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16 03 2006(para a Heloísa)
Umas vezes diz-se o que se fala, outras fala-se o que se esconde. Umas vezes revela-se e outras vezes cala-se não se sabe bem o quê. E é esse não sei o quê que se sempre diz e se cala. Escrevo e sou publicado, e admirado, há mais de vinte anos, e tudo o que escrevi foi esse não sei quê que sempre disse e calei. Escrevo de ouvido, sempre assim o escrevi, e algumas vezes cheguei a dizê-lo, mas ninguém me acreditou. Não escrevo com especial esforço, não escrevo e reescrevo como se a minha vida dependesse disso. Não faço, nunca fiz, qualquer pesquisa ou de outra forma preparei a escrita dos meus romances. Limitei-me a escrevê-los. Da mesma maneira que desconheço o que escrevo, como escrevo e por que escrevo, a não ser que os meus romances são o não sei quê que escuto. Escrevo o que escuto, escuto-me ou escuto alguma coisa. Escuto. Escrevo. Tal e qual como não preciso conhecer ou controlar os processos orgânicos do meu corpo para estar vivo, para viver. É assim que escrevo, e reescrevo, ouvindo, tentando ouvir, escutando, tentando escutar o melhor possível. É assim que tenho escrito o não sei o quê que sempre escrevo. Sei que ninguém vai acreditar no que digo mas pouco me importa. Da mesma forma que escrevi os romances que todos admiram e respeitam, escrevo agora este breve apontamento que, após a minha morte, será encontrado lido e ignorado, como o não sei o quê que esconde e revela.
[texto encontrado após a morte do escritor em cima da sua secretária e que se presume fazer parte de um conjunto de notas para o romance que se encontrava a preparar.]

Gostei muito desse não sei o quê…:)
Comment by Heloisa — 16 03 2006 @ 4:14 pm