PEQUENAS HISTÓRIAS PARA MENINOS COM NERVOS DE AÇO
5 06 2008A velha
Já ninguém sabia a idade da velha. Sempre a tinham visto por ali, ao canto da sala, a olhar para a televisão com olhos de não ver.
Era, por assim dizer, como se fizesse parte da mobília e, com o tempo, passaram a ignorá-la por completo, geração após geração.
A velha não se importou nem um bocadinho, e continuou ali, ao canto da sala, a olhar para a televisão com olhos de não ver.
Aliás, se assim se pode dizer, a velha nunca se tinha sentido melhor.
Há muitos anos que ninguém a aborrecia, tantos quantos estava morta.
O mistério
Era uma criança hiperactiva, sempre a arranjar problemas na escola e em casa.
Depois de muito insistir, os pais ofereceram-lhe um cachorrinho, que cresceu rapidamente e se tornou tão hiperactivo quanto o dono.
A criança era muito cuidadosa, sobretudo quando iam à rua, mas um dia o cão fugiu-lhe mais uma vez, aproveitando uma pequena desatenção, e morreu atropelado mesmo à sua frente.
A criança chorou durante dias e jurou a si mesma que nunca mais ia querer outro cão.
Nos meses seguintes os pais ofereceram-lhe outros cães, mas também morreram todos, pouco tempo depois, de forma inexplicável.
Um sorriso doce
No caminho da escola para casa Marco veio pensando no que tinha contado na sala de aula sobre a sua família. A última promoção do pai no emprego, o sucesso do irmão mais velho com a sua banda de rock, a beleza da mãe… de tudo isso falara com entusiasmo. Era o seu primeiro ano naquela escola e ninguém ali o conhecia.
Foi andando, e pensando, e sentiu-se cada vez mais triste.
Quando chegou a casa os pais discutiam por causa do irmão que, mais uma vez, tinha levado a televisão para trocar por droga. O pai, desempregado há muito, estava notoriamente embriagado, gritava muito, e Marco pensou que não tardaria nada que ele batesse de novo na mãe.
Esgueirou-se para o quarto, ainda mais triste, mas a mãe viu-o e foi ter com ele, o cabelo despenteado, os olhos muito abertos injectados de sangue, e passou-lhe de leve a mão pela cabeça, com um sorriso doce no rosto, e voltou logo a seguir para a sala, onde a discussão continuou ainda mais acesa.
Marco ficou sozinho no quarto, feliz, no rosto um sorriso doce, tão doce quanto o sorriso que a mãe sorrira só para ele.

histórias e meninos de aço…
abraço
Comment by joao — 6 06 2008 @ 8:38 pm
João, não queres ilustrar?
abraço
Comment by blogdapontamentos — 8 06 2008 @ 2:12 pm