Dois livros, duas escritoras, uma só interrogação (3)

2 02 2007

A Disciplina do Amor ora aparece designado por ensaios ora por fragmentos, o que sublinha a estranheza deste livro e a dificuldade em classificá-lo. Nele, Lygia Fagundes Telles escreve-se e multiplica-se num conjunto de fragmentos aparentemente em desordem mas que no conjunto parecem seguir uma linha clara, uma disciplina, a do amor à escrita, à literatura. E é assim que os fragmentos, ora apenas datados ora apenas titulados, são soltos na página e se organizam na obediência a esse amor, a essa disciplina, que é o próprio acto de escrever e de escrever-se. São pequenos contos, crónicas, confissões, apontamentos pessoais, memórias, talvez fragmentos de romances, que dizem da escritora e do seu amor pleno pela vida e pela literatura, afinal talvez o mesmo amor, disciplinado pelo acto de escrever. É a própria escritora que, já o livro vai a mais de meio, responde a uma das dúvidas que este livro levanta: “E eles têm alguma ligação entre si?” – perguntou-me A M. Respondi-lhe que são fragmentos do real e do imaginário aparentemente independentes mas sei que há um sentimento comum costurando uns aos outros no tecido das raízes. Eu sou essa linha.

(a continuar)

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