(20) das perguntas e outras respostas

25 02 2007

I

“Porque nunca me perguntas nada?”, disse-lhe ela, e ele perguntou a si mesmo por que seria.

II

“Porque nunca me perguntas nada?”, disse-lhe ela, e ele pensou que o problema não estava nas perguntas mas nas respostas.

III

“Porque nunca me perguntas nada?”, disse-lhe ela, e ele olhou-a, interrogativamente.

fotografia daqui

Luís Ene

(19) da cor e outras ilusões

I

“De que cor é o mar?”, perguntou-lhe ela, e ele fechou os olhos para ver melhor.

II

“De que cor é o mar?”, perguntou-lhe ela, e ele olhou-a à procura de uma resposta.

III

“De que cor é o mar?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu-lhe que era da cor do seu olhar.

Luís Ene

(18) do silêncio e outros diálogos

24 02 2007

I

“Porque estás tão calado?”, perguntou-lhe ela, e ele foi todo ouvidos.

II

“Porque estás tão calado?”, perguntou-lhe ela, e ele abriu-se num sorriso caloroso.

III

“Porque estás tão calado?”, perguntou-lhe ela, e ele pensou em responder-lhe com uma pergunta.

fotografia daqui

Luís Ene

(17) da retórica e outros monólogos

23 02 2007

I

“Tens alguma coisa a dizer-me?”, perguntou-lhe ela, e ele soube que as perguntas ainda mal tinham começado.

II

“Tens alguma coisa a dizer-me?”, perguntou-lhe ela, e ele ficou à espera do que ela tinha para lhe dizer.

III

“Tens alguma coisa a dizer-me?”, perguntou-lhe ela, e ele disse a si mesmo que só lhe restava negar tudo com veemência.

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Luís Ene

(16) do querer viver e outras mortes

I

“O que queres da vida?”, perguntou-lhe ela, e ele disse a si mesmo que lhe bastava estar vivo.

II

“O que queres da vida?”, perguntou-lhe ela, e ele sentiu de imediato a presença da morte.

III

“O que queres da vida?”, perguntou-lhe ela, e ele teve vontade de lhe apertar o pescoço.

Luís Ene

(15) da dúvida e outras certezas

22 02 2007

I

“O que queres dizer com isso?”, perguntou-lhe ela, e ele arrependeu-se imediatamente de o ter dito.

II

“O que queres dizer com isso?”, perguntou-lhe ela, e ele disse a si mesmo que o melhor era não acrescentar coisa alguma.

III

“O que queres dizer com isso?”, perguntou-lhe ela, e ele apressou-se a dizer-lhe que não era nada do que ela estava a pensar.

imagem daqui

Luís Ene

(14) da felicidade e outras formas de estar

21 02 2007

I

“És feliz?”, perguntou-lhe ela, e ele pensou nisso pela primeira vez há muito tempo.

II

“És feliz?”, perguntou-lhe ela, e ele sentiu a dúvida a instalar-se nele.

III

“És feliz?”, perguntou-lhe ela, e ele amaldiçoou-a por isso.

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Luís Ene

(13) da verdade e outras mentiras

20 02 2007

I

“Estás a dizer-me a verdade?”, perguntou ela, e ele respondeu para si mesmo que sim, claro, que coisa, estava a dizer a sua verdade.

II

“Estás a dizer-me a verdade?”, perguntou ela, e ele começou a duvidar de si mesmo.

III

“Estás a dizer-me a verdade?”, perguntou ela, e ele mentiu-lhe mais uma vez.

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Luís Ene

(12) do sexo e outros contratempos

19 02 2007

I

“Quanto tempo consegues aguentar sem sexo?”, perguntou-lhe ela, e ele calou bem fundo um sentido “Ainda mais?”.

II

“Quanto tempo consegues aguentar sem sexo?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu com um cauteloso “depende”.

III

“Quanto tempo consegues aguentar sem sexo?”, perguntou-lhe ela, e ele disse-lhe com um sorriso que atingira o seu limite.

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Luís Ene

(11) do olhar e outras interrogações

16 02 2007

I

“Por que me olhas tão intensamente?”, perguntou ela, e ele mergulhou ainda mais dentro de si mesmo.

II

“Por que me olhas tão intensamente?”, perguntou ela, e ele olhou-a como se ela mesma fosse a pergunta.

III

“Por que me olhas tão intensamente?”, perguntou ela, e ele despertou finalmente do seu sonhar acordado.

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Luís Ene

(10) da escrita e outras iluminações

15 02 2007

I

“O que é escrever?”, perguntou-lhe ela, e ele olhou-a intensamente até que ela se viu reflectida no seu olhar.

II

“O que é escrever?”, perguntou-lhe ela, e ele agarrou numa caneta e escreveu a pergunta na palma da mão esquerda.

III

“O que é escrever?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu que era isso mesmo, e não disse mais nada.

Luís Ene

(9) do ser e outros pequenos nadas

14 02 2007

I

“Porquê o ser e não o nada?”, perguntou-lhe ela, e ele sentiu em si um profundo abalo metafísico mas fez como se nada fosse.

II

“Porquê o ser e não o nada?”, perguntou-lhe ela, e ele percebeu que nunca antes tinha sentido em si tanta vontade de ser.

III

“Porquê o ser e não o nada?”, perguntou-lhe ela, e ele repetiu a pergunta para si mesmo, breves instantes antes de deixar finalmente de ser.

Luís Ene

Fotografia daqui

(8) da desconfiança e outras crenças

13 02 2007

I

“Por que nunca acreditas em mim?”, perguntou-lhe ela, e ele nem queria acreditar no que ouvia.

II

“Por que nunca acreditas em mim?”, perguntou-lhe ela, e ele olhou-a nos olhos, ainda com mais desconfiança do que era habitual.

III

“Por que nunca acreditas em mim?”, perguntou-lhe ela, e ele acreditou nela pela primeira vez.

Luís Ene

(7) da vontade de agradar e outras formas de surdez

12 02 2007

I

“Por que te esforças tanto?”, perguntou-lhe ela, mas ele nem a ouviu, tão concentrado estava a tentar agradar-lhe.

II

“Por que te esforças tanto?”, perguntou-lhe ela, e ele ficou a pensar no exacto sentido da pergunta.

III

“Por que te esforças tanto?”, perguntou-lhe ela, e durante várias horas ele fez o possível e o impossível para lhe explicar a razão.

Luís Ene

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(6) do esquecimento e outras formas de recordar

11 02 2007

I

“Quem sou eu?”, perguntou-lhe ela, e ele lembrou-se do tempo em que tinha uma resposta simples para essa pergunta.

II

“Quem sou eu?”, perguntou-lhe ela, e só então ele percebeu que não sabia a resposta.

III

“Quem sou eu?”, perguntou-lhe ela, ele olhou-a como se a visse pela primeira vez. Só assim lhe poderia verdadeiramente responder.

Luís Ene

(5) da traição e outras necessidades incontornáveis

I

“É verdade que me trais?”, perguntou-lhe ela, e ele disse a si mesmo que sim, sim, sim, bem podia ficar à espera de uma resposta.

II

“É verdade que me trais?”, perguntou-lhe ela, e ele calou-se, mas ficou a pensar que até não era uma má idéia.

III

“É verdade que me trais?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu que não, sem hesitações, sem mesmo pensar. Se havia uma coisa que nunca faria era trair-se a si mesmo.

Luís Ene

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(4) dos desejos mais profundos e outras possibilidades

10 02 2007

I

“Qual é o teu desejo mais profundo?”, perguntou-lhe ela, e ele ficou a pensar se ela tornaria o seu desejo realidade caso ele lhe dissesse qual era.

II

“Qual é o teu desejo mais profundo?”, perguntou-lhe ela, e ele nada disse: o desejo devia ser profundo e todo ele era superficialidade.

III

“Qual é o teu desejo mais profundo?”, perguntou-lhe ela, e ele caiu em si à procura de uma resposta e nunca mais voltou.

Luís Ene

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(3) da morte e outros males menores

9 02 2007

I

“É melhor estar vivo ou estar morto?”, perguntou-lhe ela, e ele nem hesitou: disse-lhe que preferia estar morto. Acho que foi isso que lhe salvou a vida.

II

“É melhor estar vivo ou estar morto?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu que preferia estar vivo. Viveu ainda muitos e muitos anos, tantos que várias foram as vezes que implorou pela morte.

III

“É melhor estar vivo ou estar morto?”, perguntou-lhe ela, mas ele nem tentou responder. Havia muito que estava completamente morto.

Luís Ene

(2) da abstinência sexual e outras mentiras

8 02 2007

I

“Serias capaz de prescindir de sexo por amor?”, perguntou-lhe ela, e ele ergueu sobressaltado o olhar dos seus generosos seios e pediu-lhe para repetir a pergunta.

II

“Serias capaz de prescindir de sexo por amor?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu para si mesmo que sim, sim, sim, mal podia esperar para levá-la para a cama.

III

“Serias capaz de prescindir de sexo por amor?”, perguntou-lhe ela , e ele respondeu que sim, claro, sem dúvida, o que não faria por amor. Estava há muito habituado a mentir por sexo.

[O título é o mesmo que sugeri há dias a um amigo para um blog que pretendia criar. Se vier a criá-lo desde já lhe ofereço este texto.]

Luís Ene

a fotografia veio daqui

(1) da literatura e do amor

6 02 2007

I

“Por que me amas?”, perguntou-lhe ela, e ele não só não lhe respondeu como fez tudo para esquecer a pergunta. Tinha bastante medo de, caso um dia soubesse a resposta, deixar de a amar.

II

“Por que me amas?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu-lhe sem hesitar: Porque desconheço a razão! Foi nesse exacto momento que ela começou a amá-lo.

III

“Por que me amas?”, perguntou-lhe ela, e ele começou a falar-lhe com entusiasmo do último livro que lera. Então ela sorriu de felicidade, pois, tal como ele, também ela não sabia por que o amava.

[Por que amamos? Amamos para que o amor aconteça!]

Luís Ene