A Medida de Todas as Coisas

15 07 2008

Era um grande homem.
Um grande homem?
Sim, um grande homem! Tens dúvidas?
Um grande homem? — repetiu Artur, e riu-se — Olha que ele não ia gostar de ouvir isso, sobretudo vindo de ti.
José ia já começar a protestar, mas riu-se também, percebendo finalmente, e foi em uníssono que proferiram, em voz alta e entre mais gargalhadas.
Era um homem grande com o caralho.
E logo a seguir, ainda entre gargalhadas e ainda em uníssono.
Um homem do caralho!

E ficaram de repente sérios, ergueram os copos e saborearam o vinho, escolhido pelo Artur que, olhando-o em contraluz, os olhos semicerrados, lhe elogiou a cor, dizendo rubis os seus bordos e negro o seu coração.
Uma cor do caralho! — atalhou José, e riram de novo durante muito tempo.
O restaurante não estava cheio, mas também não estava vazio e, aqui e ali, algumas cabeças iam-se voltando, não só pelos risos estridentes e continuados, mas também pelos muitos sonoros caralhos que, a partir de certa altura, bem se podia dizer que era caralho para aqui e caralho para ali. Até o empregado de mesa, o mais antigo e respeitável de todos, entrou na dança, declarando convicto, quando lhe perguntaram se o robalo era fresco, que sim, que sim, que o robalo era fresco como o caralho. Estivesse se o restaurante mais a norte e não fosse tão luxuoso, talvez o facto não fosse tão invulgar, mas também, estou certo, nunca o deixaria de ser.
Há anos que jantavam ali, a espaços, primeiro os três e agora apenas os dois. Eram da casa, como se costuma dizer, e se antes ninguém os incomodava, muito menos agora, dado o carácter comemorativo do jantar, em que os dois, em memória do ausente, se empenhavam em falar como ele mesmo falava nos seus últimos anos de vida. E a verdade é que tudo começou por uma brincadeira.

Um dia, em que alguém dissertando a propósito de coisa nenhuma, se alongava em adjectivos e qualificações, ele resumiu tudo, calando-o de forma contundente.
Já percebi, é do caralho.
E foi apenas o princípio, pois rapidamente, e quase sem que o percebesse, se habituou a cortar qualquer longa e fastidiosa explicação com um taxativo Já percebi, é do caralho. E se no início lhe achavam piada, logo deixaram de lhe achar graça, o que ainda reforçou mais o seu hábito, e até o expandiu, tornando-se um vício de que nunca mais se livrou, esse de usar a palavra caralho a torto e a direito, o que ele mesmo admitia, quando o referiam, dizendo que estava cada vez pior, e que em quatro palavras que proferia cinco eram de certeza caralhos.
E era caralho para aqui e caralho para ali, de tal forma que, depois de morto, foi esse jogo que os seus maiores amigos, o Artur e o José, decidiram consagrar como tributo à sua memória, naquele mesmo restaurante onde tantas vezes haviam discutido durante horas, discussões pontuadas pelos muitos caralhos em que ele era pródigo e, talvez seja importante dizer, o único palavrão que se lhe ouvia, mesmo nos momentos de maior exaltação.
O tempo estava do caralho, o vinho era do caralho, tudo era do caralho ou, se não era do caralho, então, era como o caralho, o cabrito estava delicioso como o caralho, o serviço era lento como o caralho, aquela gaja era boa como o caralho.

Um dia, naquele mesmo restaurante, num dia em que estava cheio de gente importante, até um ministro, diz-se, o dono meteu-se com ele, em voz baixa e pausada, O senhor doutor desculpe-me, mas está sempre com o coiso na boca, até lhe fica mal. E logo ele lhe respondeu, de imediato, Qual coiso nem meio coiso, o caralho, quer você dizer! E ainda o outro se afastava, engolindo o riso, e eis que ele se levantava, pedia silêncio, e erguendo o copo e voz, dirigiu-se a toda a sala em tom apoteótico.

O caralho, meus senhores e minhas senhoras, o caralho, fiquem a saber, o caralho é a medida de todas as coisas.

3 Comentários »

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  1. Gostei do seu texto… e do leit motivo que faz dele um concerto !

    Comment by gballand — 15 07 2008 @ 4:09 pm

  2. excelente conto:)

    estas cada vez melhor:)

    vê lá é se publicas no nosso blog:P

    Tiago

    Comment by texto-al — 17 07 2008 @ 12:55 am

  3. Com que então ninguém vai dizer o óbvio? Este conto é do caralho!
    Abração, Luís.

    Comment by Santos Passos — 25 07 2008 @ 3:18 pm

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