Palavras contadas

9 05 2006

27

Acordou pela segunda vez com um beijo seu e de novo se surpreendeu: há muito que não tinha notícias dela, mas os seus beijos continuavam a chegar.

16

Por um momento sentiu-se feliz, completamente feliz, e depois disso nunca mais se sentiu completamente infeliz.

11

Quando as vogais tocavam nas consoantes toda a frase se agitava.

5

A morte hesitava, ele vivia.

[…]

23 04 2006

Deu pérolas aos porcos mas eles nem lhes tocaram, queriam diamantes.

[…]

20 04 2006

Disse muitas vezes a si mesmo que devia desaparecer, e um dia desapareceu mesmo, assim, sem mais nem menos, mas não por acaso. A moral desta história é por demais óbvia, mas deixem-me mesmo assim dizê-la: é preciso ter muito cuidado com o que dizemos aos outros, mas ainda mais com o que dizemos a nós mesmos.

metáforas sortidas e “private jokes” diversas

12 04 2006

[Para o Henrique Fialho, para o Fernando Santos e para o Eduardo Pitta]

Durante uma acalorada discussão afirmou, mais uma vez, a supremacia da forma sobre o conteúdo e, instado a prová-lo, procedeu da seguinte maneira: primeiro, contou uma história extraordinária de uma forma banal, aborrecendo-os de morte; depois, contou uma história vulgar de uma forma extraordinária, prendendo-os com o fio da narrativa.

Um dia descobriu em si a possibilidade de transformar-se em diversas formas todas elas malignas. Tinha-se tornado num polimorfo perverso.

Quando ela disse, quase a medo, que gostava dele só um bocadinho, ele não podia ter ficado mais contente. Lembrou-se imediatamente da criação do universo.

Era um homem que em tudo levava uma vida vulgar. Os dias sucediam-se, uns atrás dos outros, sem qualquer espanto ou sobressalto, e ele aceitava-os assim, sem qualquer espanto ou sobressalto, confundindo-se completamente com eles. Era um homem que em tudo levava uma vida vulgar, e era afinal isto que fazia dele um homem excepcional.

Durante horas acariciou a bela metáfora, depois, não aguentou mais e deu-lhe uma valente foda.

Caminhava apressado quando tropeçou e caiu, estatelado no chão, mas levantou-se num salto e seguiu o seu caminho como se nada tivesse acontecido. No entanto, todo o dia se sentiu em baixo, o mesmo tendo acontecido nos dias seguintes e ainda durante muito mais tempo.

Estar apaixonado é brincar com a possibilidade do amor, disse ele, e ela levou-o a sério: abandonou-o nesse mesmo instante. E algum tempo passou até que voltou para ele.

Escrevia como respirava:

7 04 2006

sempre.
naturalmente.
profundamente.
com o nariz no ar.
em todas as posições.
enchendo-se e esvaziando-se.
umas vezes melhor e outras pior.
sem precisar de qualquer diploma.
como se disso dependesse a sua vida.
só se queixava quando em dificuldades.

vista

1. Nunca olhava uma mulher duas vezes. Acreditava no amor à primeira vista.

2. Era uma mulher que dava nas vistas. Por onde passava deixava olhos negros.

3. À vista desarmada, disse ele tirando os óculos, as coisas parecem estar bem.

4. Ele fez vista grossa mas todos se convenceram que tinha vista curta.

5. Está tudo à vista, disse ele desviando o olhar.

1.. 2… 3…

9 03 2006

[Assim…]

O tempo parecia não passar por ele, mas a verdade é que vivia sempre à frente do seu tempo.

[assim…]

Todos se admiravam por parecer sempre jovem; esqueciam-se que vivia sempre à frente do seu tempo.

[ou assim.]

Viveu sempre à frente do seu tempo, razão porque se manteve sempre jovem.

Aqui-agora

8 03 2006

Partiu um dia de um lugar onde não estivera, para chegar, finalmente, a um lugar onde nunca estava. E muitas vezes voltou a partir.

[…]

(para a Ana)

Acordou, com a estranha sensação que o chão lhe fugira debaixo dos pés durante a noite, e saiu da cama a voar.

[…]

7 03 2006

Uma mulher decidiu fechar o seu coração ao amor, e tão bem o fez que ao amor não lhe restou outra solução a não ser arrombar-lhe o coração. Felizmente para ela, fê-lo com mestria e ligeireza, tanta mestria e ligeireza que muito tempo passou até ela perceber que o amor vivia de novo em si.

—>

Quando percebeu que ela já não lhe podia tocar, decidiu tatuar no braço esquerdo um coração com o seu nome, para nunca mais esquecer até que ponto o amor pode ser uma tirania.

—>

Cruzaram-se por um só instante, ia o Amor a sair e o Ódio a entrar, ou talvez fosse ao contrário, que quando estes dois estão juntos é impossível distingui-los.

Conselhos

3 03 2006

Um: Pensem bem antes de resolver um problema: um problema que é ultrapassado faz sempre aparecer outros problemas.

Outro: Para terem uma nova vista sobre qualquer assunto ou questão basta mudarem de ponto.

[…]

31 01 2006

Quando parecia que nada mais podia fazer, virou-se do avesso e começou tudo de novo.

[É o fim, disse ele…]

30 01 2006

É o fim, disse ele, mas já ninguém o ouviu.

—>

É o fim, disse ele, e tudo voltou ao princípio.

—>

É o fim, disse ele, mas na verdade era apenas o princípio do fim.

—>

É o fim, disse ele, e foi mesmo a última coisa que disse.

—>

É o fim, disse ele, e tinha razão, morreu ali mesmo.

—>

É o fim, disse ele, mas não estava sozinho e teve de continuar.

—>

É o fim, disse ele, mas infelizmente era apenas o intervalo.

—>

É o fim, disse ele, e morreu exactamente sobre a meta.

—>

É o fim, disse ele, e ela concordou.

—>

É o fim, disse ele, e não foi preciso repetir.

[…]

[…]

Tudo nele era mentira e essa era a sua verdade.

[Sinais]

29 01 2006

Quando procuramos sinais até a sua ausência nos parece um.

—>

Ele bem sabia que quando começava a ver sinais em todo o lado era sinal que não estava bem.

Auto-conhecimento

Perdeu-se muito cedo de si e toda a sua vida se procurou.

—>

No momento em que finalmente julgou compreender-se era afinal já outro.

—>

Conhecia-se tão bem que chegava a surpreender-se.

A lei

28 01 2006

A única lei que cumpria de boa vontade era a lei do menor esforço.

—>

Violou muitas vezes a lei, mas só no dia em que a justiça o conseguiu apanhar é que teve verdadeiramente pena.

—>

Era um criminoso tão empedernido que nem às leis da natureza obedecia.

—>

Era um homem muito sofisticado. Talvez por isso considerasse que nenhuma lei é natural.

—>

Foi um homem inflexível que toda a sua vida respeitou uma única lei: não existem leis que não se possam quebrar, não existem leis que não se possam vergar.

—>

É a lei, explicaram-lhe quando o condenaram, mas nem assim ele se sentiu culpado.

Cansaço

27 01 2006

Estava tão cansada que adormeceu. Não tivesse sido ao volante e esta história teria um final feliz.

—>

Sentia-se tão cansada que já nem tinha forças para desistir, e foi assim que chegou ao fim.

—>

Trabalhava demasiado e tinha péssima saúde, mas a sua verdadeira fraqueza era de ordem moral.

—>

Não fazia absolutamente nada. Os amigos diziam que já nascera cansado; ele garantia que trabalhara muito para isso.

—>

Era o homem mais cansativo que se pode imaginar: nunca se cansava.

—>

Estava tão cansada que já trocava os pés pelas mãos, e o pior foi quando quis cumprimentar um cliente e lhe deu um pontapé no peito.

Fábula moderna

25 01 2006

Atirou-se a ela como gato a bofe, mas a verdade é que nem ele era gato, nem ela bofe, nem esta história tem qualquer moral.

[sintéticos e analíticos]

Estava em casa, pegou num livro ao acaso e leu-o como se não o lesse. Foi então que percebeu finalmente que vivia como se não vivesse.

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No momento em que, mais uma vez, foi visitado por uma intensa sensação de irrealidade, garantiu de novo a si mesmo que tudo o que se manifesta é real.

—>

Estava quase adormecido quando uma pequeníssima impressão agitou todo o seu ser. Mas quando tentou analisá-la logo ela desapareceu debaixo das palavras.

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Sentia-se sempre tão triste que quase tudo o fazia feliz.

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Tudo o que escreveu foi sobre pequenos nadas, esses pequenos nadas que são tudo.

—>

Certo escritor desenvolveu ao longo dos anos uma técnica sofisticada que lhe permitiu escrever sempre com toda a naturalidade.

[histórias de amor]

24 01 2006

Ele sabia melhor do que ninguém que o amor é magia, a mais perfeita das ilusões.

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O amor é sempre uma interrogação, disse ele a si mesmo, mas a verdade é que sabia a resposta.

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Amou uma vez, de verdade, as outras foram apenas imitações.

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O teu amor assusta-me, disse-lhe ela, e esse foi o primeiro desgosto que lhe deu.

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O teu amor enternece-me, disse-lhe ele, e foi nesse momento que soube que já não a amava.

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Sabia que fizera figura de parvo mais uma vez, mas não se importou. Era suficientemente esperto para isso.

À grama

19 01 2006

[Casamento]

Eles não eram perfeitos, nem nunca o seriam, estavam certos disso, mas tinham a esperança que chegariam um dia a ser perfeitos um para o outro.

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[Sequência]

Estava mal e sentia-se mal. Depois sentiu-se melhor. Finalmente morreu.

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[Surdez]

Sabia apenas que o seu pai era um barão. Foi a mãe que lhe disse, antes de morrer, quando ele lhe perguntou mais uma vez quem era o seu pai: “O teu pai era um cabrão”.

[…]

17 01 2006

De repente fez-se luz e ele ficou às escuras. Ainda hoje não sabe o que aconteceu.

[Evidência]

16 01 2006

Durante o acto sexual mantinha sempre os olhos abertos. Acreditava que essa era a melhor maneira de conhecer o outro. E isso mostrava muito dele.

[Indecência]

O dia em que chegou à conclusão que sempre pagara por sexo foi aquele em que se decidiu pela castidade.

[Constância]

15 01 2006

Apaixonou-se pela obra e casou com o autor. Anos depois ainda continuava apaixonada pela obra mas há muito se divorciara do autor.

[Incongruência]

14 01 2006

A maior parte do tempo não fazia a mínima ideia do que estava a fazer. Talvez fosse por isso que parecia sempre tão seguro de si.

[Coerência]

12 01 2006

Sempre admirou e respeitou a mudança, a mesma admiração e respeito que sentia por aqueles que eram capazes de mudar, ainda que para pior.