Dizer
27 06 2006(para o henrique manuel bento fialho)
Isto é tudo o que eu tenho para te dizer, disse ele, e dito isto foi-se embora.
[Podes dizer, ou não dizer, mas se disseres, tenta agir de acordo com aquilo que disseste.]
(para o henrique manuel bento fialho)
Isto é tudo o que eu tenho para te dizer, disse ele, e dito isto foi-se embora.
[Podes dizer, ou não dizer, mas se disseres, tenta agir de acordo com aquilo que disseste.]
Enfático não é um indivíduo que usa fato e gravata, mas sim aquele que faz desse facto uma declaração.
Disparou com a intenção de matá-lo e ele veio a morrer. Não tivessem decorrido vinte anos entre os dois factos e as coisas teriam sido diferentes.
[para o Henrique Fialho e todos os colaboradores e leitores do blog]
Dormia pouco, muito pouco, e sonhava menos, cada vez menos, o que o deixava bastante preocupado. No entanto, com o passar do tempo, aprendeu a sonhar acordado e a quase não dormir, o que o deixou muito, muito mais descansado.
Não tenho mais vontade de viver - assim começava o longo romance auto-biográfico que lhe trouxe finalmente fama e sucesso.

- Assim, de um momento para o outro?
- Assim, de um momento para o outro!
[Exposição de Fotografia e Encontro de Escritores]
Tentou calar-se mas continuou a falar, falava cada vez mais, mas dizia cada vez menos: as palavras tinham deixado de lhe obedecer e agora falavam sozinhas.
[OLHAR IBÉRICO - Exposição de Fotografia e Encontro de Escritores]
A sua escrita, de uma qualidade extraordinária, nunca deixou no entanto de ser um fato feito à sua medida, o que continua ainda hoje a afastar até os leitores mais apaixonados.

[OLHAR IBÉRICO - Exposição de Fotografia e Encontro de Escritores]
Traça para a tua vida regras sumárias, mas que abranjam o fundamental; o retorno a elas bastará para remover todas as aflições e te reenviar sem desgaste para os deveres a que tens de voltar.
Marco Aurélio
1
Começou a traçar para si algumas regras sumárias, e a primeira que lhe ocorreu foi, Não matarás, e repetiu-a, Não matarás, e logo a completou, várias vezes: Não matarás em ti o desejo de viver, Não matarás em ti o desejo de conhecer, Não matarás…
2
Respeitar o outro, pensou, Eis uma regra a que devo sempre obedecer, mas acrescentou à cautela, Desde que tal não signifique perder o respeito por mim mesmo.
3
Começou por traçar para si um breve conjunto de regras sumárias que considerava importante cumprir, mas com o tempo acabou por escrever um extenso código, repleto de regras, que nunca respeitava.
4
Começou a traçar para si um conjunto de regras sumárias, mas acabou por desistir: eram mais as excepções que as regras.
5
Traçou para a sua vida algumas regras sumárias, mas cedo percebeu que a vida não lhes obedecia.
Foi então que o escritor decidiu calar-se, e deixar que as suas palavras falassem por si.
Sempre escrevera o sonho, mas um dia chegou em que o escritor só conseguia escrever quando sonhava que escrevia.
Começou por escrever a realidade, mas um dia desistiu, e tornou-se um dos maiores revolucionários do seu tempo.
O escritor amava, e esse amor era o mais doce de todos os venenos.
1. Não era mentirosa, as suas palavras é que nunca diziam o que ela queria.
2. Tudo o que dizia fazia sentido, não porque ele dissesse tudo o que sentia mas sim porque sentia tudo o que dizia.
Toda a sua vida quis sempre estar em outro lugar. Escusado será dizer que nunca esteve em lugar algum.
Quando escrevia, queixava-se constantemente e achava tudo mal, mas as palavras riam-se muito, e a sua escrita saía afinal bastante divertida.
Primeiro disse o mundo, em seguida disse-se a si mesmo e depois disse o que dissera afinal.
um
Nunca conseguira escrever um poema que fosse sem sobre ele se debruçar profundamente, mas um dia debruçou-se tanto que caiu e nunca mais veio ao de cima.
outro
Saltou com tanto espalhafato das mãos do poeta para as mãos do leitor que este se assustou de morte e nunca afinal o leu.
Irritado, o escritor despiu-a, furiosamente, arrancando-lhe um a um todos os significados, até que dela nada mais ficou a não ser o desenho da sua caligrafia, o som das suas letras reunidas; mas a palavra, apesar de nada mais dizer, mantinha ainda em si todo o seu mistério.
Ainda por cima (como se não fosse suficiente não gostar muito de si mesmo), tudo aquilo que mais gostava em si era aquilo que habitualmente menos gostavam nele.

No meu peito
aberto
os teu mamilos
desconsertados
traçam doces trajectórias
de recusa.
E eu
na minha insatisfação
não podia sentir-me
mais satisfeito.
Um sorriso amarelo encontrou um dia um sorriso azul e os dois sorriram um lindo sorriso verde.
Misturou sumo de tomate com sumo de limão e estranhamente obteve o que parecia ser sumo de laranja.
Estava debruçada a pintar um céu azul, quando começou a deitar sangue do nariz, e as gotas que caíram transformaram-se em violetas.
[bom fim-de-semana]
1
Toda a sua vida tentou mudar o mundo e esqueceu-se afinal de se mudar a si mesmo.
2
Como sempre, recusou-se a aceitar o inevitável, mas depois resignou-se, e morreu feliz.
3
Quando ela o recebeu nos seus braços, ficou branco e rígido. Percebeu então que não se tinha preparado para a morte.
4
Dava sempre voltas e mais voltas, mas depois admirava-se que nunca conseguia ir a direito.
5
Dizia sempre uma coisa e fazia outra. Felizmente tinha uma voz bonita e uma grande capacidade de argumentação.
Quando perceberam o que tinha acontecido, procuraram logo um culpado, e rapidamente o apanharam. Tão rapidamente quando o responsável se pôs a coberto.
1
Os nossos electrodomésticos dão sempre o máximo mesmo quando estão no mínimo.
2
Temos a cama com quem você quererá dormir.
1
Foi sempre ele próprio mas, quando tal se mostrou necessário, mudou a sua forma de ser, obviamente sem nunca deixar de ser ele próprio.
2
Aprendeu com o mestre a apreciar o silêncio e fez dele o motor da sua aprendizagem. Só muito mais tarde percebeu afinal que ele era surdo e mudo. Foi nesse momento que se iluminou.
3
Não tenho mais nada para aprender, disse ele, e morreu imediatamente. Pelos vistos não sabia que a morte está em todo o lado e nunca perde uma boa deixa.
4
Ele não acreditava que podia ser feliz. Nunca o foi, nem mesmo quando lhe aconteceu ser.
5
Ele não acreditava no amor, mas isso não o impediu de amar, deu-lhe foi sempre outro nome.
6
Há muito tempo que as coisas lhe corriam mal e, porque mais que tentasse, não conseguia compreender a razão, até que um dia percebeu afinal que não havia qualquer razão para isso, e as coisas começaram a correr-lhe muito melhor.
Estava quase a desistir quando percebeu que a solução estava dentro de si mesma. Virou-se então do avesso e começou de novo.
Quando a bela mulher lhe perguntou se queria ir com ela, não hesitou, e só quando se viu às portas da Morte percebeu afinal.
Só quando o caminho em que seguia desapareceu misteriosamente à sua frente é que ele percebeu afinal que estava no caminho errado, e isso colocou-o de novo no caminho certo.
João queria em tudo ser igual ao seu ídolo; imitava-o nas poses, na maneira de vestir e no mais que ia sabendo dele pelas revistas. Lia os mesmos livros, via os mesmos filmes, repetia-lhe as frases e os gostos. Tinha também uma banda e cantava na perfeição todas as canções dele. Um dia encontraram-se, o grande ídolo e o seu maior fã, e foi óbvio para todos que o aluno tinha superado o mestre. [A imitação pode ser um caminho para a excelência.]
Tinha uma tão grande determinação e uma tal capacidade de luta que, chegada a hora exacta da sua morte, ainda viveu mais uns bons quinze minutos.
Tinha de decidir, mas a intuição dizia-lhe uma coisa e a razão outra. Felizmente, sabia escutar-se a si próprio, e foi isso que fez.
1
[Para o Juraan Vink]
O importante na vida são os pensamentos e não os acontecimentos, disse rapidamente a si mesmo, enquanto caía, e morreu feliz, com um enorme sorriso estampado no rosto.
2
Foi no momento mais difícil e doloroso da sua vida que descobriu que ainda assim se podia sentir bem consigo mesmo. A partir daí as coisas começaram a correr-lhe muito melhor.
Uma história que vale sempre a pena contar de novo é a da mulher e do canibal que se apaixonaram. Ele comeu-a, pouco a pouco, a seu pedido, até que dela ficaram apenas os olhos, fitando-o com amor.
Estavam perdidamente apaixonados mas eram pessoas extremamente ocupadas, a saltar constantemente de cidade em cidade e de país em país, em constantes reuniões. Verdade seja dita, eram também pessoas bastante determinadas e organizadas; harmonizaram as agendas, planearam tudo ao pormenor e não podia correr melhor: amaram-se nos intervalos das reuniões, nos terminais dos aeroportos, viajaram juntos de mãos dadas em intermináveis voos e foram muito, muito felizes.

[e continuando o dicionário]
Coragem
Viu a morte à sua frente… e voltou-lhe as costas. Tivesse-a enfrentado e talvez ainda estivesse vivo hoje.
Verdade
Um dia, certo homem chegou mais cedo a casa, o que nunca antes acontecera, e as consequências imprevistas, os efeitos colaterais e os problemas que daí resultaram, não sendo aqueles que estão a pensar, são, no entanto, impossíveis de enumerar, pelo que, a bem da verdade, não se fará qualquer tentativa nesse sentido e se termina de imediato este relato. [Só as verdades que não são ditas se mantêm verdadeiras.]
Lembrava-se tão bem de tudo que até se lembrava do que nunca acontecera.
Não uses duas palavras se uma for suficiente, disse ele, mas logo emendou, se uma bastar.
Tinha uma voz arrastada e monocórdica, e só conseguia dizer as palavras se as cantasse, mas, como todos os grandes homens, soube transformar o seu maior defeito na sua maior qualidade: inventou uma nova e maravilhosa forma de canto. Chamava-se Gregório.
Ela disse-lhe, Sou filha de um ponto e de uma vírgula, e ele olhou-a, sem nada dizer, todo reticências.
Falavam a mesma língua mas ele via tudo plúmbeo e ela tudo cerúleo. Escusado será dizer que foi necessário um esforço hercúleo.
Pensava que era quinta-feira mas descobriu que era já o dia seguinte, dia que o seu horóscopo declarava favorável ao romance. Não perdeu nem mais um minuto. Sentou-se ao computador e começou um magnífico romance que completou durante o fim-de-semana.
Foi a mulher mais corajosa que já conheci, disse ele, tinha imensos medos: uma extravagância só permitida às pessoas mais corajosas.
Foi em vida uma flor completamente feliz; sei que assim foi porque ainda há pouco me sorriu, apesar de ter fenecido há muito entre as páginas de um livro.
Talvez já tenha escrito isto alguma vez, inquietava-se ele de cada vez que escrevia algo novo; e talvez fosse essa inquietação que conseguia transmitir à sua escrita e dava brilho a tudo o que escrevia.
(para a Margarida)
Evitava, com árdua tenacidade, viver os seus sonhos. E era assim que conseguia mantê-los vivos.
(para a Gisela)
Pernas para que te quero, disse ele, e lá foi, ligeiro, com uma perna às costas. E se para lá foi num pé, para cá veio noutro.
Estou tão farta de meias palavras, disse ela, num tom de desafio, mas ele continuou calado. Sabia muito bem que era a ele que ela se referia. Ah iss é q ra!
Para perder de uma vez por todos os quilos a mais foi a uma nutricionista que fazia milagres. A partir daí, de cada vez que tentava comer pão, ele diminuía até desaparecer, e de cada vez que tentava beber vinho, ele transformava-se em água.