da literatura
19 01 2007
I
Antes, toda a sua vida lhe parecia desperdiçada: aborrecia-se, zangava-se, amargurava-se e queixava-se constantemente da vida. Agora, sabe que tudo o que vive, tudo o que em si descobre e sente, é matéria-prima pronta a ser usada: aborrece-se, zanga-se, amargura-se, escreve, e mil vezes agradece à vida.
II
Há pessoas que falam sozinhas e há pessoas que falam consigo próprias, não são as mesmas pessoas, dizias-me, e eu concordava contigo, mas a verdade é que ainda hoje não vejo a diferença.

As pessoas que falam sozinhas não se ouvem a si próprias, não conseguem sair de si próprias, os seus pensamentos não são dialécticos. As pessoas que falan consigo próprias establecem diálogos interiores, esaem de si próprias desse modo.
Comment by maria joão — 20 01 2007 @ 3:37 pm
:)
Luís
Comment by blogdapontamentos — 20 01 2007 @ 3:49 pm
quando alguém fala é para se ouvir, primeiro que tudo, para ouvir…
falar sozinho é (sempre?) falar consigo, consigo próprio.
eu falo sozinho (comigo)
Comment by joao — 22 01 2007 @ 10:12 pm
Curiosa questão. Eu diria que, falando sozinho, imagino um interlocutor ausente; ao passo que, para falar comigo próprio, talvez me socorresse dum espelho (pelo menos das primeiras vezes). A despropósito, uma micro-história que ouvi sem querer. Parece que Fernando Pessoa (que às tantas podia falar sozinho e consigo próprio indistintamente, graças ao truque dos heterónimos…) escreveu um dia que Álvaro de Campos escrevia ‘razoavelmente mas com lapsos como dizer “eu próprio” em vez de “eu mesmo”‘. Muitos anos depois, o engenheiro naval (ainda com uma réstia de indignação recalcada) lá arranjou maneira de aceder ao Ciberdúvidas para tirar a calúnia a limpo. Cauteloso, preferiu identificar-se como um certo Manuel Rodrigues (nome insuspeito), “engenheiro técnico agrário”. E não é que tinha razão?
Comment by Carlos Tijolo — 24 01 2007 @ 12:12 am
CT, curioso o que dizes, além do mais porque em regra escreveria “consigo mesmas”, mas desta vez resolvi fazer uma concessão à maioria que prefere “consigo próprias”.
Luís Ene
Comment by Luis — 24 01 2007 @ 11:15 am