[um ano]

23 11 2006

Quem anda à chuva molha-se

Certo dia, quando mestre Atemóia atravessava o pátio do convento, começou a chover a cântaros, mas ele continuou o seu caminho sem alterar o passo. O aluno que o esperava, viu-o chegar e não resistiu a perguntar-lhe:
“Mestre, está todo encharcado, porque não se apressou?”
O mestre olhou-o com um sorriso e respondeu-lhe com uma pergunta:
“Estou todo encharcado, é verdade, e sempre o estaria; achas que ficaria melhor se a isso juntasse irritação e cansaço?”
O aluno olhou o mestre que começara a despir as roupas molhadas, mas nada disse, apressando-se a ajudá-lo.

[…]

24 07 2006

Não se preocupou, nem por um momento, em acertar no alvo, mas fez um tiro perfeito.

Como poderia falhar?

[…]

22 07 2006

O aluno olhou o mestre nos olhos e perguntou-lhe: E depois de me iluminar não voltarei a apagar-me?
O mestre sorriu e respondeu-lhe: Existe o dia e existe a noite, no entanto o sol brilha sempre.
Foi então que o aluno se iluminou.

[…]

9 07 2006

“Mestre, estou determinado a aprender.”
“Ainda bem, porque eu nada te posso ensinar.”

[…]

6 07 2006

“Mestre, e se eu fizer tudo o que me é exigido, o que alcançarei?”
“Se fizeres tudo o que te é exigido”, respondeu o mestre, “terás alcançado tudo aquilo que te foi exigido.”
Foi então que o aluno se iluminou.

[Quantas vezes pensamos no depois quando o durante é tudo o que interessa.]

[…]

19 04 2006

Durante anos e anos dedicou-se por inteiro ao complexo e extenuante treino que o seu mestre lhe prescrevera com um único fim em vista, e só quando alcançou o resultado final é que percebeu afinal que ele era o menos importante. Foi nessa altura que se tornou ele mesmo um mestre.

Mente zen, mente de principiante

27 12 2005

“Tenho a constante sensação que nunca entenderei o Zen, sinto-me sempre um principiante”, disse o estudante a mestre Atemóia e este sorriu-lhe e curvou-se numa vénia. Foi nesse momento que o estudante atingiu a iluminação.

Mestre Atemóia

15 12 2005

[Pode dizer-se que as histórias zen falam do zen ou, melhor ainda, que falam da impossibilidade de dizer o zen. São histórias breves, de uma simplicidade desconcertante, onde a fina ironia e o amor pelo paradoxo estão sempre presentes. Por tudo isto, e também pelos temas que abordam, sempre gostei destas histórias e, depois de as procurar e ler durante muito tempo, comecei a, por assim dizer, mimá-las, escrevendo as minhas próprias histórias zen, o que faço já há alguns anos, aqui e ali. Para o efeito, cheguei mesmo a inventar um mestre zen, com nome de fruta: mestre Atemóia. Acredito que as minhas histórias falem também do zen ou, pelo menos, da minha ignorância sobre o zen. Mas isso nem é o mais importante.]

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Mestre Atemóia vivia há muito afastado do mundo, meditando e cuidando do pequeno jardim situado nas traseiras da sua casa. Nunca saía dali e muito poucos o procuravam. Um estudante que fez o longo caminho até ali só para estar com ele, perguntou-lhe como podia ele viver assim, sem conhecer novas pessoas e novas paisagens, ao que ele lhe respondeu:
“Poucos meses depois de aqui chegar, achei que já conhecia tudo, e quis partir, mas pensei melhor e decidi ficar. Desde então tenho aprendido um pouco mais todos os dias.”
O estudante guiou toda a sua vida por essa resposta.

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A um estudante que se queixava sempre de que nunca obtinha quaisquer resultados com os seus estudos, mestre Atemóia respondeu um dia que ele desistia com facilidade, ao que ele lhe retorquiu, mal contendo a sua raiva:
Só desisto quando não consigo ir mais longe. Apenas isso. Só desisto quando não consigo ir mais longe!
O mestre sorriu e disse-lhe então na sua estranha voz de pássaro:
É isso mesmo o que eu chamo desistir com facilidade.
Foi nesse exacto momento que o estudante atingiu a iluminação.

[Caro leitor, se não percebeu, volte a ler. Tantas vezes quantas forem precisas.]

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Um estudante dirigiu-se um dia a mestre Atemóia e questionou-o:
“Umas vezes o tempo passa demasiado depressa e outras está parado. Isso confunde-me.
O que devo fazer para evitar essa sensação?”
Perante o seu silêncio, repetiu a pergunta, mas ele continuou a não lhe responder. Quando já não esperava uma resposta, mestre Atemóia falou, ao mesmo tempo que se afastava:
“O tempo é apenas o modo como reconhecemos e descrevemos o movimento.”
O aluno ficou tão surpreendido que mais tarde quis reproduzir as suas palavras mas não conseguiu.

[Se esta história lhe pareceu breve, leia-a tantas vezes quantas lhe apetecer.]

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Certa vez mestre Atemóia atravessou o pátio durante a meditação da tarde, e trepou ligeiro até ao topo da árvore mais alta, deixando todos os monges muito agitados e preocupados. Algum tempo depois desceu, e logo muitos lhe perguntaram porque tinha subido à árvore. Ele olhou-os sem pressa e disse: “E de que outra forma poderia eu ter descido?” Ninguém lhe respondeu. Na verdade, metade dos monges ameaçou chegar-lhe a roupa ao pelo, e a outra metade apressou-se a defendê-lo. Quando a confusão terminou e o procuraram para lhe fazer mais perguntas, já ele se tinha ido embora há muito.

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Um dia, quando um estudante entrava pela terceira vez consecutiva a meio da aula de meditação, perturbando a classe, mestre Atemóia interpelou-o com rispidez:
Então isto é que são horas de chegar? Não sabe fazer melhor?
O aluno fitou-o, desafiador, e disse: Desculpe que lhe pergunte, mas perdeu a paciência? É que nunca o vi assim!
Mestre Atemóia devolveu-lhe o olhar e respondeu com exemplar severidade:
Esperei tranquilamente por ti, agora chegaste e eu estou zangado, o que tem isso a ver com a paciência?
Desde essa altura o estudante passou a chegar sempre a horas, ou então não aparecia.

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O que é o amor? - perguntaram a mestre Atemóia, e ele respondeu: O amor é, seja qual for a resposta sobre a sua natureza. [Há respostas que têm de ser vividas.]

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Um aluno perguntou um dia a mestre Atemóia por que todos os mestres sorriam sem parar. Mestre Atemóia sorriu longamente e disse:
E que outra coisa melhor poderíamos fazer?
Foi nesse exacto momento que o estudante atingiu a iluminação.

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A um aluno que perturbava as aulas com questionamentos fúteis e constantes, mestre Atemóia perguntou um dia se já experimentara falar apenas quando tinha alguma coisa para dizer. E quando este respondeu que não compreendia a pergunta, exclamou:
Exactamente o que eu suspeitava.
Durante muito tempo o aluno manteve-se calado, mas a partir desse momento progrediu bastante nos estudos, e veio a tornar-se um dos mestres mais novos de sempre.

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Mestre Atemóia encontrou um dia um amigo que não via há muitos anos e, depois de alguns minutos de conversa, disse-lhe com surpresa:
Estás exactamente na mesma!
Ao que ele respondeu: Isso é bom, não?
Mas mestre Atemóia discordou com veemência: Não, não é bom, é péssimo!
Foi nesse momento que o amigo se iluminou.

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Mestre Atemóia tinha o hábito de responder com perguntas às perguntas dos alunos, o que os deixava sempre irritados. Certo dia, um deles, desesperado por não obter respostas, interpelou mestre Atemóia com rudeza:
Por que nunca dá respostas?
Ao que ele respondeu:
Por que fazes sempre perguntas?
Foi nesse momento que o aluno se iluminou.

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Um estudante perguntou a mestre Atemóia como podia saber com certeza o que queria, e o mestre respondeu-lhe:
— Pergunta a ti próprio e saberás a resposta.
— Mas o que quero eu quando a resposta à mesma pergunta é umas vezes sim e outras não?
— A resposta é só uma, umas vezes queres e outras não. Queres saber mais alguma coisa?
O aluno ficou em silêncio.

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As coisas são como são, disse mestre Atemóia em jeito de conclusão, mas o aluno retorquiu-lhe:
“Talvez as coisas sejam como são, mas a verdade é que a maior parte do tempo interrogo-me porque são e como são, e o restante porque não são de outra maneira. O que tem a dizer a isto?”
Mestre Atemóia sorriu e repetiu pausadamente:
“As coisas são como são.”
Foi nesse momento que o aluno atingiu a iluminação.

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Após mestre Atemóia ter distribuído as tarefas da semana, o aluno a quem coubera ficar à porta do mosteiro abordou-o e perguntou-lhe o que devia fazer, ao que o mestre lhe respondeu que devia ficar à porta. Mas ele retorquiu:
“Mas quem devo deixar entrar?”
“Quem quiser entrar.”
“E quem devo deixar sair?”
“Quem quiser sair.”
“Mas então o que faço?”, insistiu ele.
“Ficas à porta, apenas isso”, respondeu o mestre com um sorriso, “assim todos terão a certeza que há uma entrada e uma saída.”
Foi nesse momento que o aluno atingiu a iluminação.

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Onde devo ir, perguntou um aluno a mestre Atemóia, e este respondeu-lhe: Onde o caminho te levar.
“Mas que caminho devo percorrer?”, perguntou agora o aluno.
“Não interessa que caminho percorras, mas sim como o fazes”, respondeu o mestre.
“E como devo então fazê-lo?”, perguntou ainda o aluno.
“Passo a passo”, disse o mestre.
“Passo a passo?”, repetiu o aluno de imediato, interrompendo o mestre que pareceu não o ouvir e concluiu: “…e que cada passo seja sempre o primeiro.”
Só então o aluno se calou e afastou-se lentamente, passo a passo.

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Mestre Atemóia contava muitas vezes aos seus alunos a história de um mestre há muito desaparecido que atingira sem saber a iluminação. Praticara com dedicação o zazen e, durante muito tempo, sentira ainda orgulho da perfeição obtida, mas depois passara apenas a fazê-lo, nada mais do que isso. Atingira já a iluminação, mas tal era a sua humildade e o sem propósito da sua prática, que nem dera por isso. E dito isto, mestre Atemóia sorria sempre.

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A um aluno que falava constantemente do passado, pediu um dia mestre Atemóia que reacendesse o lume, já fraco, jogando-lhe cinzas.
“Mas”, disse o aluno, “dessa forma acabarei por apagá-lo”. Foi quando se calou que atingiu a iluminação.

Iluminação

7 12 2005

A um aluno que falava constantemente do passado, pediu um dia mestre Atemóia que reacendesse o lume, já fraco, jogando-lhe cinzas.
“Mas”, disse o aluno, “dessa forma acabarei por apagá-lo”. Foi quando se calou que atingiu a iluminação.

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Quando os alunos souberam que um deles atingira a iluminação, logo lhe perguntaram como tinha sido, e ele respondeu que não tinha sido nada de especial, o que de forma alguma os satisfez, pelo que falou novamente:”Não foi nada de especial…”, repetiu, “… mas foi esplêndido”. E todos sorriram.

[…]

5 12 2005

Mestre Atemóia contava muitas vezes aos seus alunos a história de um mestre há muito desparecido que atingira sem saber a iluminação. Praticara com dedicação o zazen e, durante muito tempo, sentira ainda orgulho da perfeição obtida, mas depois passara apenas a fazê-lo, nada mais do que isso. Atingira já a iluminação, mas tal era a sua humildade e o sem propósito da sua prática, que nem dera por isso. E dito isto, mestre Atemóia sorria sempre.

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Era um homem muito especial, pelo menos era essa a opinião dos seus alunos, e muitas vezes lhe diziam isso isso, ao que le dizia invariavelmente:”Especial? Como posso ser especial se sou sempre e apenas eu? Que tem isso de especial?”

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Quando lhe perguntavam como era possível avançar sem ter qualquer objectivo ou meta, o mestre respondia sempre que esse era o caminho mais rápido para chegar a um lugar qualquer. E sorria sem pressas.

Um primeiro passo

4 12 2005

[Pode dizer-se que as histórias zen falam do zen ou, melhor ainda, que falam da impossibilidade de dizer o zen. São histórias breves, de uma simplicidade desconcertante, onde a fina ironia e o amor pelo paradoxo estão sempre presentes. Por tudo isto, e também pelos temas que abordam, sempre gostei destas histórias e, depois de as procurar e ler durante muito tempo, comecei a, por assim dizer, mimá-las, escrevendo as minhas próprias histórias zen, o que faço já há alguns anos, aqui e ali. Para o efeito, inventei mesmo um mestre zen, com nome de fruta: mestre Atemóia. Acredito que as minhas histórias falem também do zen ou, pelo menos, da minha ignorância sobre o zen. Mas isso nem é o mais importante.]

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As coisas são como são, disse mestre Atemóia em jeito de conclusão, mas o aluno retorquiu-lhe:
“Talvez as coisas sejam como são, mas a verdade é que a maior parte do tempo interrogo-me porquê e como são, e o restante porque não são de outra maneira. O que tem a dizer a isto?”
Mestre Atemóia sorriu e repetiu pausadamente:
“As coisas são como são.”
Foi nesse momento que o aluno atingiu a iluminação.

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Após mestre Atemóia ter distribuído as tarefas da semana, o aluno a quem coubera ficar à porta do mosteiro abordou-o e perguntou-lhe o que devia fazer, ao que o mestre lhe respondeu que devia ficar à porta. Mas ele retorquiu:
“Mas quem devo deixar entrar?”
“Quem quiser entrar.”
“E quem devo deixar sair?”
“Quem quiser sair.”
“Mas então o que faço?”, insistiu ele.
“Ficas à porta, apenas isso”, respondeu o mestre com um sorriso, “assim todos terão a certeza que há uma entrada e uma saída.”
Foi nesse momento que o aluno atingiu a iluminação.

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Onde devo ir, perguntou um aluno a mestre Atemóia, e este respondeu-lhe: Onde o caminho te levar.
“Mas que caminho devo percorrer?”, perguntou agora o aluno.
“Não interessa que caminho percorras, mas sim como o fazes”, respondeu o mestre.
“E como devo então fazê-lo?”, perguntou ainda o aluno.
“Passo a passo”, disse o mestre.
“Passo a passo?”, repetiu o aluno de imediato, interrompendo o mestre que pareceu não o ouvir e concluiu: “…e que cada passo seja sempre o primeiro.”
Só então o aluno se calou e afastou-se lentamente, passo a passo.