[Para o Henrique Fialho, para o Fernando Santos e para o Eduardo Pitta]
Durante uma acalorada discussão afirmou, mais uma vez, a supremacia da forma sobre o conteúdo e, instado a prová-lo, procedeu da seguinte maneira: primeiro, contou uma história extraordinária de uma forma banal, aborrecendo-os de morte; depois, contou uma história vulgar de uma forma extraordinária, prendendo-os com o fio da narrativa.
Um dia descobriu em si a possibilidade de transformar-se em diversas formas todas elas malignas. Tinha-se tornado num polimorfo perverso.

Quando ela disse, quase a medo, que gostava dele só um bocadinho, ele não podia ter ficado mais contente. Lembrou-se imediatamente da criação do universo.
Era um homem que em tudo levava uma vida vulgar. Os dias sucediam-se, uns atrás dos outros, sem qualquer espanto ou sobressalto, e ele aceitava-os assim, sem qualquer espanto ou sobressalto, confundindo-se completamente com eles. Era um homem que em tudo levava uma vida vulgar, e era afinal isto que fazia dele um homem excepcional.

Durante horas acariciou a bela metáfora, depois, não aguentou mais e deu-lhe uma valente foda.
Caminhava apressado quando tropeçou e caiu, estatelado no chão, mas levantou-se num salto e seguiu o seu caminho como se nada tivesse acontecido. No entanto, todo o dia se sentiu em baixo, o mesmo tendo acontecido nos dias seguintes e ainda durante muito mais tempo.

Estar apaixonado é brincar com a possibilidade do amor, disse ele, e ela levou-o a sério: abandonou-o nesse mesmo instante. E algum tempo passou até que voltou para ele.