pleonasmo

31 07 2008

O meu primeiro post tem a data de 20 de Agosto de 2002.

O blogue 1001 pequenas histórias foi um projecto literário com fim determinado, e terminou quando alcançou o seu objectivo, quase três anos depois, com a milésima primeira história, em 14 de Julho de 2005.

A partir daí nunca mais me foi possível terminar um blogue de forma tão precisa, ora dizia que ia deixar de publicar num blogue e depois o retomava, ora fechava um e abria outro.

Perfeitamente natural. Nem seria preciso dizê-lo.

O blogue, nas suas diversas manifestações, tem sido para mim, sobretudo, um instrumento de divulgação do que venho escrevendo e que, por inércia minha e dos editores, não tem chegado ao papel. Muito do escrevi está por aí em blogues e pode ser lido, o que me agrada.

E assim este blogue chega ao

Fim

[ ]

24 07 2008

S – Todos os que o conheciam diziam que era muito calado, e era verdade, calava-se com frequência, ainda que só ficasse verdadeiramente em silêncio quando surpreendia por instantes o mistério do mundo.

I – Aquele homem desconhecia o silêncio: tinha uma audição apurada, que amplificava todos os sons, e, como se não fosse suficiente, ouvia vozes.

L – Às vezes desligava o som da televisão. Era sua forma de protestar.

Ê – Perante os crescentes protestos, pediu silêncio, e foi atendido, mas, quando os olhou, logo percebeu que ainda não se tinham calado.

N – Ficou em silêncio. Tinha coisas demais para dizer.

C – No exacto momento em que perdeu a audição perdeu também a visão. Ficou para sempre excluído do mundo do audiovisual.

I – O silêncio nunca é o que fica por dizer, afirmava ele, e calava-se.

O –

A Medida de Todas as Coisas

15 07 2008

Era um grande homem.
Um grande homem?
Sim, um grande homem! Tens dúvidas?
Um grande homem? — repetiu Artur, e riu-se — Olha que ele não ia gostar de ouvir isso, sobretudo vindo de ti.
José ia já começar a protestar, mas riu-se também, percebendo finalmente, e foi em uníssono que proferiram, em voz alta e entre mais gargalhadas.
Era um homem grande com o caralho.
E logo a seguir, ainda entre gargalhadas e ainda em uníssono.
Um homem do caralho!

E ficaram de repente sérios, ergueram os copos e saborearam o vinho, escolhido pelo Artur que, olhando-o em contraluz, os olhos semicerrados, lhe elogiou a cor, dizendo rubis os seus bordos e negro o seu coração.
Uma cor do caralho! — atalhou José, e riram de novo durante muito tempo.
O restaurante não estava cheio, mas também não estava vazio e, aqui e ali, algumas cabeças iam-se voltando, não só pelos risos estridentes e continuados, mas também pelos muitos sonoros caralhos que, a partir de certa altura, bem se podia dizer que era caralho para aqui e caralho para ali. Até o empregado de mesa, o mais antigo e respeitável de todos, entrou na dança, declarando convicto, quando lhe perguntaram se o robalo era fresco, que sim, que sim, que o robalo era fresco como o caralho. Estivesse se o restaurante mais a norte e não fosse tão luxuoso, talvez o facto não fosse tão invulgar, mas também, estou certo, nunca o deixaria de ser.
Há anos que jantavam ali, a espaços, primeiro os três e agora apenas os dois. Eram da casa, como se costuma dizer, e se antes ninguém os incomodava, muito menos agora, dado o carácter comemorativo do jantar, em que os dois, em memória do ausente, se empenhavam em falar como ele mesmo falava nos seus últimos anos de vida. E a verdade é que tudo começou por uma brincadeira.

Um dia, em que alguém dissertando a propósito de coisa nenhuma, se alongava em adjectivos e qualificações, ele resumiu tudo, calando-o de forma contundente.
Já percebi, é do caralho.
E foi apenas o princípio, pois rapidamente, e quase sem que o percebesse, se habituou a cortar qualquer longa e fastidiosa explicação com um taxativo Já percebi, é do caralho. E se no início lhe achavam piada, logo deixaram de lhe achar graça, o que ainda reforçou mais o seu hábito, e até o expandiu, tornando-se um vício de que nunca mais se livrou, esse de usar a palavra caralho a torto e a direito, o que ele mesmo admitia, quando o referiam, dizendo que estava cada vez pior, e que em quatro palavras que proferia cinco eram de certeza caralhos.
E era caralho para aqui e caralho para ali, de tal forma que, depois de morto, foi esse jogo que os seus maiores amigos, o Artur e o José, decidiram consagrar como tributo à sua memória, naquele mesmo restaurante onde tantas vezes haviam discutido durante horas, discussões pontuadas pelos muitos caralhos em que ele era pródigo e, talvez seja importante dizer, o único palavrão que se lhe ouvia, mesmo nos momentos de maior exaltação.
O tempo estava do caralho, o vinho era do caralho, tudo era do caralho ou, se não era do caralho, então, era como o caralho, o cabrito estava delicioso como o caralho, o serviço era lento como o caralho, aquela gaja era boa como o caralho.

Um dia, naquele mesmo restaurante, num dia em que estava cheio de gente importante, até um ministro, diz-se, o dono meteu-se com ele, em voz baixa e pausada, O senhor doutor desculpe-me, mas está sempre com o coiso na boca, até lhe fica mal. E logo ele lhe respondeu, de imediato, Qual coiso nem meio coiso, o caralho, quer você dizer! E ainda o outro se afastava, engolindo o riso, e eis que ele se levantava, pedia silêncio, e erguendo o copo e voz, dirigiu-se a toda a sala em tom apoteótico.

O caralho, meus senhores e minhas senhoras, o caralho, fiquem a saber, o caralho é a medida de todas as coisas.

PESADELOS

3 07 2008

Acordou sobressaltado. Ele ainda estava ali, sentado no sofá de canto, as pernas cruzadas, e olhava-o sem qualquer expressão no rosto cansado. Fechou os olhos e inspirou e expirou lentamente. Quando recuperou o controlo ele estava já ao seu lado e debruçava-se sobre si. Não resistiu, sabia que era desnecessário. Deixou-se ir.

–>

Tentou desesperadamente aumentar a distância entre ambos, mas ela era cada vez menor. Ele estava cada vez mais perto. O fim estava cada vez mais próximo. Preparou-se para o pior e foi o que aconteceu: ele conseguiu passar-lhe à frente.

–>

Não acreditava em Deus e estava cansado de tudo, até mesmo de existir. Um dia matou-se, sem desespero nem mágoa, e acordou sobressaltado às portas do céu.

–>

Depois de morto ainda viveu e morreu várias vezes, mas nunca mais acordou.

Circular n.º 101

27 06 2008

crianças cães carros
janela indecisa
televisão desligada
corpo nu sofá
mesa rectangular
livros e mais livros
mão a escrever
crianças cães carros

gostava de escrever um poema, disseste
e eu expliquei-te que era fácil, bastava colocar
uma palavra a seguir a outra. mas já tu dizias
que não sabias escrever. então ainda é mais fácil,
conclui com um sorriso, e entreguei-te uma
tesoura e uma folha impressa de revista, para que
recortasses o teu poema, da mesma forma
que eu acabei afinal por escrever este
como uma brincadeira de criança

o nosso coração é vegetal

23 06 2008

um projecto interessante.

pingue-pongue

Um conto filho da puta, por assim dizer, do meu amigo Fernando Dinis.

[NADA ACONTECE DE REPENTE]

16 06 2008

[Apeteceu-me deixar aqui o início, apenas esboçado, de um texto maior, mas que me parece funcionar como um conto. Apeteceu-me ainda dedicá-lo ao Rui Costa e ao Fernando Dinis.]

E um dia aconteceu-lhe. Não foi capaz de erecção. Mesmo no meio do trabalho. Ela foi gentil, disse-lhe que compreendia, que não tinha qualquer importância, e quis pagar-lhe na mesma, mas ele não aceitou; pediu-lhe desculpas, beijou-a e saiu.
Foi nesse dia que pensou profundamente nos serviços que oferecia e chegou a uma conclusão que mudaria a sua vida: o sexo era o menos importante na profissão que desenvolvia; há muito que as mulheres que o contratavam queriam muito mais do que sexo. Sentiu como que uma epifania. Estava mudado.
E se até então era já uma referência na sua profissão, a partir daí tornou-se uma lenda, dentro e fora do meio em que se movimentava.
Se grande parte do que se conta hoje nunca aconteceu, isso pouco importa, pois a influência que essas histórias exercem não depende da sua verdade objectiva, mas do simples facto de serem contadas e ouvidas, uma e outra vez. Contadas e vividas. Uma e outra vez.

Mais tarde se diria que ele fora sempre impotente, e até as mulheres que tinham sido penetradas por ele começaram a duvidar que alguma vez o tivessem sido; mas para ele nunca foi isso que esteve verdadeiramente em causa, mas sim a natureza profunda do que fazia.
Porque o procuravam aquelas mulheres? O que queriam? Porque lhe pagavam?
Foi a essas perguntas que ele tentou responder naquele dia, no dia em que, pela primeira vez, não foi capaz de erecção e, se não obteve uma resposta única, palpável e sólida, descobriu sem dúvida o caminho que queria percorrer. Da mesma forma que já antes lhe tinha acontecido.
O caminho menos esperado. O caminho mais inesperado.

O que é que tu fazes hoje em dia para ganhar a vida?
Acompanho mulheres.
Vais para a cama com elas?
Sim, também. Às vezes mais que isso. Ou menos. Depende do ponto de vista.
Estás a brincar comigo?
Não podia estar mais sério.
Soube que tinhas deixado de dar aulas. Nem quis acreditar. Lembro-me da paixão que tinhas pelo ensino, pela universidade.
Cansei-me.
E agora… és prostituto?
Acho que se poderia dizer assim.
Estás doido?

A primeira vez que recebeu dinheiro por sexo foi quase por brincadeira. Uma amiga da mãe, às escondidas de um jantar chato, chato, chato.
Quero oferecer alguma coisa, disse ela, e ele riu-se. Não precisas oferecer-me nada, que ideia. Mas ela insistiu, foi buscar a mala, tirou a carteira e deu-lhe todo o dinheiro que tinha lá dentro. Ele riu-se, negou com a cabeça, mas ela enfiou-lhe o dinheiro nos bolsos das calças, primeiro num, depois noutro, até ficar sem nada. Tinha mais do dobro da idade dele, mas ele não via essa diferença, via uma mulher bonita, culta, bastante carente e muito desejável. No entanto, não lhe devolveu o dinheiro, voltou mesmo aceitar mais, e não se surpreendeu quando um dia uma amiga dela lhe fez uma proposta clara e directa.

Não era muito bonito, pelo menos de acordo com os padrões clássicos, mas tinha muito sucesso junto das mulheres, sobretudo as mais velhas, talvez porque fossem as mulheres mais velhas que ele preferia. E eram estas mulheres que o procuravam: mulheres mais velhas, mas também mais independentes, mais decididas, mais bem sucedidas. Foi assim desde o início, embora com o tempo a diferença de idade se esbatesse à medida que ele mesmo envelhecia, acontecendo cada vez mais que as suas clientes tivessem praticamente a mesma idade que ele. Manteve-se na sua profissão até ao fim, ainda que cada vez mais discretamente, até quase não se perceber se ainda o fazia por dinheiro ou apenas por gosto. E a verdade é que nunca deixou de ser procurado, nunca deixaram de lhe fazer propostas, muitas delas quase vergonhosas, tendo em conta as quantias envolvidas, verdadeiras pequenas fortunas. Mas aqui entramos já no domínio da lenda.

O que querem as mulheres dos homens? Porque os procuram? Porque se apaixonam? Porque os desprezam? Porque correm atrás deles?
Estas e outras perguntas foram as que ele colocou a si mesmo naquele dia em que não conseguiu uma erecção, e pouco importava se voltaria a ter alguma ou nunca mais, pois não era isso que estava em causa.
Tinha chegado a um momento em que aquelas perguntas eram importantes para ele, se não respondê-las, pelo menos levantá-las.
Há já alguns anos que vivia exclusivamente de vender os seus serviços a mulheres, e a verdade é que não o fazia tanto por dinheiro mas por verdadeira paixão.

Os homens são uns parvos, umas crianças. Pagam-me por sexo e querem que eu os ame. Que parvoíce. São mesmo estúpidos. E ria-se muito.
Era uma profissional das mais bem pagas, os homens pagavam-lhe fortunas, esperavam meses que ela se decidisse, atiravam-se aos seus pés e tudo isso apenas por sexo.
São mesmo parvos, disse-lhe ele, e ela riu-se ainda mais.
Talvez te devesse contratar, disse ela, e por momentos deixou de rir.
Talvez, respondeu ele, e riram-se os dois, ao mesmo tempo, pela primeira vez.

Se tivera poucos relacionamentos amorosos antes de começar a sua profissão, a partir desse momento foi progressivamente deixando de os ter, até que ficou só. Talvez por isso se tenha dito que ele era incapaz de amar, quando o que ele ofereceria não era outra coisa senão amor; pago, é certo, mas amor, e não sexo, não apenas sexo, até chegar ao ponto de o sexo, tal como é entendido vulgarmente, nem mesmo fazer parte dos seus serviços. Mas também aqui entramos já no domínio da lenda.

A mulher apresentou-o pelo nome, sem explicar quem ele era ou o que fazia, mas todos pensaram que era o seu último amante, um homem atraente e bem sucedido. E era isso que ele era, um homem atraente, bem vestido, bem-falante, de maneiras elegantes, culto, fino; aquilo que os seus maridos e amantes não eram nem nunca seriam, e todos a invejavam.
Ele não escondia o que fazia, mas poucos o tomavam por aquilo que ele era, um homem que vendia os seus serviços. E no entanto ele era muito claro quanto a isso, sobretudo com as mulheres que se aproximavam dele.

Mais do que ter prazer, ele sempre gostara de dar prazer, ou, se preferirem, ele só obtinha verdadeiro prazer a dar prazer e, se no geral isto era verdade, era ainda mais verdade quando se tratava de mulheres. E foi talvez por aí que tudo começou.
Ele queria dar prazer ás mulheres, ao maior número de mulheres, e queria tanto fazê-lo que nem restava tempo para mais nada que não tivesse a ver com essa necessidade fundamental. Foi assim que abandonou tudo e se dedicou por completo á sua nova profissão. E não o fez às escondidas, de forma envergonhada, mas com paixão e orgulho no que ele chamava a sua arte.

Vamos no teu carro ou no meu, perguntou ela, olhando para o Porsche com admiração, e ele estendeu-lhe as chaves com um sorriso, Queres experimentar? Ela olhou para ele, riu, e perguntou antes de aceitar, Não pago mais por isso, pois não?

A maior parte das mulheres que o procurava não dizia que não a sexo, mas para a maioria isso não era o mais importante, e muito menos serem penetradas, ainda que docemente.
As mulheres que o procuravam queriam outra coisa. Queriam aquilo que ele tinha para dar, era por isso que o procuravam.
O pagamento era acertado e efectuado no início e não se falava mais nisso, a não ser que surgisse alguma alteração ao solicitado.
Durante algum tempo chegou a ter alguém que lhe tratava disso, uma espécie de agente, de angariador, mas depois prescindiu dos seus serviços, não queria intermediários. Era tudo feito como um qualquer outro negócio: tinha uma tabela de preços, solicitavam os seus serviços e ele dizia quanto queria, depois faziam-se pequenos acertos.

Quero que me acompanhe a um jantar de negócios. Gente muito importante. Deve estar atento a todos os meus pedidos, cortejar discretamente as mulheres e surpreender e divertir os homens com a sua ironia. Nada de novo. Muita discrição. Muito silêncio a perguntas indiscretas. O mesmo de sempre. Um fim-de-semana, todas as despesas por minha contas, o pagamento habitual e um bónus no fim se tudo correr bem. E eu sei que vai correr tudo bem.

Em regra elas escolhiam os locais, os restaurantes, os hotéis, a não ser que lhe pedissem que as surpreendesse, a não ser que ele conhecesse já todos os seus locais preferidos. Ele escolhia os vinhos, acertava todos os pormenores, com elegância, com requinte, discorrendo sempre um pouco sobre tudo, de forma clara e despojada mas com autêntica paixão. E era atencioso, e sorria e escutava, e, para todas, ele era quem elas queriam que fosse, uma espécie de homem de sonho, de príncipe que obedece sem que lhe peçam.

Mas tu gostas dessas mulheres?
Elas pagam-me.
Mas tu gostas delas?
Gosto do que faço.
Mas gostas delas?
Já te respondi.
Sim ou não?
Se queres que responda com um sim ou um não, a minha resposta só pode ser sim.

A família sempre soube o que ele fazia, e foram-se afastando pouco a pouco, com excepção do irmão mais novo que manteve sempre contacto com ele, embora se recusasse a falar sobre o que ele fazia. Não se importou muito, fora sempre um solitário, uma daquelas crianças e adolescentes que são chamados ora de macambúzios ora de introvertidos.
Na verdade, também não tinha muitos amigos, vivia exclusivamente para a sua profissão e ela determinava em grande parte quem era e o que fazia. Tinha muito cuidado com o corpo, lia muito, mantinha-se informado sobre os mais variados assuntos, frequentava aulas de dança e de culinária e viajava sempre que podia. Na sua profissão era invejado e copiado, mas pouco eram aqueles que se mostravam dispostos a, como ele, dedicarem-se por completo à profissão.

Acima de tudo as mulheres querem ser desejadas, e isso é o mais importante. Fazer uma mulher sentir-se desejada é mais difícil que satisfazer-lhe o desejo. E é isso sobretudo que eu faço.
Satisfazer-lhe o desejo?
Fazê-las sentir-se desejadas.
Mas não lhe pagam por sexo?
Pagam-me, mas não só por sexo.
Mas dá-lhes sexo?
Quando querem. Mas se quer saber, até podia usar outra pessoa para isso. O sexo não é o mais importante, pelo menos para as minhas clientes. E para mim também não.
Então o que é?
Já lhe disse.
Sentirem-se desejadas?
Agrada-me que perceba.
Sou mulher.

No dia em que não conseguiu uma erecção a sua vida mudou, mas essa mudança já se preparava há muito tempo. É sempre assim, nada acontece de repente.

12 06 2008

O HOMEM ADORMECIDO

8 06 2008

[para a Laura, esta pequena história que lhe contei, depois de a ter contado a mim mesmo na viagem que me levou até ela,]

O homem acordou e levantou-se de imediato. Tinha de ir… tinha mesmo de ir.
A cama ainda o tentou chamar à razão, disse-lhe que dormisse mais um pouco, que precisava de descansar, mas o homem não a ouviu, estava já a vestir-se e dali a pouco sairia para a cidade.
A cama, sem saber o que fazer, pediu a ajuda da camisa, das cuecas, das calças, das meias e dos sapatos do homem, pedindo-lhes que o fizessem voltar para a cama, que o convencessem a descansar mais um pouco, mas também elas não sabiam o que fazer, e quando tentaram falar com o homem, já ele saía de casa e se dirigia para o carro, determinado a ir. Tinha de ir… tinha mesmo de ir.
A camisa, as cuecas, as calças, as meias e os sapatos não se calavam, dizendo-lhe que faria melhor se ficasse em casa a descansar, que bem precisava, e que também para elas seria melhor se ficassem em casa, em vez de se sujarem, de apanharem suor e fumo. Mas ele não as ouviu, rodou a chave, pôs o carro a trabalhar e rumou para a cidade.
As roupas pediram então ao carro que fizesse alguma coisa, que o homem precisava de descansar, elas sabiam que ele precisava, a cama tinha-lhes dito, e nesses assuntos ela era perita, disso não tinham dúvidas, e falavam, falavam e falavam, mas o carro não sabia o que fazer e juntou-se ao coro, dizendo ao homem que devia voltar para casa e descansar, em vez de se ir meter em filas, intermináveis e desgastantes, num pára e arranca que não lhe fazia bem, mas o homem não o ouviu, assim como não ouvia a camisa, as cuecas, as meias e os sapatos que, verdade seja dita, não se calavam. E falavam, falavam, falavam todos ao mesmo tempo, enquanto o homem combinava o seu dia usando sem parar o telemóvel.
Foi então que uma voz se fez ouvir.
Eu sei o fazer. Eu sei o que fazer!
E todos a escutaram, menos o homem, que continuava a fazer os seus telefonemas. Eu sei o que fazer, Eu sei o que fazer, disse o telemóvel, e todos se calaram, menos o homem.
E o que é?, perguntaram-lhe todos em coro, E o que é?, disse o carro, disse a camisa, disseram as cuecas, as meias e os sapatos.
O que vais fazer?
Vão ver, vão ver, disse o telemóvel, e calou-se, e todos se calaram, menos o homem, que começou a gritar, muito zangado, porque o telemóvel não funcionava.
Mas o que é isto? Então o telemóvel agora não funciona? Não pode ser!
E homem parou o carro e tentou fazer mais chamadas, mas o telemóvel estava mudo e, por mais que o homem fizesse, assim continuou. Então o homem deitou contas à vida e decidiu continuar para a cidade, depois logo se veria.
Rodou a chave, uma e outra vez, mas o carro não pegou, estava como morto e pouco depois o homem desistiu de o tentar por a funcionar. Deitou contas à vida novamente e chegou mesmo a pensar se não deveria voltar para casa, que até estava perto, e deixar para amanhã a sua ida para a cidade, mas depois pensou melhor e decidiu continuar. Iria de táxi… mais tarde resolveria o problema do carro, e do telemóvel.
Tinha de ir… tinha de ir, disse a si mesmo, determinado, mas quando começou a dirigir-se para a praça de táxis sentiu que a roupa como que lhe encolhia, a começar pela camisa, e depois também as calças e, o que era pior, as cuecas e os sapatos.
Foi aí que decidiu finalmente voltar para casa, e foi a correr que o fez porque, por estranho que pareça, descobriu que quando corria a roupa quase parecia não lhe apertar, e só quando abrandava a sentia de novo a apertar cada vez mais.
E assim, num instante, o homem chegou a casa, despiu-se completamente e sentou-se em cima da cama a pensar, e pensou que devia vestir outra roupa, e começar tudo de novo, mas estava cansado, tão cansado que se deitou na cama e logo adormeceu.
Dizem que ainda dorme, mas o mais provável é que não seja verdade e há muito tenha despertado.

+ 1 pequena história…

Paradoxo

Quando chegou a casa, a mãe e o pai discutiam, gritando e gesticulando muito. O menino sentou-se na sala, tirou da mochila o caderno de apontamentos e um lápis, e começou a escrever cada frase proferida, numa caligrafia hesitante.

Aqui e ali olhava ainda para os pais, e descrevia minuciosamente os seus movimentos.

Escrevia. Escutava. Olhava. Recomeçava. E aquela sensação misteriosa apoderou-se novamente de si, uma espécie de alívio envergonhado que não era capaz de explicar.

Não sabia então que escrever é também uma forma de fazer certas coisas, se não desaparecerem completamente, pelo menos transformarem-se, tornarem-se quase belas.

PEQUENAS HISTÓRIAS PARA MENINOS COM NERVOS DE AÇO

5 06 2008

A velha

Já ninguém sabia a idade da velha. Sempre a tinham visto por ali, ao canto da sala, a olhar para a televisão com olhos de não ver.
Era, por assim dizer, como se fizesse parte da mobília e, com o tempo, passaram a ignorá-la por completo, geração após geração.
A velha não se importou nem um bocadinho, e continuou ali, ao canto da sala, a olhar para a televisão com olhos de não ver.
Aliás, se assim se pode dizer, a velha nunca se tinha sentido melhor.
Há muitos anos que ninguém a aborrecia, tantos quantos estava morta.

O mistério

Era uma criança hiperactiva, sempre a arranjar problemas na escola e em casa.
Depois de muito insistir, os pais ofereceram-lhe um cachorrinho, que cresceu rapidamente e se tornou tão hiperactivo quanto o dono.
A criança era muito cuidadosa, sobretudo quando iam à rua, mas um dia o cão fugiu-lhe mais uma vez, aproveitando uma pequena desatenção, e morreu atropelado mesmo à sua frente.
A criança chorou durante dias e jurou a si mesma que nunca mais ia querer outro cão.
Nos meses seguintes os pais ofereceram-lhe outros cães, mas também morreram todos, pouco tempo depois, de forma inexplicável.

Um sorriso doce

No caminho da escola para casa Marco veio pensando no que tinha contado na sala de aula sobre a sua família. A última promoção do pai no emprego, o sucesso do irmão mais velho com a sua banda de rock, a beleza da mãe… de tudo isso falara com entusiasmo. Era o seu primeiro ano naquela escola e ninguém ali o conhecia.
Foi andando, e pensando, e sentiu-se cada vez mais triste.
Quando chegou a casa os pais discutiam por causa do irmão que, mais uma vez, tinha levado a televisão para trocar por droga. O pai, desempregado há muito, estava notoriamente embriagado, gritava muito, e Marco pensou que não tardaria nada que ele batesse de novo na mãe.
Esgueirou-se para o quarto, ainda mais triste, mas a mãe viu-o e foi ter com ele, o cabelo despenteado, os olhos muito abertos injectados de sangue, e passou-lhe de leve a mão pela cabeça, com um sorriso doce no rosto, e voltou logo a seguir para a sala, onde a discussão continuou ainda mais acesa.
Marco ficou sozinho no quarto, feliz, no rosto um sorriso doce, tão doce quanto o sorriso que a mãe sorrira só para ele.

Promiscuidade e plasticidade nómada

Não queria deixar passar em branco este texto do Rui Costa sobre micro-ficção, sendo que a menor das razões é a de que sou aí citado. Promiscuidade e plasticidade nómada são sem dúvida as características que também mais aprecio na micro-ficção!
Abraço, Rui.

7 palavras

30 05 2008

[Prolongamento]
O amor fortalecia-os. A morte precisou esforçar-se.

o som das palavras

21 05 2008

Quero deixar aqui um obrigado ao Carlos Norton e ao Zé Matos. Espero que tenha sido tão bom para vocês como foi para mim! Revi há pouco o espectáculo em vídeo e a sensação de produto conseguido (ou de hora feliz) manteve-se. Confesso que fiquei com vontade de repetir a experiência.

20 05 2008

[integrado nos Encontros às terças do Texto-al]

seis palavras

15 05 2008

Em resposta a este irrecusável desafio lembrei-me primeiro de uma versão adaptada de algo que em tempos escrevi, e que me poderia definir,

Idiota a caminho de idiota completo.

mas depois regresso ao texto e percebo que se fala em pequena biografia, o que me parece diferente.

Nasci. Morrerei um dia. Entretanto vivo.

[Não vou nomear ninguém mas quem quiser pode considerar-se nomeado e continuar o desafio.]

A minha vaidade

9 05 2008

Escrevo por necessidade e dou a conhecer o que escrevo por partilha.

[ver outros lados da questão aqui]

OS MEUS DIAS

7 05 2008

[AS MINHAS LEITURAS]

Ler é algo que levo muito a sério. Leio todos os dias sem falta, pela manhã, que é quando sinto a mente mais aberta à alegria da leitura.

Levanto-me muito cedo e, depois de executar a minha higiene pessoal e tomar a primeira refeição do dia, leio até a fome me voltar, lá para o meio da manhã, altura em que interrompo a leitura, apenas o tempo suficiente para comer uma peça de fruta, e retomo-a depois sem mais pausas até à hora do almoço. São mais de quatro horas de leitura por dia, o que me parece perfeitamente adequado ao meu estado e à minha condição actuais.

Continuo a trazer livros para casa e a enchê-la com eles, como sempre fiz, mas os livros que leio são os mesmos há anos. Não conheço maior felicidade do que reler aqueles poucos livros que me agradam sempre mais a cada leitura.

[OS MEUS ALMOÇOS]

O almoço é sem dúvida a refeição a que dou mais importância, a única refeição do dia em que preparo realmente alguma coisa para comer e também a única em que me sento à mesa para comer.

No entanto, tal como as outras refeições, o meu almoço depende sempre do que tenha em casa, o que, por estes dias que correm, depende por sua vez do que tenha recolhido durante os meus passeios dos dias anteriores.

Hoje, por exemplo, é um bom dia, tenho um pacote inteiro de arroz carolino que me ofereceram ontem e um ramo de coentros que apanhei numa pequena horta no limite norte da cidade. Tenho também uma garrafa pequena de azeite meio cheia que trouxe comigo da última vez que me sentei num restaurante.

Nestas circunstâncias, o meu almoço adivinha-se pouco exuberante, mas há muito que aprendi que o apetite é o melhor dos temperos.

[AS MINHAS CONVERSAS]

Nos meus passeios gosto muito de conversar com os cães, os gatos e as pedras, ainda que com cada um deles por razões diferentes.

Os cães abrem muito a boca, abanam vigorosamente a cauda e às vezes até ladram, mas nunca me ignoram ou me olham com indiferença.

Os gatos deixam-me falar, silenciosos, atentos, como que dizendo-me que aqueles que escutam não são menos importantes do que aqueles que falam.

De todos, os melhores ouvintes são as pedras, ainda que as maiores escutem melhor que as mais pequenas e as mais redondas melhor que as pontiagudas.

Já com as flores raramente converso, aprecio muito a sua beleza mas não lhes suporto a tagarelice: têm sempre alguma coisa pouco importante para dizer e estão sempre dispostas a dizê-lo.

Escusado será dizer que nos meus passeios nunca converso com pessoas. Elas olham-me, cada vez mais, com um misto de indiferença e desconfiança.

[OS MEUS PASSEIOS]

Uma única preocupação rege os passeios que dou todas as tardes, a de que não tenham qualquer objectivo. Não quero com eles chegar a algum lado ou obter algum proveito. A única função que realizam é de ordem estritamente espiritual e tudo faço para garantir que assim continue.

Por esse motivo é que são todos diferentes no seu traçado, o mais possível, apesar de, por segurança e comodidade, serem em parte iguais a si próprios, pelo menos pela metade, uma vez que regresso sempre pelo mesmo caminho que me levou onde o acaso, apesar de controlado, me conduziu.

Verdade seja dita que sempre tive uma boa memória visual e um razoável grau de concentração, o que explica que nunca me tenha perdido e tenha sempre conseguido regressar sobre os meus passos.

Mas se no início o fazia com alguma dificuldade, hoje em dia passeio sem esforço e com autêntica felicidade.

[AS MINHAS NOITES]

As minhas noites são todas iguais: fico sempre em casa mas quase não durmo. É um problema que tenho há muitos anos, e para o qual não consegui arranjar outra solução a não ser aceitá-lo, e aproveitar as poucas horas que consigo dormir.

Como nunca sei quando o sono vai chegar, deixo-me ficar à espera dele quanto tempo for necessário, deitado na cama, imóvel, de barriga para o ar e com os olhos bem fechados.

Aprendi desta forma a identificar todos os ruídos que se produzem no meu bairro desde que o dia desaparece até que volta, pois a insónia abriu-me os sentidos e a memória das noites é-me muito mais viva que a dos dias.

Só não sei a que horas os ruídos se produzem, pois mantenho sempre os olhos fechados, mas conheço toda a sequência em que se produzem, como se fosse o próprio bater do meu coração.

rua do imaginário

25 04 2008

ligue-se!

A SUA MELHOR OBRA

22 04 2008

[ao Paulo Serra]

Está excelente. É a tua melhor obra.
Achas?
Nunca fizeste nada assim. É o melhor que já fizeste, e um dos melhores quadros que já vi.
Mas ainda não está acabado.
Para mim está mais que acabado.
Não, falta qualquer coisa.

A tela estava deitada no chão e o pintor ajoelhado a seu lado, como se rezasse, a cabeça baixa. O amigo, o único verdadeiro amigo que tinha, estava em pé à sua frente, e ambos olhavam o quadro.

Estás no pleno domínio da tua arte, este quadro diz isso. Conseguiste finalmente encontrar o equilíbrio que procuravas.
Equilíbrio?
Nota-se também no que dizes, na forma como falas da tua arte. Estás diferente. Estás melhor.
Organizei-me. Precisava fazê-lo.
Sim, e isso nota-se. Há um equilíbrio quase perfeito entre o que és e a tua arte.
Equilíbrio?

O pintor olhou para cima para o amigo e os seus olhares encontraram-se. Conheciam-se há muito tempo. Tinham aprendido a escutar-se um ao outro.

Estou mais sereno mas dificilmente chamaria equilíbrio a este meu novo estado.
Estás mais seguro.
Mais seguro?
Sim, mais seguro.
Talvez.

O pintor levantou-se e recuou dois ou três passos, sempre a olhar para a tela no chão.

É sempre tão difícil acabar um quadro.
Como é que sabes quando está acabado?
Quando está acabado eu sei! O difícil é chegar lá.
Mas não sabes o que queres fazer?
Não exactamente.
Não antecipas o quadro acabado?
Não. Não propriamente.

O amigo colocou-se ao lado do pintor e ficaram os dois durante algum tempo em silêncio, a olhar a tela. O dia estava a terminar e a luz entrava já a custo no atelier. O pintor continuava a olhar a tela.

Vamos beber uma cerveja?
Mais tarde.
Tens a certeza?
Tenho de acabar o quadro.
Pensei que concordavas comigo.
Como?
Pensei que tinhas concordado que estava terminado.
Não.
O quê?
Não está terminado.
Não?
Não, ainda não.

O pintor continuou a olhar o quadro, silencioso, imóvel. A tela no chão oferecia-se ao seu olhar, submissa, mas ele olhava-a como que assustado, desconfiado. O amigo olhou para o pintor, de uma forma não muito diferente daquela que o pintor olhava para a sua obra.

Olha que não te morde.
O quê?
Olhas para o quadro como se fosse um animal perigoso.

E sorriu, soltou mesmo uma pequena risada, mas o pintor manteve o mesmo semblante inquieto e não desviou nem por um instante o olhar do quadro. O amigo foi até à porta, acendeu a luz, e ficou a olhar o pintor.

É a tua melhor obra, disse finalmente, e saiu sem esperar resposta. Sabia que quando ele estava assim o melhor era deixá-lo sozinho. Ou terminaria o quadro ou abandoná-lo-ia, mas ia demorar. Já tinha estado noites inteiras à espera que ele acabasse um quadro. Mas quando ele conseguia acabá-lo, podia ser uma pequena pincelada, uma mancha de cor, ou até uma frase, o quadro ganhava subitamente sentido e brilhava como uma estrela recém-nascida. Mas daquela vez o quadro parecia-lhe acabado, e o mais certo é que o amigo acabasse por desistir.

Dobrou a primeira esquina a seguir ao largo e entrou no café onde iam muitas vezes os dois beber uma cerveja. Numa das mesas estava um amigo que morava ali perto, também escritor, companheiro de copos e de tertúlias.

Vieste visitar o teu amigo pintor?
Sim, saí mesmo agora do atelier.
Como é que ele está?
Está bem, as coisas estão a correr-lhe melhor. Está a começar a ser reconhecido.
Gosto do que ele faz.
Está cada vez mais no domínio da sua arte.
Os quadros dele são bastante obsessivos, não são? E ele então, é melhor nem falar.

Estavam os dois a beber cerveja e davam longos golos pelas garrafas, como que pontuando cada frase com um silêncio líquido.

A ligação entre a vida e a obra é nele muita íntima e intensa. Como em todos os grandes artistas! Não concordas?
Claro. A técnica por si só pode produzir boas obras, mas para uma obra excelente é preciso algo mais.
Havias de ver o quadro que acabou de pintar. Excelente. A sua melhor obra.

E pediram mais duas cervejas, e falaram de literatura, e mudaram de sítio, e continuaram a beber cerveja e a falar de literatura. Só muito mais tarde o escritor voltou a lembrar-se do seu amigo pintor.

Teria acabado o quadro?

No exacto momento em que o amigo se interrogou, que a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção, o pintor levantou-se decidido, sacudindo a sua imobilidade, e dirigiu-se a uma bancada perto da janela, de onde retirou uma navalha que usava habitualmente, sempre que era necessário raspar ou cortar qualquer coisa.

Trouxe-a fechada na mão até ao pé da tela e voltou a ajoelhar-se.

Olhou ainda mais uma vez a tela e mais uma vez percebeu que sabia como acabá-la. Sabia o que faltava. Seria sem dúvida a sua melhor obra.

Abriu a navalha, cortou os pulsos sem hesitação e suspendeu-os à sua frente, à altura do peito, o sangue a derramar-se sobre a tela.

Faro, Abril de 2008
Luís Ene

[publicado aqui]

8 04 2008

Sigam-me

Volto já

12 03 2008

Há ainda tantos livros que quero ler.

pequenas histórias viciadas 2 e 3

10 03 2008

[O próximo tema da Minguante é Vícios. A Minguante é uma revista de micronarrativas e uma das mais citadas é O Dinossauro de Monterroso, apenas com sete palavras. Por tudo isto, escrevo estas pequenas histórias viciadas. As duas de hoje são para o Fernando, mestre das pequenas histórias debochadas.]

COERÊNCIA

Profissão: percussionista. Desporto preferido: ténis. Vício: masturbação.

TEMPOS MODERNOS

Para poupar tempo fodia sempre de pé.

7 03 2008

Quem me conhece sabe que sou mais do tipo de gostar de quebrar correntes, mas, vinda de onde vem e porque é sexta-feira, vou passar o prémio a sul, pelas manas, pelo António, pelo asulado e pelo Helder.

Big Ode #4

6 03 2008

Afinal não foi preciso aguentar muito. A Big Ode #4 já canta e, deixem-me dizer, numa primeira impressão, que canta muito bem. Desde logo o formato, a que Rodrigo Miragaia chama de “formato paisagem”, e que funciona, além do mais, como um delicioso “trompe d’oeil”. Por outro lado, parece-me existir um evidente salto qualitativo do anterior número para este, ainda numa consideração da revista como objecto, por assim dizer. Quanto aos textos e às imagens, preferências e simpatias à parte, o nível geral parece-me alto. Curioso que a prosa, ainda que poética, tenha sido a preferência de grande parte dos autores. Assim e ainda que “à vol d’oiseau”, e hoje deu-me para o francês, não tenho dúvidas que a Big Ode # está excelente e se recomenda.

Chamou-me a atenção, entre outros, este pequeno texto de Mário Calado Pedro, que aqui deixo como “teaser”, e desculpem-me mas hoje deu-me para as línguas.

ELES (OS OUTROS)

Planeiam o paraíso enquanto esculpem o inferno em que se deixam viver.

4 03 2008

primeiro foi a vontade de ver/ler a antologia, agora é a vontade de ver/ler o número #4 da revista big ode. não sei se aguento.

pequenas alegrias do blogger

3 03 2008

uma etiqueta com o meu nome no sabor a sal

vozes de orquestra 3

A verdade é que a marimba nunca se está a marimbar, mas a fama ninguém lhe tira, as coisas são mesmo assim!

YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

[Mário Cesariny]

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente
as mãos e as palavras de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar!

vozes de orquestra 2

2 03 2008

Ora é trompete ora é trompeta, onde já se viu tal coisa, o mundo está perdido!

PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA

ainda não a tenho e estou cheio de curiosidade. o texto do Henrique não ajuda, ainda me deixa com mais vontade.

1 03 2008

a revista, mas também o espaço, a nova minguante, está aí. estou feliz. um abraço à margarida e ao fernando e a todos quantos colaboraram.

a propósito de “escrever bem”

O que acontece quando douramos um cagalhão é que ele não deixa por isso de ser um cagalhão mas, ao mesmo tempo, também já não é um cagalhão de verdade.

Vozes de orquestra

29 02 2008

Mas o que se passa com o contrabaixo? Para além de baixo ainda é do contra!

O Último dos Portugueses

27 02 2008

[volto a este conto que já quase esquecera e que vai ficar aqui durante algum tempo, dando conta do cansaço que sinto por estes dias em relação a Portugal e aos portugueses, a mim me incluindo.]

Sebastião José de Oliveira Portugal já não se encontra entre nós. A sua morte, anunciada pela primeira vez há dois dias, foi hoje confirmada oficialmente. O último dos portugueses, como foi popularizado pelos meios de comunicação nos últimos meses, entra assim na lenda.

Conheci bem Sebastião José de Oliveira Portugal, e posso dizer que fomos bons amigos. Também posso dizer que muitas vezes o admirei e o invejei, como quando decidiu ir viver para Portugal, há pouco mais de um mês, onde acabou afinal por morrer. Era um homem de muita coragem, de muita ousadia. Um português.
Penso que não houve um único português no mundo que não se tenha sentido ultrajado como a sua decisão; mas também tenho a certeza que não houve no mundo um único português, dos muitos espalhados pelo mundo, que não o tenha invejado. Portugal é uma questão que cada português tem consigo mesmo. Uma questão nunca resolvida. Um remorso de todos nós.

Veio visitar-me dias antes de ir para Portugal, não para me pedir conselho ou tentar convencer-me da justeza da sua posição, mas apenas para se despedir de mim. Durante anos mantivemos intermináveis conversas, quase sempre regadas com um raro e precioso vinho português, paixão antiga que nos unia. É verdade que agora éramos todos ricos, estupidamente ricos, mas os vinhos portugueses eram cada vez mais raros e, para além de custarem pequenas fortunas, a sua obtenção exigia complicadas manobras de troca de favores e de influências, no que continuávamos peritos ainda que cada vez menos portugueses.

Não posso dizer que não fiquei admirado com a sua decisão, muito pelo contrário, fiquei muito admirado; quer por a ter tomado, quer por a ter mantido, pois estou certo que o seu prestígio não teria saído beliscado se tivesse oportunamente voltado com a palavra atrás. É claro que o sabia dado a bravatas e a tresloucados entusiasmos. Afinal corria-lhe nas veias o melhor sangue português, povo sempre dado a heróicos exageros e a teimosias desmedidas.

Sebastião José de Oliveira Portugal descendia de uma longa linhagem de políticos que era fácil seguir no tempo muito para lá da Evolução dos Cravos. Os seus antepassados nunca tinham feito nada a não ser dedicarem-se à vida política, e a Portugal. E ele não era em nada diferente dos outros.
Segundo me contou então — numa narrativa cheia de fantásticos pormenores e prolongadas gargalhadas, como era seu hábito – não tinha tido outra alternativa.

O que é que eu podia ter feito? Não tive outra alternativa. Preciso ir para Portugal. Só assim posso mostrar a todos os portugueses o que é afinal ser português nos dias de hoje. Ser português é, hoje e sempre, ter tomates. E eu tenho-os.
Tudo isto acompanhado de gestos largos e de um enorme sorriso, só interrompido para declarar com grave sonoridade que não se pode viver direito quando se tem a espinha torta.
O desgosto. O remorso. Disse ainda, e ambos repetimos como se rezássemos. O desgosto. O remorso.
É claro que a versão que correu, caricatural e pouco digna, foi muita diferente, mas é preciso não esquecer que Sebastião de Oliveira Portugal era um dos mais poderosos líderes da oposição, e as coisas são mesmo assim, a cada um a história que mais lhe convém. Mas ele era um grande português e quanto a isso não existem quaisquer dúvidas.

Tudo aconteceu num almoço para o qual tinha sido convidado pelo Primeiro-ministro de Portugal, no aniversário do acontecimento que transformou Portugal naquilo que é hoje, o país mais rico e mais singular do mundo, e que é apelidado vulgarmente pelos portugueses como o segundo milagre de Fátima, dado que os primeiros acontecimentos tiveram lugar nessa mesma região. Mas é desnecessário contar aquilo que todos sabem, e o melhor é contar os factos menos conhecidos que se verificaram no decurso do referido almoço comemorativo.

O incidente terá começado quando Sebastião José de Oliveira Portugal recusou o prato de bacalhau, o que não passou despercebido quer aos vários membros do governo quer ao próprio Primeiro-ministro. Sebastião José de Oliveira Portugal terá não só recusado que lhe servissem bacalhau como terá dito, alto e bom som, que como português que ainda se considerava, apesar de tudo, não se prestava àquelas palhaçadas com símbolos nacionais.
É claro que estava a ser excessivo, e até injusto, mas ele era bastante hábil na criação destes incidentes, e sabia-os não só criar na perfeição como tirar deles o máximo partido. A sua carreira política está cheia de pequenos e deliciosos incidentes, aproveitados sem qualquer pudor ou remorso. Entre amigos ele dizia sempre que era a forma mais portuguesa de fazer política. E ria-se muito. Adorava estar na oposição. Era muito mais divertido e dava muito mais luta.

Como todos sabem, há muito que a pesca do bacalhau foi proibida, afirmando-se no entanto que a espécie se encontra extinta. Seja como for, um bom bacalhau seco e salgado é coisa do passado, como o proverbial atraso português e a sua atávica pobreza. Ou a muita coragem dos portugueses, isto se quisermos recuar muito mais no tempo, diria Sebastião José de Oliveira Portugal.
O dito prato de bacalhau, diz-se, tinha sido ideia do próprio Primeiro-ministro, e muitos estariam disposto a declarar que era uma das suas melhores ideias dos últimos anos. Uma ideia bem portuguesa, aliás. Um prato composto por soja preparada e moldada em forma de posta de bacalhau, cercada por puré de batata e coberta de maionese, prestava assim homenagem ao mítico Bacalhau à Zé do Pipo. Muito saboroso, excelente, delicioso e requintado, como afirmaram, para quem quis ouvir, aqueles que o comeram, protestando, não contra o prato, mas contra a declaração de Sebastião José de Oliveira Portugal. E se é verdade que tal poderia ser interpretado como uma mera afirmação política, sem méritos gastronómicos, o mesmo se pode dizer da afirmação bombástica de Sebastião José de Oliveira Portugal, que nem chegou a provar o dito prato. Mas, como ele disse, era uma questão de princípio, e não de sabor. Há muito que se tinham perdido os valores nacionais, e Portugal não passava de uma anedota, como o provava mais uma vez aquele triste travesti de bacalhau.
Entre ditos jocosos, vivas e vaias, o Primeiro-ministro, com a sua cara de pau habitual, para utilizar uma expressão de Sebastião José de Oliveira Portugal, perguntou-lhe porque não ia ele viver para o seu país, pergunta que foi considerada despropositada e inoportuna, mas teve o condão de mergulhar o salão no mais completo silêncio. Por isso ainda mais sonora e dramática soou a voz de Sebastião de Oliveira Portugal quando anunciou que iria viver para Portugal.
Durante meses não se falou noutra coisa, tendo o incidente sido esticado até para além dos seus limites máximos. E quando parecia que nada mais havia a fazer a não ser esquecer o incidente, Sebastião José de Oliveira Portugal partiu, entre vivas e vaias, deixando todos de boca aberta. Seria o primeiro habitante de Portugal desde há muitos, muitos anos, como se usava dizer nas histórias que se contavam às crianças.

Estás maluco? Em Portugal nada funciona. O que vais lá fazer?
Ele riu-se e disse entre gargalhadas que em Portugal nunca nada tinha funcionado. O que não tinha impedido que durante muitos séculos Portugal fosse habitado.
Mas é perigoso. Pode ser perigoso.
Ele parou de rir, levou à boca a taça de vinho do Douro, um Batuta de valor incalculável, sorveu delicadamente um gole, bochechou com vigor e finalmente bebeu-o com visível deleite. Depois não disse mais nada e ficou a ouvir com atenção a música que eu colocara para ele, soltando aqui e ali gargalhadas abafadas.

Há muitos anos que ninguém vivia em Portugal.
Os portugueses, tornados imensamente ricos pelo segundo milagre de Fátima, tinham saindo a pouco e pouco de Portugal, até não restar um só. O país estava fechado. Há muito tempo.
Na altura falou-se em perigo iminente. Disse-se que o que trouxe a riqueza aos portugueses traria também a morte ao país. Disse-se que nenhum outro país teria tomado aquela decisão, que nenhum outro país teria aceitado essa situação. Mas a verdade é que nenhum outro país teve essa oportunidade. Fosse como fosse, perigo efectivo ou destino dos portugueses de se espalharem pelo mundo, o certo é que o país estava vazio, encerrado para sempre, e os portugueses encontravam-se definitivamente espalhados pelos quatro cantos do planeta.

Sebastião José de Oliveira Portugal ia ser o primeiro português a voltar ao seu país desde há muito anos. Tentaram-no impedir das mais diversas formas, e isso deu-lhe ainda mais vontade de ir. Era um homem teimoso e de muita coragem. Um verdadeiro português. Naquele dia, quando saiu de minha casa, levava consigo a alegria do vinho, a alegria de ser português e a alegria de voltar a Portugal.

Voltei a colocar a canção e ouvi-a mais uma vez até ao fim. O último dos portugueses estava morto.

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

hoje…

26 02 2008

hoje, entre as sete e as oito, estarei à conversa na Rua com Rogério Silva, a propósito do seu livro de contos Fonte Salgada. Devo confessar que, tal como Teresa Rita Lopes, fiquei assovacado com a obra, e de nada me adiantou não saber o significado da palavra.

7 palavras

20 02 2008

[uma vida]

Muito tempo depois, chegou finalmente a si.

[inquietação]

Cedo percebeu que podia ir mais além.

[…]

19 02 2008

E então ouviu-se um som estranho, desconhecido, improvável, mas, no entanto, familiar, como quando julgamos descobrir um antigo amigo de infância num estranho. Todos se voltaram para a origem do som, junto à porta de entrada do anfiteatro, mas apenas viram um homem saindo apressadamente da sala, e seria impossível dizer se fora ele que produzira tal som e como o produzira. O orador quis continuar mas não se lembrava em que ponto do discurso ia, e ficou a olhar a folha à sua frente com surpresa. Nos rostos de muitos dos presentes reinava o espanto, os olhos e as bocas muito abertas, mas a maior parte estava séria, o cenho franzido, ainda que aqui ali algumas bocas parecessem tremer na recordação de um movimento há muito esquecido e, de repente, muitos sorriram, aqueles sorrisos tristes que todos sorriam, sorrisos de bocas esticadas e olhos parados e tristes. Se pudessem, se soubessem, certamente que ririam uns dos outros, ao verem-se assim, mas já ninguém ali era capaz de rir. Na verdade, já ninguém ali era capaz de reconhecer um riso, uma gargalhada solta e ruidosa como aquela que ainda há pouco se fizera ouvir.

[Grande merda, resmungou o homem ao mesmo tempo que se precipitava para a saída. Grande merda, resmungou ainda, e perdeu-se na multidão que enchia o átrio, o seu rosto tão sério como todos os outros rostos sérios que se repetiam numa expressão que era uma mistura de respeitabilidade e tédio. Aproximou-se do balcão da cafetaria e pediu um café e um queque de aveia, pedido que foi satisfeito com eficácia pela mulher loura vestida de um branco luminoso que o atendeu. As vozes de um e de outro, como todas que se ouviam, eram delicadas e inexpressivas, combinando na perfeição com as expressões vazias dos rostos.]

lido por aí

17 02 2008

Ele e o vizinho discutiam constantemente ao menor pretexto, insultavam-se com ameaças de morte à mistura. Por diversas vezes chegou a pensar em matá-lo, de mil maneiras possíveis. Passava-as em revista a todo o momento, procurando a mais dolorosa ou a menos incriminatória. A mulher, preocupada com aquela situação explosiva, conseguiu convencê-lo a acompanhá-la num longo retiro evangélico, durante o qual a oração e a meditação conseguiram esvaziar a ira do seu coração.
Regressou a casa com o propósito cristão de refazer a sua relação com o vizinho. Na manhã seguinte, quando dirigia o carro na cidade, viu o vizinho no passeio. Este, ficou muito perturbado por vê-lo, trocou os pés e caiu sobre o alcatrão no preciso momento em que o seu carro estava a passar. Foi morte instantânea.
A polícia ainda não conseguiu arrancar dele, uma confissão sincera.

in Estrada de Santiago 15 Fevereiro de 2008

[a moral poderia ser a de que Deus escreve direito por linhas tortas?]

por falar em despir…

15 02 2008

lembrei-me do Fad’ Nu, que tive o prazer redobrado de ouvir e entrevistar sempre com prazer. Aconselho a audição de Verdes Anos.

STRIPTEASE

Despe
Despe o poema da rima
Despe o poema da métrica
Despe o poema do verso
Despe
Despe de tudo o poema

O que restar
(se alguma coisa restar)
não será a poesia

Ontem à noite

13 02 2008

Quem lê este blogue sabe que poucas vezes coloco aqui algum texto pessoal que não seja literário, no entanto, apesar de me agradarem as restrições como potenciadoras da criatividade, essa é sem dúvida a minha única forma de obediência para com elas. Dito isto, e porque fui desafiado a fazê-lo, deixem que lhes dê nota de um jantar que aconteceu ontem e juntou alguns dos participantes de uma oficina de escrita que coordenei no mês de Janeiro. A mão está feliz, vou deixar que ela escreva. Alterarei aqui e ali alguns factos, a maior parte das vezes sem qualquer intenção ou mesmo consciência, mas pretendo alterar pelo menos uma coisa, intencionalmente, mais que não seja para testar a atenção dos leitores, participantes ou não do referido jantar. Dispensarei comentários à comida, deliciosa segundo todos, afrodisíaca segundo alguns, limitando-me a convidá-los a comerem no restaurante–bar Creoula, na rua do Alportel, em Faro, e a tiraram as vossas próprias conclusões.

Começo por referir que cedo o grupo se dividiu em dois, o que se deveu apenas ao tamanho da mesa. O tamanho, sabiam que eu ia dizer isto, é importante, o que foi apontado por alguns ao salientarem que o livro do Carlos era muito mais grosso que o livro do Tiago. Assim, enquanto um dos grupos discorria sobre temas sérios como o efeito da canela no comportamento sexual dos machos e a força das palavras terminadas em ão, como paixão, tesão e… beijão, ou como diziam alguns, b-jão; o outro grupo divertia-se com assuntos leves como o aquecimento global e a geo-estratégia.

Notei ainda que apesar de existir um justo equilíbrio entre o número de homens e de mulheres, só dois dos comensais, um homem e uma mulher, estavam entre duas pessoas de sexo oposto ao seu. Curiosamente ou não, enquanto o homem parecia tenso, a mulher apresentava-se descontraída e feliz.

Uma afirmação proferida no primeiro grupo e que devo realçar, pela sua importância, é de que se escreve sobretudo por falta de sexo, tendo um dos presentes garantido que apenas escrevia porque não sabia o que fazer com as mãos.

Foi um jantar agradável que recordo ainda e o meu corpo também, pelo menos agora de manhã, isto porque no final recebi uma massagem dada por uma profissional de nome Vânia (irmã desta outra) que faz há pouco tempo o percurso dos restaurantes a oferecer os seus serviços. É verdade que tive de esperar a minha vez, o que me trouxe alguma tensão adicional ao observar as expressão de puro deleite e mesmo de descarado gozo dos que primeiro beneficiaram da dádiva da sua massagem, mas valeu a pena, e o meu corpo ainda recorda o que bem que ela lhe fez.

Um abraço.

7 02 2008

e aqui também, como já referi

2 02 2008

Tinha-te perdido o rasto, digital, é bom que se diga

orgia

31 01 2008

sim, orgia, e aberta à participação

ecos

já me tinha esquecido deste texto sobre um livro do meu amigo Dennis D.

:)

27 01 2008

aqui

Exercício dum funcionário cansado

25 01 2008

um teclado uma mesa uma cadeira
um armário uma luz um lápis

Há um teclado preto e estreito
Há uma mesa de pernas altas e magras
Há uma cadeira de braços roliços
Há um armário alto e corpulento
Há uma luz duas vezes fluorescente
Há um lápis velho e gasto

Há um teclado de braços roliços
Há uma mesa duas vezes fluorescente
Há uma cadeira alta e corpulenta
Há um armário velho e gasto
Há uma luz preta e estreita
Há um lápis de pernas altas e magras

Há um teclado alto e corpulento de braços roliços
Há uma mesa preta e estreita de pernas altas e magras
Há uma cadeira velha e gasta duas vezes fluorescente

Há um armário alto e estreito de braços fluorescentes
Há uma luz velha e corpulenta de pernas roliças
Há um lápis preto e gasto duas vezes alto e magro