banda, num inequívoco tom de comando que não admitia contestação. Ele olhou-a com saudade mas não se moveu, limitando-se a encher-se com a imagem dela.

Anda, disse ela, e juntou o gesto à palavra, pousando-lhe a mão direita no ombro. Ele estremeceu de prazer ao sentir o frio dos dedos dela beijarem-lhe a pele. Ela tinha sempre as mãos frias, de Verão ou de Inverno. Era uma das muitas coisas que gostava nela, uma das muitas razões porque gostava dela. O seu meio sorriso, o seu ar decidido, as suas mãos frias.

Anda, disse ela de novo, e ele foi com ela. Desceram de mãos dadas no elevador e assim caminharam até ao carro dele, estacionado ali mesmo em frente, mas ele nunca olhou para ela. Eu conduzo, disse ela, e ele entregou-lhe as chaves e foi sentar-se ao lado dela. Foi assim que ela morreu, disse a si mesmo, mas mal o disse logo o esqueceu, e só à saída da cidade, ao ver que ela seguia o mesmo caminho é que voltou a dizer a si mesmo que fora assim que ela morrera, mas, mais uma vez, esse pensamento o abandonou tão rapidamente como lhe surgira. Olhava em frente, fixamente, mas sentia com invulgar intensidade a presença dela, como se a sentisse com um sentido nunca antes usado, e sentia-se sereno, quase feliz, como antes.

Cinco quilómetros depois, à entrada da curva sobre o mar que ela rompera, decidida, fechou os olhos e esforçou-se por senti-la ainda mais, mais, mais, ainda mais, mas apenas sentiu então o carro guinar bruscamente, os ouvido cheios do chiar dos pneus e do riso álacre da mulher, das suas gargalhas soltas. Abriu os olhos e procurou-a mas ela já não estava ali, estava fora do carro e olhava para ele, debruçada para dentro. Agora deixa-me ir, disse ela, e desapareceu do seu campo de visão.

Ele saiu também, olhou em volta, mas já não a viu. Então encaminhou-se para a beira do precipício sobre o mar e ficou ali, no mesmo lugar onde tinham os dois assistido muitas vezes ao pôr-do-sol. Depois, voltou para o carro, olhou em frente, para a estrada, deu a volta à chave e pôs o carro em andamento.

Luís Ene

Um dia de vida - [2]

A vida

A vida
devora-nos

até
à morte

se assim
o quisermos

se tivermos
sorte

Luís Ene

Um dia de vida - [1]

A falha

Há no mundo
uma falha
ela está
onde estou

é irregular
intensa
voraz
e tudo atravessa

perdendo-se
achando-se
num movimento
sem fim

que passa
por aqui
sim
por aqui

bem por dentro
de mim
bem por dentro
do poema

Luís Ene

sentir (muito) - 15

12 01 2007

Um dia deixou de pensar e não sentiu nada. Foi então que percebeu, finalmente, que só sentia muito porque pensava muito e não ao contrário.

Luís Ene

sentir (muito) - 14

Aprendera a controlar os seus pensamentos e a vida corria-lhe bem, mas um dia distraiu-se, pensou que morria e morreu mesmo. É o que sempre acontece, mais tarde ou mais cedo, a quem sente muito.

Luís Ene

paradoxo

11 01 2007

Conselho

Não tentes sempre
arduamente
mudar as coisas

às vezes basta
simplesmente
aceitá-las

Luís Ene

[O poema foi acrescentado posteriormente e actualizado o post, que era de ontem, 10 de Janeiro, e continha apenas a fotografia. Uma coisa não tem necessáriamente a ver com a outra, e talvez seja apenas isso que prolonga o paradoxo inicial.]

Sentir (muito) -13

9 01 2007

Queria deixar de sentir-se, mas não queria morrer. Então, desligou-se completamente da Internet, deitou fora o telefone, e logo se sentiu muito pouco, quase feliz.

Luís Ene

Sentir (muito) - 12

[Às vezes apetece-me apenas brincar com as palavras.]

Sentia muito, e não era que lhe acontecesse muito, mas talvez exactamente ao contrário.

Sentir (muito) - 10 e 11

7 01 2007

[Quando escrevo, não me preocupo tanto com as palavras, mas com a forma como as utilizo. Com poucas palavras, mesmo muito poucas, isso torna-se ainda mais necessário, dado que muitas vezes é mais importante criar um ambiente do que contar pormenorizadamente uma história, sacrificando-lhe mesmo as palavras. Ainda com cinco palavras, aqui ficam duas histórias que prescindem de título e que pretendem ser um exemplo que dizia.]

10

Viveu. Viveu. Viveu. Morreu jovem.

11

Sofria. Sofria. Sofria. Matou-se jovem.

Sentir (muito) - 8 e 9

5 01 2007

[Escrever com o mínimo dos mínimos de palavras é correr o risco de nada dizer, ainda que escrever seja sempre, independentemente do número de palavras, escolher o que se diz e, portanto, o (muito) que se deixa por dizer. Nas histórias muito pequenas tem sido costume não contar com o título, o que lhe confere, na maior parte dos casos, estatuto de imprescíndivel. Exemplificando, aqui fica um texto (com cinco palavras) que prescinde de título, embora pudesse tê-lo (Ambiguidade), e outro que não poderia passar sem um.]

8

Sinto muito, disse, e morreu.

9

Últimas palavras

Sinto muito!

Sentir (muito) - 7

[Ainda que tenha muito vezes experimentado escrever com um mínimo de palavras - ou por causa disso - acredito no entanto que cada texto exige um número certo de palavras. Este pede exactamente cinco. E talvez um título: Ao vivo.]

Sinto-o devorar-me dos pés à…

Sentir (muito) - 6

4 01 2007

Sou muito parvo, disse a si mesmo, e o que era habitualmente verdade não o foi naquele momento em que, pela primeira vez na sua vida, se sentiu muito.

Sentir (muito) - 5

3 01 2007

Sinto-te muito, disse ela, uma e outra e outra vez, mas ele parecia insensível.

Luís Ene

Sentir (muito) - 4

Sinto muito mas nada posso fazer, disse ele, e falava verdade: era um homem sensível mas de escassos recursos.

Sentir (muito) - 3

2 01 2007

Sentia muito, sofria muito, e assim passava a vida, sentindo e sofrendo sempre muito. Um dia decidiu sentir menos, muito menos, e, com o tempo, conseguiu mesmo deixar de sentir. No entanto, verdade seja dita, nunca deixou de sofrer.

Luís Ene

Sentir (muito) - 2

Sentia muito mas dizia pouco. No entanto, o pouco que dizia era quase sempre mais do que o muito que sentia.

Luís Ene

Sentir (muito) - 1

[Para a Cris, com amizade]

Sinto-me muito bem, disse a si próprio, e sentia-se mesmo muito bem, como há muito não lhe acontecia. É que se era verdade que muitas vezes se sentia muito, não era menos verdade que raras vezes se sentia bem.

Luís Ene