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22 05 2006Foi só quando percebeu que não podia viver sem amor que começou a escrever romances cor-de-rosa.

Foi só quando percebeu que não podia viver sem amor que começou a escrever romances cor-de-rosa.

[OLHAR IBÉRICO - Exposição de Fotografia e Encontro de Escritores]
1- A morte tocou-o em palco, no meio de um concerto, e não lhe deu “encore”.
2 - Mataram-no a murro, como às batatas. É o que acontece a quem se mete em assados.
3 - Foi um crime gratuito, os assassinos nunca chegaram a ser pagos.
4 - Encostou-lhe uma arma de fogo ao peito e incendiou-lhe o coração.
5 - Felizmente para ele, detestava a morte e o sentimento era recíproco. Só o veio buscar quando não tinha já outra hipótese.
Má consciência
Um dia resolveu meter a mão na consciência e esta arrancou-lhe o braço.
Falta de consciência
Acusavam-no de não ter consciência, mas ele era apenas surdo à sua voz.
Inconsciência
Só quando a morte chegou, percebeu afinal que não a devia ter convidado.
1
O melhor amigo do cabelo é a mão.
2
Os olhos vêem tudo, menos a si mesmos.
3
Os óculos são o ocaso do rosto: põem-se.
4
As orelhas só se conhecem (uma à outra) de ouvido.
5
A boca e o nariz têm a mania que são singulares.
6
Os lábios estão apaixonados, beijam-se a todo o momento.
7
O rosto é muito conservador, o nariz sempre por cima e a boca sempre por baixo.
8
A barba e o cabelo escondem mais do que revelam.
9
A boca é o porta-voz do rosto.
10
As pálpebras são os polícias dos olhos.
Em toda a certeza existe pelo menos uma dúvida, e o contrário também é verdadeiro. Não admira assim que tenhamos tantas dificuldades em distingui-las.
“Quem sou eu e qual é o meu lugar?”, perguntou, e a resposta não tardou: “Diga-me quem é e dir-lhe-ei qual é o seu lugar”. Mas ele não sabia quem era. E foi-se embora. Não havia ali lugar para ele.
Estavam os dois em casa, sós, a ceia na mesa e os presentes debaixo da árvore. Tinham passado a noite a beber e estavam já um pouco embriagados. Palavras que começaram por ser gracejos passaram rapidamente a insultos. E das palavras passaram aos actos. Mais tarde arrependeram-se os dois. No entanto a notícia no jornal disse apenas que um jovem de dezanove anos agrediu o pai com um ferro na cabeça na noite de Natal.
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Projectos: o nome que costumamos dar às mudanças adiadas.
Dizes mais quando te calas, disse-lhe ela, e ele sorriu e permaneceu em silêncio.
Só quem fala com o coração nas mãos corre o risco que ele lhe caia aos pés.
Leu a ementa com deleite e depois comeu-a, lentamente, até que dela nada restasse: era tão sugestiva e tão deliciosamente descritiva que não conseguiu resistir. A seguir, pediu a conta e saiu. O empregado de mesa nunca chegou a trazer-lhe a carta de vinhos.

Sinto a tua falta, disse a si mesmo, e por um momento sentiu-se triste; mas logo sorriu: era-lhe tão doce a sua recordação.
Sentia que era sempre o mesmo, mas há muito sabia que era sempre um outro que se esquecia de quem fora.
∞
És a minha realidade, disse-lhe ele, mas também poderia ter dito que ela era o seu sonho.
∞
Ela disse-lhe tudo do pior, sempre com um sorriso, e quando se despediu dele para sempre passou-lhe a mão pelo cabelo num gesto pleno de carinho. Ainda hoje ele não sabe o que lhe custou mais, se as suas palavras duras ou a sua leveza.
Começou por guardar um dia da semana só para si. Depois começou a passar férias sózinha. Finalmente, chegou mesmo a ter alguns namorados de ocasião. Mas só muito mais tarde pensou em divorciar-se.
1
Um beijo é apenas um beijo, diz a canção, e ele concordava, tanto mais que acreditava que as coisas são como são. Mas talvez por essa razão, aquele beijo que fora apenas um beijo, era para ele mais do que qualquer outro, um beijo que lhe aflorava ainda os lábios, de vez em quando, de quando em vez.
2
Um dia viu uma pequena nuvem solitária num magnífico céu azul. Já esqueceu aquele céu mas ainda se lembra muitas vezes da pequena nuvem.
3.
Lembra-se ainda dos momentos em que desejou morrer, mas lembra-se muito melhor dos momentos em que decidiu continuar a viver.
No dia que ele se foi embora, de um momento para o outro, ela julgou morrer de amor e quase enlouqueceu. Mas no dia seguinte, quase sem dar por isso, recuperou a razão: aconteceu no exacto momento em que percebeu que aquele amor estava morto e enterrado.
Estava a caminho mas ainda se interrogava se iria ou não, e de tal forma se distraiu a pensar o que devia fazer que o carro galgou a berma e capotou. Apesar do aparato do acidente ele ficou bem, tão bem, que se decidiu de vez: deixou tudo para trás e seguiu caminho.
“Não, não estou indeciso”, disse-lhe ele quando ela insistiu que decidisse, “não quero é pensar nisso”.
Quando ele lhe perguntou por que não o amava mais, ela respondeu:Tens um pequeno ponto no nariz. Mas sempre o tive, admirou-se ele. É verdade, concordou ela, mas eu só agora o vi.
1
Um dia chegou em que disse a si mesmo que lhe faltava tudo o que o dinheiro não podia comprar, e sentiu-se muito, muito infeliz; mas ninguém deu por isso, e todos continuaram a vê-lo como um homem feliz que tinha tudo o que o dinheiro podia comprar.
2
Um dia chegou em que se desfez do muito que tinha e ficou sem nada. Há muito tempo que não se sentia tão feliz, e os seus herdeiros também: declararam-no de imediato incapaz, anularam todas as transacções e ficaram finalmente na posse de todos os seus bens.
A fé cura, disse ele, tenham fé. Tenham fé em vocês mesmos.
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Ele matara, mais de uma vez, mas arrependeu-se, e arrependeu-se de tal forma que, quando o executaram, mataram afinal um outro homem.
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Poderemos estar juntos sempre que quisermos, disse-lhe ela quando se despediam, mas ele respondeu: Como será isso possível? Se quisermos sempre estar juntos então deveríamos está-lo, ou não o queremos, ambos e ao mesmo tempo, e raramente o estaremos, ou mesmo nunca. Ela sorriu, e repetiu: Poderemos estar juntos sempre que quisermos.
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Para cada amante tinha um telemóvel exclusivo, sempre em silêncio, para que nenhum deles fosse esquecido, para que nenhum a incomodasse.
Ignora-me, disse ela, e ele ignorou-a tanto e com tanta intensidade que se ignorou até a si mesmo.
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Ao longo dos anos estudou sem descanso, enchendo-se cada vez mais de saber. Mas só quando percebeu que se podia esvaziar de tudo e continuar a ser ele mesmo, é que se tornou verdadeiramente sábio.
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Estava tão farto de estar constipado que não sabia já se havia ainda de assoar-se ou apenas assuar o nariz.
Não tenho nada de especial, disse ela, e ele concordou, era exactamente por isso que a achava tão especial.
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O pior dos vícios, disse o mestre, é querer ser virtuoso, porque não há nada pior do que querermos ser quem não somos. Preferia ser um bandido a querer ser um santo.
Vivia dia a dia como se fosse o primeiro, como se fosse o último. Sabia que isso não o faria viver para sempre, mas sabia também que assim estaria sempre mais vivo.
Ela desprezava-o mas ele amava-a. Ela continuou a desprezá-lo e ele continuou a amá-la. Ela ainda o despreza mas ele já não a ama mais: faz hoje um ano que morreu.
“O que é então o ser?”, perguntou o professor após a sua longa exposição, e logo concluiu: ” O ser é o que é e o que pode ser!” E depois saiu da sala, pé ante pé, fechando a porta com muito cuidado não fossem os alunos acordar.
Sonhou que a sua ex-mulher voltara para o seu ex-marido. Só então percebeu que se tinha completado mais um ciclo na sua vida. Tinha-se finalmente libertado dela.
Toda a sua vida encarou o tempo como um contratempo: viveu vertiginosamente e morreu ainda mais depressa.
Muitos ainda hoje acreditam que ele nunca disse coisa com coisa, mas a verdade é que ele disse sempre uma coisa para dizer o seu contrário. Era um hábito que tinha, dizia sempre a verdade a mentir.
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Afirmou sempre uma coisa e o seu contrário. Acreditava que essa era a única forma de estar mais perto da verdade das coisas.
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Toda a sua vida se procurou, com método e afinco, e nunca afinal percebeu que era apenas aquele que se procurava.
A tempo
Quando o questionaram sobre o tempo, respondeu: Não vou gastar o meu tempo a pensar no tempo, não tenho tempo para isso! Mas a verdade é que ainda hoje está a tempo, a tempo de mudar de opinião. Estamos todos. Sempre.
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Avó Raposa
“Quando eu era ainda uma raposinha como vocês fiz muitos disparates: bebi que nem um odre, dormi com quem me apeteceu e nunca, mas nunca, tinha tempo para nada. Foi minha avó que me disse que assim fizesse, e tinha toda a razão, aprendi bem a minha lição”, disse a raposa, e calou-se. Os netos abriram muito os olhos mas ficaram em silêncio, sabiam-na matreira e velhaca. Ela, por seu lado, parecia alheada, os dentes cerrados. Só um pequeno lampejo nos seus olhos baços denunciava o riso contido.
Um dia extaordinário
Teria sido um dia normal, igual a tantos outros, não fosse ter experimentado pela primeira vez uma intensa consciência dessa normalidade, poucos minutos antes de adormecer.
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Seguir o coração
Toda a sua vida fora o que se convencionou designar um homem de razão, até que, de um momento para o outro, resolveu mudar e passar a escutar o coração. Arrancou-o então do peito, e, com o coração nas mãos, seguiu-o sempre até ao fim dos seus dias.
Dona Raposa estava velha e muitos aproveitavam agora para dizer que ela era porca, cabra e até vaca. Mas só nas suas costas, que ela ria-se muito quando sabia de tais coisas, e dizia, para quem quisesse ouvir, que talvez fosse tudo isso e muito mais, mas também era ainda raposa, muito raposa. E todos acreditavam e tinham muito cuidado, não fossem cair nalguma das suas esparrelas.
[O respeitinho é muito bonito.]
Quis dizer alguma coisa, mas a sua boca encheu-se de tal forma de palavras que durante muito tempo não foi capaz de dizer coisa alguma. E quando finalmente conseguiu esvaziá-la, percebeu que já nada tinha para dizer.
Depois da separação, dormir na enorme cama de casal tornou-se-lhe tão insuportável que a trocou por uma de corpo e meio, mas, com o passar do tempo, rendeu-se à evidência e comprou finalmente uma cama de pessoa só.
“Come-me”, sussurrou ele.
“Saboreia-me”, suspirou ela.
E durante muito tempo se banquetearam.
Aquela mulher via em cada homem todos os homens. Por isso é que os homens lhe eram todos iguais.
“És a mulher da minha vida”, disse-lhe várias vezes, e depois matou-se, ali mesmo, de uma vez só.
Tal como os gatos, temos várias vidas, só que nem todos as vivemos, talvez porque para viver uma nova vida é absolutamente necessário matar a anterior.
Quem diz que uma imagem vale mais que mil palavras esquece quantas imagens uma só palavra pode despertar.
“Porque raio escreveria se a minha obra não dissesse mais do que eu?”, perguntou o escritor aos que ali tinham acorrido para o ouvir.
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Desconhecia as palavras que ela necessitava, mas ainda que as soubesse, a verdade é que ela sempre teria de as dizer a si mesma, e isso é que é o mais difícil.
Às vezes tenho a sensação que o mistério do mundo está prestes a revelar-se-me. Mas depois não acontece nada. O mundo não tem mistério. As coisas são as coisas. Elas apenas existem. Existem para mim.
“Estás apaixonada por mim?”, perguntou-lhe ele.
“Estou apaixonada pela vida”, respondeu-lhe ela, com um sorriso, que ele devolveu de imediato: Pensava exactamente o mesmo.
O melhor da vida, dizia um amigo meu, é que pode ser vivida. Nunca percebi muito bem o que ele queria dizer com isso, mas sempre pensei exactamente o mesmo.
Quando dizia que alguém ia morrer esse alguém morria. Era um dom que tinha, acertava sempre, e trabalho não lhe faltava. Era o assassino mais bem pago do mercado.
Às vezes dizemos mais quando nos calamos, pensou, e esteve quase a dizê-lo, mas calou-se.
Quando foi atropelado, numa rua estreita do centro histórico, trazia consigo toda a sua obra, três livros num saco de plástico. Só a obra sobreviveu.
Mais de vinte de anos depois, completamente por acaso, dois amigos reencontram-se e, surpreendentemente, ambos dizem de si a mesma coisa: sou um nada. Só que um o diz com um sorriso e o outro num soluço mal contido.
Faltam-me as palavras para dizer o que sinto, afirmou ele, e só então se calou, após se ter expressado com clareza.
As palavras mentem, dizia com frequência, e muitos acreditavam; mas a verdade é que ele era um mentiroso incorrigível.
Acho que estou apaixonado, disse ele, e embora ela tivesse percebido claramente que era por ela que ele se pensava apaixonado, essa omissão pesou-lhe tanto quanto ele não ter tido apenas que a amava.
1
Procurou-se durante muito tempo, depois desistiu, por fim inventou-se.
2
Um escritor autêntico, talento à parte, é, na verdade, aquele que não consegue deixar de sê-lo.