O HOMEM ADORMECIDO
8 06 2008[para a Laura, esta pequena história que lhe contei, depois de a ter contado a mim mesmo na viagem que me levou até ela,]
O homem acordou e levantou-se de imediato. Tinha de ir… tinha mesmo de ir.
A cama ainda o tentou chamar à razão, disse-lhe que dormisse mais um pouco, que precisava de descansar, mas o homem não a ouviu, estava já a vestir-se e dali a pouco sairia para a cidade.
A cama, sem saber o que fazer, pediu a ajuda da camisa, das cuecas, das calças, das meias e dos sapatos do homem, pedindo-lhes que o fizessem voltar para a cama, que o convencessem a descansar mais um pouco, mas também elas não sabiam o que fazer, e quando tentaram falar com o homem, já ele saía de casa e se dirigia para o carro, determinado a ir. Tinha de ir… tinha mesmo de ir.
A camisa, as cuecas, as calças, as meias e os sapatos não se calavam, dizendo-lhe que faria melhor se ficasse em casa a descansar, que bem precisava, e que também para elas seria melhor se ficassem em casa, em vez de se sujarem, de apanharem suor e fumo. Mas ele não as ouviu, rodou a chave, pôs o carro a trabalhar e rumou para a cidade.
As roupas pediram então ao carro que fizesse alguma coisa, que o homem precisava de descansar, elas sabiam que ele precisava, a cama tinha-lhes dito, e nesses assuntos ela era perita, disso não tinham dúvidas, e falavam, falavam e falavam, mas o carro não sabia o que fazer e juntou-se ao coro, dizendo ao homem que devia voltar para casa e descansar, em vez de se ir meter em filas, intermináveis e desgastantes, num pára e arranca que não lhe fazia bem, mas o homem não o ouviu, assim como não ouvia a camisa, as cuecas, as meias e os sapatos que, verdade seja dita, não se calavam. E falavam, falavam, falavam todos ao mesmo tempo, enquanto o homem combinava o seu dia usando sem parar o telemóvel.
Foi então que uma voz se fez ouvir.
Eu sei o fazer. Eu sei o que fazer!
E todos a escutaram, menos o homem, que continuava a fazer os seus telefonemas. Eu sei o que fazer, Eu sei o que fazer, disse o telemóvel, e todos se calaram, menos o homem.
E o que é?, perguntaram-lhe todos em coro, E o que é?, disse o carro, disse a camisa, disseram as cuecas, as meias e os sapatos.
O que vais fazer?
Vão ver, vão ver, disse o telemóvel, e calou-se, e todos se calaram, menos o homem, que começou a gritar, muito zangado, porque o telemóvel não funcionava.
Mas o que é isto? Então o telemóvel agora não funciona? Não pode ser!
E homem parou o carro e tentou fazer mais chamadas, mas o telemóvel estava mudo e, por mais que o homem fizesse, assim continuou. Então o homem deitou contas à vida e decidiu continuar para a cidade, depois logo se veria.
Rodou a chave, uma e outra vez, mas o carro não pegou, estava como morto e pouco depois o homem desistiu de o tentar por a funcionar. Deitou contas à vida novamente e chegou mesmo a pensar se não deveria voltar para casa, que até estava perto, e deixar para amanhã a sua ida para a cidade, mas depois pensou melhor e decidiu continuar. Iria de táxi… mais tarde resolveria o problema do carro, e do telemóvel.
Tinha de ir… tinha de ir, disse a si mesmo, determinado, mas quando começou a dirigir-se para a praça de táxis sentiu que a roupa como que lhe encolhia, a começar pela camisa, e depois também as calças e, o que era pior, as cuecas e os sapatos.
Foi aí que decidiu finalmente voltar para casa, e foi a correr que o fez porque, por estranho que pareça, descobriu que quando corria a roupa quase parecia não lhe apertar, e só quando abrandava a sentia de novo a apertar cada vez mais.
E assim, num instante, o homem chegou a casa, despiu-se completamente e sentou-se em cima da cama a pensar, e pensou que devia vestir outra roupa, e começar tudo de novo, mas estava cansado, tão cansado que se deitou na cama e logo adormeceu.
Dizem que ainda dorme, mas o mais provável é que não seja verdade e há muito tenha despertado.

:-)
Comment by Cerejinha — 13 06 2008 @ 2:35 pm