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19 02 2008E então ouviu-se um som estranho, desconhecido, improvável, mas, no entanto, familiar, como quando julgamos descobrir um antigo amigo de infância num estranho. Todos se voltaram para a origem do som, junto à porta de entrada do anfiteatro, mas apenas viram um homem saindo apressadamente da sala, e seria impossível dizer se fora ele que produzira tal som e como o produzira. O orador quis continuar mas não se lembrava em que ponto do discurso ia, e ficou a olhar a folha à sua frente com surpresa. Nos rostos de muitos dos presentes reinava o espanto, os olhos e as bocas muito abertas, mas a maior parte estava séria, o cenho franzido, ainda que aqui ali algumas bocas parecessem tremer na recordação de um movimento há muito esquecido e, de repente, muitos sorriram, aqueles sorrisos tristes que todos sorriam, sorrisos de bocas esticadas e olhos parados e tristes. Se pudessem, se soubessem, certamente que ririam uns dos outros, ao verem-se assim, mas já ninguém ali era capaz de rir. Na verdade, já ninguém ali era capaz de reconhecer um riso, uma gargalhada solta e ruidosa como aquela que ainda há pouco se fizera ouvir.
[Grande merda, resmungou o homem ao mesmo tempo que se precipitava para a saída. Grande merda, resmungou ainda, e perdeu-se na multidão que enchia o átrio, o seu rosto tão sério como todos os outros rostos sérios que se repetiam numa expressão que era uma mistura de respeitabilidade e tédio. Aproximou-se do balcão da cafetaria e pediu um café e um queque de aveia, pedido que foi satisfeito com eficácia pela mulher loura vestida de um branco luminoso que o atendeu. As vozes de um e de outro, como todas que se ouviam, eram delicadas e inexpressivas, combinando na perfeição com as expressões vazias dos rostos.]
