Ser capaz

23 04 2006
1

Tu és capaz, disse a voz sem corpo na escuridão, e ele acordou
sobressaltado
acendeu a luz da mesa-de-cabeceira, e ficou a olhar em volta, como se esperasse encontrar de repente o autor da voz que mais uma vez lhe falara no seu sono. Mas sabia muito bem que só quando dormia ouvia aquela voz que lhe dizia que era capaz. Capaz de quê? Era capaz de poucas coisas, e todas elas lhe pareciam inúteis. Como por exemplo contar histórias. Era capaz de contar histórias e escrevê-las, mas de que lhe servia isso?

2

Tu és capaz, disse a voz sem corpo na escuridão, e ele virou-se, sobressaltado, na direcção da voz, mas não viu ninguém. Estava escuro, é verdade, mas se ali estivesse alguém ele devia ver um vulto, um lampejo de algo. Forçou a vista o mais que pôde, e acordou
de olhos muito abertos
no pequeno quarto atulhado de livros. A luz da mesa-de-cabeceira estava acesa. Apagou-a, voltou-se sobre o coração e adormeceu.

3

Tu és capaz, disse a voz sem corpo na escuridão, e ele abriu os olhos e
não via nada
não ouvia nada, mas sentia como que uma aragem que lhe despenteava de leve os cabelos, e seguindo essa sensação ouviu de novo a voz que lhe dizia agora, Confia em ti, só precisas confiar em ti. E então, de repente, viu à sua frente uma porta fechada, e tentou caminhar para ela mas não conseguia mover-se. Disse então a si mesmo, nem chegou a perceber porquê, Eu sou capaz, e não só conseguiu finalmente dar um passo, como a porta se abriu à sua frente.

4

Acordou, estava de volta ao quarto, era de dia, a luz entrava pela janela. A porta estava aberta e ele admirou-se. Costumava sempre fechá-la. Levantou-se, foi até à porta e fechou-a. Nesse exacto momento ouviu uma voz que parecia vir do outro lado.
Tu és capaz
E sobressaltou-se, a mão ainda no puxador da porta. Abriu-a de repente, mas não estava ninguém. Percorreu a casa vazia, demorou-se na casa de banho, e voltou para o quarto. Ainda era cedo, deitou-se outra vez e adormeceu.

5

A porta à sua frente parecia abrir-se para a noite. Por mais que olhasse não via nada. Parou à beira daquele vazio, fechou os olhos e apurou o ouvido. Não sem surpresa, uma voz cresceu nesse nada e disse
Eu sou capaz
E ele avançou, de olhos fechados, com a sensação de se precipitar no vazio. Avançou dois ou três passos, cuidadosamente, e abriu os olhos. Estava no corredor, em frente à porta da casa de banho. À sua direita estava a sala. Voltou-se e entrou no quarto, fechou a porta, correu as persianas, e deitou-se outra vez. Ainda era cedo, precisava de descansar.

6

Tu és capaz, disse a si mesmo, e tentou
mais uma vez
adormecer.

Comentários »

The URI to TrackBack this entry is: http://blogdapontamentos.blogsome.com/2006/04/23/ser-capaz/trackback/

No comments yet.

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment

Line and paragraph breaks automatic, e-mail address never displayed, HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>