“Art is not self-expression, it’s comunication.”
Raymond Carver
Quando leio um texto, um qualquer texto, parto do princípio que alguém o escreveu. Que tem um autor. Da mesma forma, quando escrevo um texto, um qualquer texto, parto do princípio que alguém o lerá ou, pelo menos, de que alguém o poderá ler. E na verdade sempre alguém o lerá, pelo menos eu, que sou sem dúvida o primeiro leitor dos meus textos.
Por este motivo, quando alguém me diz que escreve para si mesmo, como muitas vezes me dizem, fico a pensar que mesmo assim não deixam de escrever para um leitor, ainda que seja apenas o leitor que são. Assim, se eu disser que se escreve sempre para ser lido, não me parece que esteja muito longe da verdade.
E quando alguém me pergunta se sou capaz de guardar um segredo, antecipando assim que quer contar-me alguma coisa, respondo sempre que a melhor maneira de guardar um segredo é não o contar. Da mesma forma, quem não quiser ser lido o melhor que tem a fazer é não escrever. São conhecidos os casos de autores que não conseguiram impedir que alguns dos seus textos fossem publicados, ainda que o tenham proibido expressamente. E isto recorda-me a questão da relação entre o texto e o seu autor.
É comum ouvir um autor dizer que certo texto é seu, ou um leitor afirmar que um texto é de determinado autor, mas talvez fosse melhor dizer que Fulano (ou Beltrano) escreveu determinado texto ou que este teria sido escrito por ele. A verdade é que posso ler um texto sem saber quem é o seu autor, e nem por isso ele deixará de fazer algum sentido para mim. Ao ler um texto o leitor constrói um sentido ou conclui pela falta dele, e isto será ainda atribuir-lhe um sentido.
Claro que quando se diz que um texto é de alguém está desde logo em causa o direito de propriedade sobre esse texto, mas isso é o que menos me interessa quando penso na relação do autor com o texto. Questões como o que pode dizer o autor do seu texto interessam-me muito mais. Como por exemplo qual o valor que deve ser atribuído ao que o autor diz sobre os textos que escreveu.
O autor pode pronunciar-se sobre o que quis dizer com determinado texto, afirmando dessa forma o que o texto diz. Mas o leitor também o pode fazer, qualquer leitor o pode fazer. Ou será que o leitor sabe melhor do que ninguém o que o diz o texto? O autor tem, na minha opinião, um duplo conhecimento do texto, conhece-o como autor, como a pessoa que o escreveu, e também como leitor, quando o lê. E se no segundo caso ele se confunde com um qualquer leitor, já no primeiro o que ele sabe está fora do texto e só ele o pode revelar.
A escrita é sem dúvida um dos temas sobre os quais escrevo. Um tema fundamental. A reflexão sobre o que é escrever, porque se escreve e para quem se escreve surge com frequência no que escrevo. E o relacionamento, por assim dizer, entre mim e o que escrevo é também algo que sempre me intriga.
Há não muito tempo, li num blog uma citação de A Justa Medida mas só quando vi a origem do texto o aceitei como meu. Mas ainda que o tenha escrito ele não deixa de aparecer apenas com um texto, em que me reconheço, é verdade, mas também é verdade que me reconheço em muitos textos que não escrevi. Fica sempre neste confronto uma vaga sensação de estranheza.
De um romance não publicado que dou a ler a uma amiga, regressa uma frase, quanto a ela uma frase que resume o romance, e com a qual me acontece o mesmo que com a citação que acima referi. Escrevi essa frase?, pensei, e não o fui confirmar, mas aceitei-a como minha. Para mim, como leitor, que diferença faz ter sido ou não escrita por mim?
“Perde-se muito tempo a pensar quem somos quando o que somos se limita a acontecer.”
Ainda me leio nesta frase, mas podia até acontecer que não, e não deixaria de ter sido eu que a escrevi. Como esta que se segue, escrita por uma personagem de A Justa Medida e que o narrador dá conta num romance que eu mesmo escrevi.
“É difícil iniciar, assim como é difícil continuar. No entanto, a primeira acção, onde tudo começa, parece desencadear as seguintes, como se tudo estivesse já determinado a acontecer, ou tivesse já ocorrido, como quando se lê um romance. Mas onde tudo começa e acaba, é bem mais difícil de determinar na vida do que nas páginas de um livro; este separa-se do autor, que a ele não regressa, e não se deixa possuir pelo leitor, que apenas o atravessa: é uma ponte que não une duas pessoas mas apenas marca o antes e o depois, da escrita e da leitura. Os factos e acontecimentos assinalam sempre um antes e um depois. Atravessamos a vida à medida que dela nos separamos.”
Costumo dizer que, se o que escrevo dissesse apenas o que eu quero dizer, não valeria a pena escrever. Não escrevo tanto para me revelar, mas muito mais para me descobrir. Por isso mesmo gosto quando leio, ou lêem, nos textos que escrevo muito mais do que quis dizer. É claro que muitas vezes digo o que pretendia dizer, o que estava a querer dizer, ou pelo menos assim o acho, mas a verdade é que o texto, uma vez escrito, existe sem mim ou, dito de outra forma, o que de mim existe já está lá. Depois, tudo é leitura. Por estas e por outras é que existe um limite para a revisão do texto pelo autor, uma altura em que este se tem de separar dele entregá-lo ao leitor.
Nunca o autor conseguirá controlar por completo o que escreveu, nem é conveniente que o faça. Quem escreve um texto não tem nunca o controlo total do que escreve, nem é conveniente que o tenha. Sobretudo quando se trata, como aqui, de um texto literário. Por outro lado, o autor é também um leitor do que escreve. Ele é o primeiro a ler o que escreve, o que escreveu. A ler e a reler. E a corrigir. E a voltar a corrigir. O texto que, uma vez entregue de vez ao leitor, deixa de lhe pertencer ou, para quem goste de paradoxos como eu, pertence-lhe ainda e já não lhe pertence.
Quando o autor corrige um dos seus textos, talvez se pudesse perguntar se o faz ainda como autor ou já como leitor. A verdade é que o autor dá vida ao texto e o leitor devolve-o à vida. E se não estou a ser congruente, saibam que é porque não pretendo sê-lo. Amo a incongruência muito mais do que amo a congruência. A primeira diz-me muito mais do que a segunda.
Nesta altura recordo-me da minha formação jurídica, de como gostava das questões ligadas à interpretação das leis, e que talvez tal assunto venha a propósito. A interpretação de uma lei, dizia-se, deve sempre respeitar a letra da lei mas, ao mesmo tempo, não se ficar por ela. Mais ou menos isto, ou como diria o povo, a interpretação de um texto deve ser feita nem tanto ao mar nem tanto à terra.
Talvez nestas questões se possa apenas afirmar que, de uma forma ou de outra, todos eles (o texto, o autor e o leitor) têm algo a dizer e todos devem ser escutados. E assim, desta forma abrupta, eu, o autor, dou por terminada a escrita deste texto e deixo-o ao leitor e à leitura.