Manoel de Oliveira
16 01 2008[actualizado em 17/01/2008 ]

Aconteceu-me ontem ler o meu Poema para Manoel de Oliveira ao próprio Manoel de Oliveira, situação que me embaraçou um pouco, sobretudo quando me apercebi que me dirigia a ele por tu. A história conta-se em poucas palavras. O Afonso Rocha, artista plástico e meu grande e velho amigo, concebeu uma série de três gravuras para três cineastas (Woody Allen, Sergei Einsenstein e Manoel de Oliveira) e pediu-me para lhes acrescentar (por assim dizer) três poemas, o que fiz, depois de lhe jurar a pés juntos que era incapaz de o fazer. Pois bem, foi esse terceiro poema que li ontem. E já que estou em maré de confidências, deixem-me dizer-lhes que faz quase um ano que eu e o Salvador Santos temos um programa na Rua, o Rua do Imaginário, todas as terças-feiras, entre as sete e as oito, que pode ser ouvido on line. E… já agora, também isto. E os poemas, claro.
3 Poemas para 3 cineastas
Se há uma razão porque consigo falar sobre tudo
é porque falo sempre de mim mesmo.
Poema para Woody Allen
Recordo-me do que acontecia
quando ia ao cinema e gostava muito:
saía da sala e o filme continuava cá fora.
Aconteceu-me com muitos
dos teus filmes: sair da sala
e ver o mundo com o olhar
de um judeu nova-iorquino,
ao mesmo tempo sábio e neurótico.
Então apaixonava-me
por mulheres belas e misteriosas
tão depressa como as esquecia;
e pensava continuamente em sexo e na morte de Deus,
e tinha uma vontade incontrolável
de consultar urgentemente um psicanalista.
Conheço-te muito bem,
senti muitas vezes como tu sentiste,
e estou certo que a ti te aconteceu o mesmo,
com Fellini e Bergman.
Poema para Sergei Eisenstein
Se me perguntarem por ti, dir-te-ei
um enorme cineasta
e saberei apontar o nome de,
pelo menos,
dois ou três dos teus filmes.
Recordar-me-ei também
de algumas cenas emblemáticas,
que julgo até ter visto desmontadas,
por assim dizer, exemplificando
o teu modo de fazer cinema.
E em alguns livros devo ter lido
sobre ti e o teu cinema, quando agia
como um cinéfilo, mesmo não o sendo
verdadeiramente.
Mas os teus filmes, que vi na adolescência,
quando este velho país rejuvenesceu,
confundem-se-me sempre com a vida que então vivi.
Por isso, e só por isso, não os voltei a ver.
Poema para Manoel de Oliveira

Foi ao ver um dos teus filmes que percebi,
pela primeira vez,
que o cinema podia ser igual à vida,
mover-se com a mesma desesperante e comovente lentidão.
Não me lembro do nome do filme,
mas era baseado num célebre romance
de um escritor português e, a certa altura,
um homem entrava a cavalo numa casa
– seria o actor Diogo Dória? –
e ficava para ali a olhar para nós,
em tempo real, sem que nenhuma elipse
diminuísse o nosso aborrecimento.
Mas isso foi há muito tempo,
eu era jovem e inquieto,
desculpa-me;
desde então aprendi
a amar os teus filmes.

Foste? Tive pena de não ter ido. Leste para ele ou para o público? E ofereceste-lhe o poema? Foi giro? Conta…
Comment by sara monteiro — 16 01 2008 @ 11:29 am
Olá Sara, li para ele diante de um pequeno público, no átrio do auditório, após a cerimónia de atribuição do doutoramento honoris causa. O Afonso ofereceu-lhe a gravura e eu o poema manuscrito, que depois li. E jantei depois com ele, ainda que tenha ficado a uns cinco metros dele
Beijos
Comment by blogdapontamentos — 16 01 2008 @ 2:48 pm
Foi mesmo pena não ter podido ir, gosto do Manuel de Oliveira e admiro a sua boa forma física.
Comment by sara monteiro — 16 01 2008 @ 4:10 pm
Ola! entrei por mero acaso neste blog, mas ainda bem que entrei!
Bom, eu tive o privilegio de ‘lidar’ com o Manoel de Oliveira, durante o meu estagio em Porto Santo, e apenas posso dizer, que ele é um Senhor! Fantastico! Adorei conhece.lo!
Comment by marta — 10 02 2008 @ 11:36 pm
olá marta, fiquei com essa mesma impressão, de que ele era um Senhor. obrigado pela partilha.
Comment by blogdapontamentos — 11 02 2008 @ 5:59 pm