ironia e literatura

7 02 2007

Formigas

Não precisei de ler São Paulo, Santo Agostinho,
São Jerônimo, nem Tomás de Aquino, nem São
Francisco de Assis —
Para chegar a Deus.
Formigas me mostraram Ele.

(Eu tenho doutorado em formigas)

Manoel de Barros (Ensaios Fotográficos)

[A ironia é talvez a qualidade que mais admiro num escritor. Não a ironia amarga que muitos derramam sobre os outros e a vida, mas a ironia compassiva que descobre as nossas próprias fraquezas nos outros ou, o que talvez seja a mesma coisa, as fraquezas dos outros em nós mesmos.]

outro poema de Manoel de Barros

Dois livros, duas escritoras, uma só interrogação (5)

5 02 2007

Rodrigo S. M. vai contar-nos a história de uma pobre moça nordestina, mas vai não só contá-la como também interrogar-se sobre o que o leva a contá-la e como o poderá fazer. Questiona-se assim, ainda antes de começar a contar a história, sobre por que escreve, como escreve e o que é escrever. Perguntas para as quais talvez não existam respostas definitivas ou talvez existam apenas perguntas. É assim que ele mesmo pergunta (ou será a escritora Clarice Lispector?) e responde:
Por que escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz o conteúdo. Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo de “força maior”, como se diz nos requerimentos oficiais, por “força de lei”.

E se pergunta e responde por que escreve também pergunta e responde como escreve:
Verifico que escrevo de ouvido assim como aprendi inglês e francês.

E, seja como for, diz-nos enfaticamente Rodrigo S. M. (ou será Clarice Lispector?):
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.

(a continuar)

Dois livros, duas escritoras, uma só interrogação (4)

2 02 2007

Talvez os actos mais essenciais, mais verdadeiros, sejam, todos eles, paradoxais, irredutíveis a uma qualquer expressão, a não ser através de uma disciplina indisciplinada, um amor apaixonado, como a literatura é: esse escrever de nós mesmos através dos outros que em nós existem, esse ir de nós mesmos que torna possível voltarmos a nós. É a própria Lygia Fagundes Telles, a terminar o livro, ou talvez já depois, que nos diz algo semelhante, na sua linguagem quase água:
Inventei datas que fui deixando cair por estas páginas assim ao acaso e agora não sei quais são as inventadas e quais são as reais.
Debruço-me sobre algumas para examiná-las de perto e a proximidade as torna singularmente mais distantes.

(a continuar)

Dois livros, duas escritoras, uma só interrogação (3)

A Disciplina do Amor ora aparece designado por ensaios ora por fragmentos, o que sublinha a estranheza deste livro e a dificuldade em classificá-lo. Nele, Lygia Fagundes Telles escreve-se e multiplica-se num conjunto de fragmentos aparentemente em desordem mas que no conjunto parecem seguir uma linha clara, uma disciplina, a do amor à escrita, à literatura. E é assim que os fragmentos, ora apenas datados ora apenas titulados, são soltos na página e se organizam na obediência a esse amor, a essa disciplina, que é o próprio acto de escrever e de escrever-se. São pequenos contos, crónicas, confissões, apontamentos pessoais, memórias, talvez fragmentos de romances, que dizem da escritora e do seu amor pleno pela vida e pela literatura, afinal talvez o mesmo amor, disciplinado pelo acto de escrever. É a própria escritora que, já o livro vai a mais de meio, responde a uma das dúvidas que este livro levanta: “E eles têm alguma ligação entre si?” – perguntou-me A M. Respondi-lhe que são fragmentos do real e do imaginário aparentemente independentes mas sei que há um sentimento comum costurando uns aos outros no tecido das raízes. Eu sou essa linha.

(a continuar)

Dois livros, duas escritoras, uma só interrogação (2)

1 02 2007

No seu último romance (ou será novela?), A hora da estrela, concluído pouco antes de morrer, em 1977, Clarice Lispector conta-nos a história de uma moça simplória ou, melhor, conta-nos a história de um escritor que nos conta a história de uma moça simplória. A história, diz-nos Rodrigo S. M. o escritor ele mesmo, “vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes, é claro.” História que ele é capaz de contar, que ele tem de contar, porque pegou, numa rua do Rio de Janeiro, “no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma nordestina.” E é assim, contando a história de um escritor que conta uma história, que Clarice Lispector nos interroga afinal sobre o que é escrever, por que se escreve, como se escreve e para quem se escreve.

(a continuar)

Dois livros, duas escritoras, uma só interrogação (1)

31 01 2007

Leio dois livros. Um a seguir ao outro. Livros escritos por mulheres. Brasileiras. Livros singulares. Em si. No conjunto da obra de cada uma delas. Leio e, terminada a leitura, sinto a necessidade de reler, de os reler. (Cada vez sinto mais esta necessidade. Reler. Demorar-me nos pormenores, numa frase, num fragmento.)

Leio dois livros. Livros, cada um à sua maneira, compostos de fragmentos; livros que podem ser abertos ao acaso e lidos assim mesmo. Também livros sobre a arte de escrever. Sobre o mistério que é escrever. Esse fio sobre o qual caminhamos, sobre o qual escrevemos, e que é a existência mesma do escritor.

Mas o melhor é reler, relê-los, e disso deixar aqui breve notícia.

(a continuar)

O fim…

29 12 2006


Porque o fim (do ano) está próximo, aqui fica, de novo, para vocês.

[É o fim, disse ele…]

É o fim, disse ele, mas já ninguém o ouviu.
—>
É o fim, disse ele, e tudo voltou ao princípio.
—>
É o fim, disse ele, mas na verdade era apenas o princípio do fim.
—>
É o fim, disse ele, e foi mesmo a última coisa que disse.
—>
É o fim, disse ele, e tinha razão, morreu ali mesmo.
—>
É o fim, disse ele, mas não estava sozinho e teve de continuar.
—>
É o fim, disse ele, mas infelizmente era apenas o intervalo.
—>
É o fim, disse ele, e morreu exactamente sobre a meta.
—>
É o fim, disse ele, e ela concordou.
—>
É o fim, disse ele, e não foi preciso repetir.

[…]

E quando parecia que nada mais podia fazer, virou-se do avesso e começou tudo de novo.

Luís Ene

[É o fim…]

É o fim, disse ele, instantes antes de iniciar a vida eterna.
—>
É o fim, disse ele, antes de descobrir que o livro tinha mais dois volumes.
—>
É o fim, disse ele, mas tinha-se esquecido de comprar a arma.
—>
É o fim, disse ele, o fim-fim-fim-lan-lan-lan-dê-dês.
—>
É o fim, disse ele, após ter criado o homem ao sexto dia.

Fernando Gomes

THE END

O primeiro, que era um pessimista, disse: Isto é o princípio do fim!
O segundo, que era um optimista, respondeu: Não, é apenas o fim do princípio.
O terceiro, que tinha andado a ler um livro de estórias zen, concluiu: Seja lá o que for, vamos mas é jantar!

João Ventura

Bom virar de página

Leite com chocolate, literatura e patriotismo

19 12 2006

A publicidade sempre exerceu sobre mim um enorme fascínio, não tanto pelo uso exuberante da imagem, mas muito mais pelo uso criterioso da palavra, criando belas e contidas frases, meio aforismos meio palavras de ordem, carregadas de poesia e de saber. E depois chegam à maior parte das pessoas, com enorme facilidade. Não é este o sonho de qualquer escritor?

Mas a brevidade tem perigos, que se situam normalmente nos limites da ambiguidade e do engano. Porque é ao leitor que cabe a última palavra, a ambiguidade, inevitável no texto curto, deixa-lhe vários caminhos, e pode assim conduzi-lo com facilidade ao engano, considerando-se engano levá-lo irresistivelmente numa direcção contrária ao que se queria dizer.

Confesso que a palavra ambiguidade me cria sempre alguns problemas. Mesmo sabendo que não é assim, ligo sempre ambiguidade a falta de clareza, talvez porque muitos parecem assim pensar, quando se pode ser ambíguo e claro, ou melhor, se deve ser tanto mais claro no que se diz quanto mais ambíguo se pretende ser. Porque ser ambíguo é deixar em aberto vários sentidos, não apontar apenas para um sentido, e com isso não quer dizer que se deixem em aberto todos os sentidos. Ser ambíguo não autoriza ser vazio, não autoriza complicar ao infinito o sentido do que se escreve tornando a leitura uma decifração do que não está escrito. Mas estou a afastar-me, divagando sobre algo de quero falar e ainda nem anunciei.

A Ucal, no que penso ser a sua última campanha, diz que Ucal é… Portugal, o que à partida acreditarão ser positivo, reforçando a imagem do produto e o seu consumo. Essa frase breve desperta sem dúvida em quem lê uma série de pensamentos e de emoções. Pelo menos foi o que me aconteceu quando vi a garrafa de leite com chocolate, decorada com palhinhas da cor da bandeira portuguesa e encimada pela referida frase. A Ucal é portuguesa, o leite com chocolate é produzido em Portugal, com trabalhadores portugueses, se o beber ajudo Portugal. Foi isto que pensei, que senti, e por aí adiante, mas por pouco tempo, por muito pouco tempo, porque logo pensei… a Ucal é uma merda? Sim, será o leite com chocolate da Ucal uma merda, uma grande merda? Foi isto que pensei e senti, e por momentos ponderei mesmo se o havia de voltar a beber!

Brinco, é verdade, mas falo também a sério, ou se quiserem, brinco, como é meu hábito, com coisas sérias. Mas vejamos. Então não é referido com frequência que os portugueses acham que Portugal é um país de merda, uma grande merda? Verdade ou mentira, consequência ou não de uma baixa auto-estima indesejável, o certo é quando se diz Portugal é de prever que muitas o leiam e sintam negativamente. Portugal igual a grande merda, logo, se Ucal é Portugal, Ucal é uma grande merda!

Voltando à ambiguidade e aos seus limites, julgo não se dever fugir ao óbvio quando este ajude a delimitar o sentido da frase e daquilo que se pretende transmitir. Assim, se o leite com chocolate da Ucal é bom, por que não dizê-lo, esclarecendo a frase inicial e reforçando os sentidos possíveis.

Ucal é… Portugal. Ucal é… bom!

E assim se eliminaria o sentido de que o Ucal é uma merda e se reforçaria o sentido que Portugal é bom, tornando inequívoco que o Ucal é bom também. E depois são apenas seis palavras.

Termino dizendo, a bem da verdade, que Ucal é… Parmalat , desde os anos noventa, mas essa é outra história, que não vem para aqui ao caso.

Luís Ene

8 09 2006

2 ensaios

26 08 2006

Um conto, por mais breve que seja, é ainda um conto; uma micro-narrativa, ainda que tão breve quanto o conto mais breve, é outra coisa. A sua característica mais singular consiste, sem dúvida, no seu magnífico ímpeto para a hibridez e para o polimorfismo. Curiosamente, percebo agora que a característica apresentada torna quase impossível qualquer definição, o que era afinal o meu propósito inicial. Assim, fico por aqui. Quem quiser e souber que continue.

Começou por escrever um epigrama que mais parecia um aforismo; depois, arriscou uma parábola e saiu uma anedota; finalmente, num último e desesperado esforço, tentou um mini-conto e conseguiu, conseguiu um excelente poema em prosa.

[o desenho é de Luís Nunes Alberto]

25 07 2006

O que eu penso da literatura

23 07 2006

Venho na auto-estrada em direcção ao Algarve quando tenho a sensação que o carro está parado e é a paisagem que passa por ele. Detenho-me nessa ideia, exploro as várias possibilidades, mas sei que estou a avançar em direcção ao Algarve a cento e trinta quilómetros à hora e devo ali chegar dentro de aproximadamente uma hora. Volto a pensar, “E se o carro estivesse parado?”, e sinto que assim é, e digo a mim mesmo, “E que diferença faz se não for assim?”, e continuo.

É exactamente o que penso da literatura.

Ser capaz

23 04 2006
1

Tu és capaz, disse a voz sem corpo na escuridão, e ele acordou
sobressaltado
acendeu a luz da mesa-de-cabeceira, e ficou a olhar em volta, como se esperasse encontrar de repente o autor da voz que mais uma vez lhe falara no seu sono. Mas sabia muito bem que só quando dormia ouvia aquela voz que lhe dizia que era capaz. Capaz de quê? Era capaz de poucas coisas, e todas elas lhe pareciam inúteis. Como por exemplo contar histórias. Era capaz de contar histórias e escrevê-las, mas de que lhe servia isso?

2

Tu és capaz, disse a voz sem corpo na escuridão, e ele virou-se, sobressaltado, na direcção da voz, mas não viu ninguém. Estava escuro, é verdade, mas se ali estivesse alguém ele devia ver um vulto, um lampejo de algo. Forçou a vista o mais que pôde, e acordou
de olhos muito abertos
no pequeno quarto atulhado de livros. A luz da mesa-de-cabeceira estava acesa. Apagou-a, voltou-se sobre o coração e adormeceu.

3

Tu és capaz, disse a voz sem corpo na escuridão, e ele abriu os olhos e
não via nada
não ouvia nada, mas sentia como que uma aragem que lhe despenteava de leve os cabelos, e seguindo essa sensação ouviu de novo a voz que lhe dizia agora, Confia em ti, só precisas confiar em ti. E então, de repente, viu à sua frente uma porta fechada, e tentou caminhar para ela mas não conseguia mover-se. Disse então a si mesmo, nem chegou a perceber porquê, Eu sou capaz, e não só conseguiu finalmente dar um passo, como a porta se abriu à sua frente.

4

Acordou, estava de volta ao quarto, era de dia, a luz entrava pela janela. A porta estava aberta e ele admirou-se. Costumava sempre fechá-la. Levantou-se, foi até à porta e fechou-a. Nesse exacto momento ouviu uma voz que parecia vir do outro lado.
Tu és capaz
E sobressaltou-se, a mão ainda no puxador da porta. Abriu-a de repente, mas não estava ninguém. Percorreu a casa vazia, demorou-se na casa de banho, e voltou para o quarto. Ainda era cedo, deitou-se outra vez e adormeceu.

5

A porta à sua frente parecia abrir-se para a noite. Por mais que olhasse não via nada. Parou à beira daquele vazio, fechou os olhos e apurou o ouvido. Não sem surpresa, uma voz cresceu nesse nada e disse
Eu sou capaz
E ele avançou, de olhos fechados, com a sensação de se precipitar no vazio. Avançou dois ou três passos, cuidadosamente, e abriu os olhos. Estava no corredor, em frente à porta da casa de banho. À sua direita estava a sala. Voltou-se e entrou no quarto, fechou a porta, correu as persianas, e deitou-se outra vez. Ainda era cedo, precisava de descansar.

6

Tu és capaz, disse a si mesmo, e tentou
mais uma vez
adormecer.

Uma história de amor

20 04 2006

Ele disse sem a olhar:
Amar é ver mais longe.

E ela disse quase num grito:
Mas eu estou aqui!

Então ele olhou-a
e, para espanto seu,
percebeu afinal que
já não a conseguia ver.

Nada mais via que o amor
que em si mesmo sentia.

Não poema

15 04 2006

Não percebo
por que insistem
os poetas
em dizer
o que não pode
ser dito

O que não pode
ser dito
não pode
simplesmente
ser dito

Melhor seria
que desistissem
de uma vez
por todas

Talvez assim
ouvissem
finalmente
o que nunca
conseguirão
dizer

[…]

16 03 2006

(para a Heloísa)

Umas vezes diz-se o que se fala, outras fala-se o que se esconde. Umas vezes revela-se e outras vezes cala-se não se sabe bem o quê. E é esse não sei o quê que se sempre diz e se cala. Escrevo e sou publicado, e admirado, há mais de vinte anos, e tudo o que escrevi foi esse não sei quê que sempre disse e calei. Escrevo de ouvido, sempre assim o escrevi, e algumas vezes cheguei a dizê-lo, mas ninguém me acreditou. Não escrevo com especial esforço, não escrevo e reescrevo como se a minha vida dependesse disso. Não faço, nunca fiz, qualquer pesquisa ou de outra forma preparei a escrita dos meus romances. Limitei-me a escrevê-los. Da mesma maneira que desconheço o que escrevo, como escrevo e por que escrevo, a não ser que os meus romances são o não sei quê que escuto. Escrevo o que escuto, escuto-me ou escuto alguma coisa. Escuto. Escrevo. Tal e qual como não preciso conhecer ou controlar os processos orgânicos do meu corpo para estar vivo, para viver. É assim que escrevo, e reescrevo, ouvindo, tentando ouvir, escutando, tentando escutar o melhor possível. É assim que tenho escrito o não sei o quê que sempre escrevo. Sei que ninguém vai acreditar no que digo mas pouco me importa. Da mesma forma que escrevi os romances que todos admiram e respeitam, escrevo agora este breve apontamento que, após a minha morte, será encontrado lido e ignorado, como o não sei o quê que esconde e revela.

[texto encontrado após a morte do escritor em cima da sua secretária e que se presume fazer parte de um conjunto de notas para o romance que se encontrava a preparar.]

[…]

9 03 2006

(para o Afonso)

Isto é um jogo, Um verdadeiro jogo, Devias escrever algo sobre isto, foi o que ele me disse então, e eu quase concordei, mas nem por um segundo pensei em escrever o que quer que fosse sobre o que ele tinha para me dizer, enquanto ele me ia repetindo a mesma afirmação, como se essa simples repetição fosse capaz de me convencer, É um jogo, Um verdadeiro jogo, Dava um conto, Talvez até uma novela, e eu estive quase a responder-lhe que só escrevo ficção, nunca poderia escrever sobre aquilo, pelo menos não da forma como ele o via e me estava a tentar contar, seria sempre outra coisa, e melhor seria então que ele próprio o escrevesse, mas, por esta altura, já não o ouvia, via-lhe o rosto tenso, sentia-lhe a perturbação, e começava a sentir em mim mesmo uma estranha vontade de concordar com ele, ou apenas de ouvir a sua história, nem sei, e dei por mim a pensar que seria até um bom título se não houvesse já um romance, de um italiano, com esse mesmo nome, Devias escrever algo sobre isto, disse a mim mesmo ou foi ele que o repetiu, já nem sei e nem então o soube, Isto é um jogo, sim, estou completamente de acordo, podia ter acrescentado, escrever é um jogo, mas sou eu que fixo as regras, sou eu que jogo e sou eu que decido se vou jogar, escrever é um jogo solitário que jogo por mim e pelos outros e, agora que estou a escrever, a repetir o que então ele me disse e o que então eu pensei, fico na dúvida se não me estou a enganar, se não estou afinal a escrever sobre o que ele me pediu para escrever, porque a excitação, a hesitação, a angústia que nele então li, eram aquilo que ele tinha para me contar, ou nada mais eram do que aquilo sobre que eu poderia escrever, porque a verdade é que eu não escrevo sobre os factos mas sobre o efeito que esses factos exercem, sobre a forma como eles são vistos e sentidos, e não como eles são, Isto é um jogo, Um verdadeiro jogo, Devias escrever sobre isto, isto escrevi eu, e continuei a escrever, não sei bem sobre quê, talvez tenha afinal escrito sobre aquilo que ele me disse, ainda que em nada se pareça, a não ser, talvez, na mesma excitação, hesitação e angústia com que me escrevi.

micro ensaios

26 02 2006

1 Eu, começou a personagem, mas foi o autor que, como sempre, acabou a frase.

2 Toda uma vida pode ser dita em poucas palavras, exactamente da mesma forma que nunca há palavras que cheguem para descrever um único minuto de vida.

3 Contar uma história é resolver os problemas que de outra forma ficariam para sempre sem solução.

4 Escrever é dar sentido à vida.

Escrever-me

22 01 2006

“Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus. É preferível para a alma humana fazer maus versos, a não fazer nenhum. O exercício da arte poética é sempre um esforço de superação e, assim, o refinamento do estilo acaba trazendo a melhoria da alma”.

Mário Quintana

Escrevi em tempos que o autor se escreve para que o leitor se leia, e, muito mais do que uma resposta, esta frase encerra várias questões para as quais continuo sem solução. Referia-me, é claro, ao que é importante escrever e ao que é importante ler.

O autor escreve-se porque escreve a partir da sua experiência mas também porque nesta tarefa se escreve a si mesmo, como que se constrói ou reconstrói pela escrita. Nesta medida talvez se possa dizer que o escritor se escreve para se ler. Assim, para além da óbvia interpretação literal, que o escritor escreve para ler o que escreve, também se poderá dizer que ele escreve para se iluminar, para se ver com maior clareza.

E se a reflexão sobre a escrita é um dos meus temas ou, como preferiria Raymond Carver, uma das minhas obsessões, talvez a explicação mais fácil para isso seja a de que nunca consigo obter respostas satisfatórias nesta matéria, não me restando outra opção a não ser continuar a interrogar-me. Assim, não se admire o leitor que este texto que agora escrevo levante mais perguntas do que dê respostas.

Há dias, num programa de televisão, um homem dizia que a escrita, de poemas, lhe tinha permitido crescer, o tinha feito aceitar-se cada vez mais como pessoa e assim aceitar, ou apenas ver, a vida tal e qual ela é. Mais ou menos isto. E ouvi então um dos seus poemas, e percebi perfeitamente que era assim como ele dizia. Era assim para ele, e é assim para mim.

Lembro-me apenas do título do poema e do princípio e do fim que o repetia, mas ainda sinto que esse poema falava desse homem e do seu mundo ou, o que talvez seja o mesmo, da forma como ele via esse mundo. E esse homem estava preso, e muitos anos tinham de passar até que fosse devolvido à liberdade. Mas o poema dizia que ele estava pronto. Pelo menos eu assim o senti. Aquele poema era a sua carta de alforria. Mas não seria assim que as coisas se passariam. No entanto não sei se isso realmente importa.

Podemos mudar-nos, mais difícil será mudar o mundo. Mas isso talvez não seja muito importante.

Há cerca de seis meses comecei a escrever poemas. Não estava a pensar falar sobre isso neste texto, mas a verdade é que agora não o posso evitar, concentrando-me sobretudo no segundo aspecto do referido escrever-se. E digo poemas, que escrevo poemas, embora me interrogue ainda se são poemas o que escrevo. Mas isso pouco importa.

Sei muito pouco de literatura e, ainda que por esta altura ache que sei um pouco sobre ficção e narrativa, sobretudo por experiência própria, já quanto à poesia não posso dizer o mesmo. Escrevo poemas, ou aquilo a que chamo poemas, há pouco mais de seis meses, como já disse, e não sinto que tal me confira grande autoridade. Mas também não me sinto impedido de falar sobre isso, antes pelo contrário.

Um dos meus primeiros poemas, se não o primeiro, voltei a lê-lo há poucos dias, mas agora estranhamente traduzido para espanhol, e soou-me melhor assim. Pelo menos foi o que disse a mim mesmo.

Conjugación del todo

Me gusta la sensación que experimento
cuando las cosas parecen encajar.
No como las piezas de un puzzle, nada de eso,
sino de una forma bien diferente, como el mar en la arena,
una brisa en el verano, mis ojos en los tuyos.

No sé si el mundo tiene sentido en los raros instantes
en el que siento que las cosas encajan,
pero sé que dejo todo lo que estoy haciendo,
y me quedo allí, ajeno, tranquilo, absorto,
todo yo sorprendido y deslumbrado.

Y pasa mucho tiempo hasta que me despierto

Mas uma coisa eu sei, os poemas que escrevo permitem-me algo diferente do que a ficção me permite. Com a sua escrita tenho-me escrito, de uma forma que a narrativa nunca me havia possibilitado, ainda que nela também sempre me tenha escrito.

A diferença talvez possa ser melhor compreendida se apelar à ideia de interioridade e de exterioridade. Os poemas que escrevo falam muito mais da minha interioridade. Na ficção projecto-me no exterior. Nos poemas, por assim dizer, a matéria que utilizo está muito mais em bruto e de certa forma assim permanece. Na ficção, na narrativa, é outra coisa. É muito mais um olhar. Nos poemas sou mais eu, ainda que na narrativa eu esteja lá, mas talvez muito mais como espectador. E lembro-me de uma afirmação de Irene Lisboa, do seu livro Solidão, que estou a ler e reler.

“Julgo que para se arquitectarem entrechos romanescos com certa lógica e um sentido contínuo de vida, nos devemos sentir espectadores do mundo dos outros, e até das nossas ficções!”

Por esta altura já o leitor percebeu que cumpri o prometido nas primeiras linhas, levantar muito mais questões do que dar efectivas respostas. E assim fiz, certo que voltarei a este tema, ou não fosse ele uma das minhas obsessões de escritor. Mas antes de terminar, talvez possa ainda reafirmar que me escrevo sempre, sobretudo quando me leio no que escrevo.

E se de pensar e de pensamentos afinal falava, é com pensamentos que agora termino, pois se muitas vezes me dizem que sou muito reflexivo, que é uma outra forma de dizer que penso de mais, a verdade é que a escrita de poemas me tem permitido pensar muito mais sobre mim, pensar até sobre o acto de pensar em mim.

Pensamentos

I

Não penses mais nisso
dizes a ti mesmo
pensar nunca te levou
a lado algum.

Sabes muito bem que
chegada a hora é
o coração que segues.

E ele leva-te sempre
onde tens de ir
queiras ou não queiras.

Por isso continuas
e dizes a ti mesmo
devias aprender a pensar

pensar com o coração.

II

Pensas de mais
dizes a ti mesmo
mas sabes que não é assim.

Pensas muito
é verdade
mas sobre poucas coisas.

Pensas-te, sim
é sobre isso que pensas
é por isso que pensas
pensas para ser

para ser quem és.

Texto, autor, leitor

19 01 2006

“Art is not self-expression, it’s comunication.”
Raymond Carver

Quando leio um texto, um qualquer texto, parto do princípio que alguém o escreveu. Que tem um autor. Da mesma forma, quando escrevo um texto, um qualquer texto, parto do princípio que alguém o lerá ou, pelo menos, de que alguém o poderá ler. E na verdade sempre alguém o lerá, pelo menos eu, que sou sem dúvida o primeiro leitor dos meus textos.

Por este motivo, quando alguém me diz que escreve para si mesmo, como muitas vezes me dizem, fico a pensar que mesmo assim não deixam de escrever para um leitor, ainda que seja apenas o leitor que são. Assim, se eu disser que se escreve sempre para ser lido, não me parece que esteja muito longe da verdade.

E quando alguém me pergunta se sou capaz de guardar um segredo, antecipando assim que quer contar-me alguma coisa, respondo sempre que a melhor maneira de guardar um segredo é não o contar. Da mesma forma, quem não quiser ser lido o melhor que tem a fazer é não escrever. São conhecidos os casos de autores que não conseguiram impedir que alguns dos seus textos fossem publicados, ainda que o tenham proibido expressamente. E isto recorda-me a questão da relação entre o texto e o seu autor.

É comum ouvir um autor dizer que certo texto é seu, ou um leitor afirmar que um texto é de determinado autor, mas talvez fosse melhor dizer que Fulano (ou Beltrano) escreveu determinado texto ou que este teria sido escrito por ele. A verdade é que posso ler um texto sem saber quem é o seu autor, e nem por isso ele deixará de fazer algum sentido para mim. Ao ler um texto o leitor constrói um sentido ou conclui pela falta dele, e isto será ainda atribuir-lhe um sentido.

Claro que quando se diz que um texto é de alguém está desde logo em causa o direito de propriedade sobre esse texto, mas isso é o que menos me interessa quando penso na relação do autor com o texto. Questões como o que pode dizer o autor do seu texto interessam-me muito mais. Como por exemplo qual o valor que deve ser atribuído ao que o autor diz sobre os textos que escreveu.

O autor pode pronunciar-se sobre o que quis dizer com determinado texto, afirmando dessa forma o que o texto diz. Mas o leitor também o pode fazer, qualquer leitor o pode fazer. Ou será que o leitor sabe melhor do que ninguém o que o diz o texto? O autor tem, na minha opinião, um duplo conhecimento do texto, conhece-o como autor, como a pessoa que o escreveu, e também como leitor, quando o lê. E se no segundo caso ele se confunde com um qualquer leitor, já no primeiro o que ele sabe está fora do texto e só ele o pode revelar.

A escrita é sem dúvida um dos temas sobre os quais escrevo. Um tema fundamental. A reflexão sobre o que é escrever, porque se escreve e para quem se escreve surge com frequência no que escrevo. E o relacionamento, por assim dizer, entre mim e o que escrevo é também algo que sempre me intriga.

Há não muito tempo, li num blog uma citação de A Justa Medida mas só quando vi a origem do texto o aceitei como meu. Mas ainda que o tenha escrito ele não deixa de aparecer apenas com um texto, em que me reconheço, é verdade, mas também é verdade que me reconheço em muitos textos que não escrevi. Fica sempre neste confronto uma vaga sensação de estranheza.

De um romance não publicado que dou a ler a uma amiga, regressa uma frase, quanto a ela uma frase que resume o romance, e com a qual me acontece o mesmo que com a citação que acima referi. Escrevi essa frase?, pensei, e não o fui confirmar, mas aceitei-a como minha. Para mim, como leitor, que diferença faz ter sido ou não escrita por mim?

“Perde-se muito tempo a pensar quem somos quando o que somos se limita a acontecer.”

Ainda me leio nesta frase, mas podia até acontecer que não, e não deixaria de ter sido eu que a escrevi. Como esta que se segue, escrita por uma personagem de A Justa Medida e que o narrador dá conta num romance que eu mesmo escrevi.

“É difícil iniciar, assim como é difícil continuar. No entanto, a primeira acção, onde tudo começa, parece desencadear as seguintes, como se tudo estivesse já determinado a acontecer, ou tivesse já ocorrido, como quando se lê um romance. Mas onde tudo começa e acaba, é bem mais difícil de determinar na vida do que nas páginas de um livro; este separa-se do autor, que a ele não regressa, e não se deixa possuir pelo leitor, que apenas o atravessa: é uma ponte que não une duas pessoas mas apenas marca o antes e o depois, da escrita e da leitura. Os factos e acontecimentos assinalam sempre um antes e um depois. Atravessamos a vida à medida que dela nos separamos.”

Costumo dizer que, se o que escrevo dissesse apenas o que eu quero dizer, não valeria a pena escrever. Não escrevo tanto para me revelar, mas muito mais para me descobrir. Por isso mesmo gosto quando leio, ou lêem, nos textos que escrevo muito mais do que quis dizer. É claro que muitas vezes digo o que pretendia dizer, o que estava a querer dizer, ou pelo menos assim o acho, mas a verdade é que o texto, uma vez escrito, existe sem mim ou, dito de outra forma, o que de mim existe já está lá. Depois, tudo é leitura. Por estas e por outras é que existe um limite para a revisão do texto pelo autor, uma altura em que este se tem de separar dele entregá-lo ao leitor.

Nunca o autor conseguirá controlar por completo o que escreveu, nem é conveniente que o faça. Quem escreve um texto não tem nunca o controlo total do que escreve, nem é conveniente que o tenha. Sobretudo quando se trata, como aqui, de um texto literário. Por outro lado, o autor é também um leitor do que escreve. Ele é o primeiro a ler o que escreve, o que escreveu. A ler e a reler. E a corrigir. E a voltar a corrigir. O texto que, uma vez entregue de vez ao leitor, deixa de lhe pertencer ou, para quem goste de paradoxos como eu, pertence-lhe ainda e já não lhe pertence.

Quando o autor corrige um dos seus textos, talvez se pudesse perguntar se o faz ainda como autor ou já como leitor. A verdade é que o autor dá vida ao texto e o leitor devolve-o à vida. E se não estou a ser congruente, saibam que é porque não pretendo sê-lo. Amo a incongruência muito mais do que amo a congruência. A primeira diz-me muito mais do que a segunda.

Nesta altura recordo-me da minha formação jurídica, de como gostava das questões ligadas à interpretação das leis, e que talvez tal assunto venha a propósito. A interpretação de uma lei, dizia-se, deve sempre respeitar a letra da lei mas, ao mesmo tempo, não se ficar por ela. Mais ou menos isto, ou como diria o povo, a interpretação de um texto deve ser feita nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Talvez nestas questões se possa apenas afirmar que, de uma forma ou de outra, todos eles (o texto, o autor e o leitor) têm algo a dizer e todos devem ser escutados. E assim, desta forma abrupta, eu, o autor, dou por terminada a escrita deste texto e deixo-o ao leitor e à leitura.

Um passeio por Faro, pela escrita e pela leitura

13 01 2006

Estás em casa, a escrever, quando o telefone toca. É um amigo que há já algum tempo não vias e está de passagem por Faro. Tem mais ou menos uma hora e convida-te para a passares com ele. Para conversarem e lhe mostrares a cidade. Aceitas de imediato e perguntas onde está. No Café do Coreto, responde , e tu pões-te a caminho.

O nome Ossónoba (…) deriva da expressão fenícia Osson Êba, armazém no sepal e reporta-se ao período VIII A.C., período em que se estabeleceu uma área comercial no morro da Sé. Durante a ocupação árabe o nome Ossónoba prevaleceu, desaparecendo apenas no séc. IX, dando lugar a Santa Maria do Ocidente. Após o governo de Said Ibn Harun na taifa de Santa Maria, no séc. XI a cidade passa a designar-se Santa Maria Ibn Harun. Depois da conquista por D. Afonso III os portugueses designaram a cidade por Santa Maria de Faaron ou Santa Maria de Faaram. No séc. XVI a XVII o nome evoluiu para Farom , Faroo e Farão. O nome Faro surgiu no séc. XVIII e permaneceu até aos dias de hoje.

O dia está frio mas anuncia já a primavera, e o teu amigo está sentado na esplanada, virado para a doca. Bebes um café, ele recusa um segundo, e começam a conversa em dia. Falam de amigos comuns, de amores e desamores e do que andam fazendo por estes dias. E a páginas tantas falam de hipertexto. É uma paixão comum.

Se a hipertextualidade não é uma “invenção” moderna já que encontram-se alguns registros históricos dessa estrutura narrativa em obras na Ciência, na literatura e na Filosofia, ela ganha impulso com o avanço da crescente ação dialógica entre o homem e a técnica. Tomando a concepção de hipertextualidade como ponto de convergência de outros conceitos, constatamos que ela revela os limites e por isso mesmo, a falência do discurso tradicionalmente lógico, acabado, fechado em si. As infinitas possibilidades de conexões entre trechos de textos e textos inteiros favorecem a flexibilização das fronteiras entre diferentes áreas do conhecimento humano.

Confesso que esta coisa de o leitor hipertextual ser também autor baralha-me um pouco, diz ele, por que me parece trazer qualquer novidade e só serve para confundir. É verdade que o leitor hipertextual traça o seu percurso, faz as suas escolhas, mas isso também o leitor de texto impresso o faz. Desde logo pode escolher ler ou não. É sempre uma opção que tem. Ler ou não ler um livro.

E tu vais dizer alguma coisa mas lembras-te que só têm uma hora e ele quer conhecer a cidade. Nunca ali esteve e ficas a pensar o que lhe deves mostrar. E decides-te pela cidade velha, agora pomposamente designada por Vila Adentro. E dizes ao teu amigo, E se fôssemos dar uma volta pela cidade velha? Ele concorda. Atravessam então o jardim Manuel Bívar e entram Vila Adentro pelo Arco da Vila.

A Vila Adentro, o centro histórico de Faro, está em parte rodeada pelo que ainda resta das muralhas do antigo castelo. (…) Atravessar o Arco da Vila, no topo do Jardim Manuel Bivar, é passar para outro mundo, viajar por séculos de história, ao encontro da cidade árabe e medieval.

Passado o Arco da Vila não há que enganar. É seguir em frente e subir até ao Largo da Sé. Aí é que já se pode escolher. Ou visitar a igreja matriz. Ou passear pelo Largo, entre o Paço Episcopal e a estátua do Bispo. Ou simplesmente atravessá-lo e sair pela porta árabe, e encostarem-se ao muro a olhar a ria.

Hipertexto é um conceito que diz respeito ao nosso modo de ler e escrever.

A Porta Árabe é um arco em ferradura que em tempos constituiu a porta da cidade para quem chegava por mar. Existe uma lenda ligada a este local, que refere um nicho onde estaria colocada a imagem da Virgem, que um dia dali foi retirada pelos Árabes; como resultado dessa acção, o mar deixou de dar peixe e a terra de dar frutos, e a situação só voltou ao normal após a imagem ter sido recolocada.

Mas não escolhes nenhuma dessas alternativas e continuas até à Praça D. Afonso III, onde está a estátua desse mesmo rei, ainda vigilante, testemunho irrefutável da Reconquista da cidade pelos cristãos. Isto mesmo podias dizer-lhe, se fosses um guia, e falasses como tal, mas verdade é que nada lhe dizes sobre isso e ficam ali à entrada do largo, encostados à Sé. E tu pensas naquela redacção que um colega de escola fez quando eram crianças. Uma entrevista ao rei feito estátua e à estátua feita rei. Lembras-te apenas disso. Não fazes a mínima ideia quais eram as perguntas e as respostas. Mas agora que fazes por te lembrar, tens a sensação que as perguntas eram actuais e muito pouco próprias de colocar a um rei assim tão majestoso e possante.

Falam ainda de hipertexto, e o teu amigo diz que uma nova forma de leitura resulta necessariamente de uma nova forma escrita, e tu concordas, mas dizes que a escrita e a leitura também não mudaram tanto assim como se possa pensar. E dizes-lhe que antes de haver hipertexto já havia hipertexto. E não estás a fazer meros jogos de palavras mas a falar a sério. Melhor, estás a fazer jogos de palavras e a falar a sério. Que os jogos de palavras são para ti uma coisa séria.

Mas o tempo passa e têm de ir embora. E o teu amigo surpreende-te dizendo, Agora sou eu que vou à frente e tu segues-me. E lá vão os dois. Percorrem ruas estreitas e cheias de recantos, atravessam arcos, e tens de ser tu a dizer, aqui e ali, Por aí não. E volta sobre os seus passos, e ele perde-se de novo, e quando dá por si está de novo no ponto de partida.

(…) andar na cidade ou clicar numa home page transformam-se em formas de flânerie, em formas de caminhar escrevendo e apropriando-se do espaço. Estabelece-se, dessa forma, nos dois casos, um processo não-linear de concepção, de escritura, a partir de lógicas de apropriação do espaço e dos objetos totalmente pessoais e individualizadas.

E assim como se chegou ao fim do passeio por Faro, também se poderia chegar ao fim deste texto. Se é que um texto tem fim, se é que um texto tem princípio. Mas talvez se possa falar da leitura como um percurso: quer o tracemos nós, quer sigamos um percurso feito. E ainda que de um percurso feito se trate, como este texto, seguimo-lo muitos vezes à nossa maneira e fazendo-o afinal sempre nosso. E é assim que o leitor se torna autor, e assim que o autor afinal escreve: criando um percurso, passeando pelo texto.

Percursos

Não te deixes enganar,
Se quiseres ler este texto
Começa já a duvidar.
Nem uma outra coisa
Se espera de ti.

Acaba com as lamentações,
Um leitor tem sempre à sua frente
Texto, texto e mais texto.

Apenas tens de fazer um percurso e,
Se não lhe achares o sentido,
Continua na primeira palavra

(…)

Não se começa nem se
Acaba um texto
Apenas se continua

A escrever

A ler

Escreve-se à volta de

12 01 2006

Estou a pensar sobre ler e escrever e, de repente, penso que se escreve à volta de. E a frase aparece-me completa. Escreve-se à volta de. Podia completá-la. Escreve-se à volta de alguma coisa. Mas não me parece necessário. Escreve-se à volta de. Dito assim sublinha-se o processo, escreve-se à volta de. Independentemente do quê, o que importa é o como. E é isso que vou fazer neste texto que agora começo a escrever, escrever à volta de, muito provavelmente escrever à volta desta mesma frase que o despertou. É isso que vou tentar.

Não será tanto o que é escrever, por que escrever ou para quem se escreve – três perguntas que Jean-Paul Sartre coloca e tenta responder em O que é a literatura – mas sim o como se escreve que me interessa desenvolver aqui. E não qualquer forma de escrever mas a escrita à volta de. E caso se escreva à volta de, posso desde logo imaginar um algo que se vai juntando, um algo que vai crescendo, e assim começo a desenhar uma metáfora.

Existem diversas metáforas de escrita e de leitura, umas e outras, formas de dar nome a realidades que sempre nos escapam. São tentativas de explicação que não precisam de chegar a quaisquer conclusões, bastando que delas se aproximem o mais possível. E se procuro aproximar-me de um como se escreve será aconselhável começar por um o que é escrever.

“Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.” Isto diz Fernando Pessoa no “Livro do Desassossego”. Já Agustina Bessa-Luís, em “Contemplação Carinhosa da Angústia”, diz que “Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada.” E para terminar, ainda em português, mas com uma escritora que não o é, convoquemos Clarice Lispector. “Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere alguma coisa. Não altera em nada… Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro…”

E como escrever é de alguma forma citarmo-nos a nós mesmos, continuo com um poema que escrevi a pensar o que é escrever e como se escreve.

Quando escrevo

para escrever é conveniente ler muito,
saber o que é importante saber sobre literatura
e depois
esquecer tudo,
e escrever apenas o que se é,
nada mais,
como se nunca se tivesse lido ou escrito
coisa alguma.
só assim conseguiremos
escrever-nos.
pelo menos é isto que tento fazer:
faço como se nada soubesse,
a não ser, talvez,
que existo.

E escrever, caso se aceite que se escreve à volta de, pressuporá um centro, um centro à volta do qual se vai escrevendo. Um centro capaz de atrair texto, ideias, sensações e acontecimentos. Vários escritores referem a sensação de que a própria realidade se parece organizar à volta do estão a escrever.

E enquanto continuo a escrever à volta de, encontro-me também às voltas com, e penso que é quase a mesma coisa; mas às voltas ando com a cerca de uma dúzia de livros sobre ler e escrever que reuni em cima da secretária onde neste momento escrevo. E também às voltas com algumas pesquisas na Internet, à volta do que é escrever, e à volta mesmo da própria expressão “à volta de”. E entre outras coisas encontro um texto – um ensaio – escrito à volta de uma palavra – a palavra “olhos” – que parece querer confirmar-me o que comecei por dizer, que se escreve à volta de.

E encontro também esta afirmação de Herberto Helder: “O poema é um objecto carregado de poderes magníficos, terríficos; posto no sítio certo, no instante certo, segundo a regra certa, promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo, o mundo acaba e começa.” E isto recorda-me que quando falo em escrever à volta de, refiro-me sobretudo, por experiência própria e alguma comodidade, à escrita de narrativas, de qualquer texto em que se conte uma história.

Não pretendo fazer aqui qualquer distinção entre prosa e poesia, entre o escritor e poeta, como faz Sartre quando tenta responder à primeira questão que colocou a si mesmo: O que é a literatura? E agarro no livro, aqui ao meu lado e procuro nele um sublinhado que em tempos fiz. “O escritor, ao contrário, lida com os significados. Mas cabe distinguir: o império dos signos é a prosa; a poesia está lado a lado com a pintura, a escultura, a música.” Não me interessa desenvolver este tema agora, não me é necessário, mas é algo mais que junto ao texto que escrevo, que o faz crescer, que o desenvolve. E lembro-me de juntar também um excerto de um conto breve que escrevi faz pouco tempo e que talvez, penso agora, tenha despertado este ensaio que agora escrevo.

Escreve uma frase, depois outra e apaga tudo. Tudo menos o título. É um bom título. Escreve muitas vezes a partir de um título, à volta dele. Sabe que muitos escritores fazem o mesmo, até a partir de um objecto. De um simples facto. Ele escreve a partir de um título.

Escreve-se então à volta de. É uma metáfora de escrita, do modo como se escreve, que tenho vindo a construir ao longo deste texto em que fui escrevendo à volta de. E tento agora dar-lhe explicitá-la com mais clareza. Escrever é como enrolar um fio sobre si mesmo. Escrever é juntar uma porção de fios em novelo. Escrever é como enrolar um novelo. E ainda que estas formulações sejam elas mesmas um andar à volta e me pareçam escapar, decido escolher uma e avançar a partir dela, à volta dela, pois já a cabeça me começa a andar à volta.

Gosto da ideia de fio, como em fio da narrativa, de diversos fios que se enrolam à volta de alguma coisa e, ao mesmo tempo, à volta de, ou sobre, si mesmos. Tem tudo a ver com escrever. E tem tudo a ver, como tenho vindo a dizer, com escrever à volta de. Para além disso a palavra novelo, ou meada, tem também o significado, em sentido figurado, de enredo e de intriga. O que me parece adequado. E também de embrulhada. O que me parece igualmente adequado.

Diga-se então que escrever é como enrolar um novelo. E vejamos se a metáfora assim encontrada se aguenta. E voltemos ao princípio. Escreve-se à volta de, tal como se enrola um novelo, enrolando o fio ou fios à volta de algo que pode ser um pequeno pau, um outro qualquer objecto ou até os dedos, e depois enrolando-o sobre si mesmo, juntando sempre mais fio, mais linha, o que se tiver à mão, fazendo crescer o novelo.

Escreve-se assim à volta de, à volta de uma palavra, de um título. E também à volta de uma frase, de uma imagem de uma sensação. Vários escritores referem esta forma de nascimento e crescimento da narrativa. Um pequeno centro à volta do qual se escreve e que se esconde e quase desaparece com o desenvolver da escrita. No final só o escritor detém ainda esse segredo. Vera Montero, no livro “A louca da casa”, dá muitos desses exemplos, e eu gostaria de a citar, mas não sei o que é feito desse livro – que o comprei e li - e não se encontra entre os que reuni. Fica a referência e um convite à sua leitura. Mas continue-se.

Escreve então à volta de, mesmo à volta de um objecto, como por exemplo… um cinzeiro. Isto mesmo foi o que Tchékhov disse a Korolenko. Disse-lhe que se ele quisesse teria no dia seguinte um conto com o título “O Cinzeiro”, objecto que tinha escolhido ao acaso de entre os que se encontravam sobre a mesa. E pareceu a Korolenko, conta-nos Vladimir Nabokov, que uma transformação mágica desse cinzeiro começava a dar-se.

Pois é, à volta de. À volta de uma pequena frase escrevi este breve ensaio. Escreve-se à volta de. Escreve-se como se enrola um novelo.

Ler Alto

8 01 2006

Ler. Escrever. Ler e escrever. Escrever e ler. Seja como for, estas duas realidades influenciam-se mutuamente. De diversas formas.

Escrevemos muitas vezes o que lemos – a isso é costume chamar influências literárias – ou aquilo que gostaríamos de ler – e a isso não sei o que chamar. Ou como diz José Luís Borges, escrevemos o que podemos e lemos o que queremos.

Seja como for, escrevemos para ser lidos, escrevemos para a possibilidade de sermos lidos, escrevemos na certeza de um leitor. O que nunca for lido é como se nunca fosse escrito. Em todo o caso, se está escrito pode ser lido; por isso o melhor é pensar que vai ser lido. Escreve-se para ser lido, de outra forma não faria sentido escrever. Seria como escrever na água.

Mas estou afastar-me do que queria escrever, o que não constitui um problema, mas talvez seja o momento de decidir por onde a escrita irá. E não indo por onde começava a ir, diz-me a experiência que nestes casos é melhor voltar ao princípio.

Ler. Escrever. Ler e escrever. Escrever e ler. Ou talvez seja melhor dizer ouvir. Falar. Ouvir e falar. Falar e ouvir. Isto porque, ainda que não o tenha já explicitado, esse era o ponto de partida.

Já há alguns meses que participo num evento intitulado Ler Alto, onde cada um pode ler em voz alta os seus próprios textos. Todas as primeiras sextas-feiras do mês tenho assim, nos últimos meses, lido alto alguns dos meus textos. E tenho pensado sobre isso e tenho, julgo eu, aprendido alguma coisa.

Nem sempre foi assim, mas hoje lê-se sobretudo em silêncio. Com excepção da poesia, que ainda hoje se lê com frequência alto, lê-se sobretudo em silêncio. Mas ainda não é habitual ouvir-se um romance, um conto ou até uma qualquer matéria de estudo. Excepto os cegos, sem dúvida, mas julgo que esse material, mesmo a eles destinado, ainda é raro, pelo menos em português.

Lê-se assim em silêncio – pelo menos eu leio – e essa foi uma das coisas que percebi. Escrevo para ser lido em silêncio, na folha de papel ou no ecrã, e isso determina em grande medida a forma do que escrevo.

Um exemplo fácil é a escrita para ser lida no ecrã de um computador. Preocupa-me sempre o espaçamento entre as linhas, preocupa-me sempre o espaçamento entre parágrafos. Preocupa-me a legibilidade do que é mostrado no ecrã. A forma como apresento um texto no ecrã é diferente daquela que o mesmo teria numa folha de um livro. Isto sem contar com o hiper-texto.

Outro exemplo poderei ir buscá-lo às pequenas histórias que escrevo e que se dispõem em regra num único parágrafo. Não é por acaso. Gosto de apresentá-las assim porque assim acentuo a sua brevidade, fechando-as sobre si mesmas como buracos negros plenos de energia.

Claro que a forma como apresento, por assim dizer, na folha, ou no ecrã, aquilo que escrevo, não é indiferente à forma como poderia ser lido em voz alta, pois contém indicações de leitura, mas é diferente. E aqui lembro-me da chamada poesia visual.

Poder-se-ia ler em voz alta um poema visual, não tenho dúvidas que sim, mas ele foi escrito para ser visto, para ser olhado. E aquilo que escrevo também, ainda que não exclusivamente.

Escrevo, ou tento escrever, com a maior simplicidade, muito perto da oralidade mas, no entanto, acho que escrevo sobretudo para ser lido em silêncio; ainda que possa ser lido alto; ainda que me possa ler alto. E esta foi uma das coisas que descobri sobre mim e a minha escrita. Foi uma das coisas que descobri com o Ler Alto.