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9 03 2006(para o Afonso)
Isto é um jogo, Um verdadeiro jogo, Devias escrever algo sobre isto, foi o que ele me disse então, e eu quase concordei, mas nem por um segundo pensei em escrever o que quer que fosse sobre o que ele tinha para me dizer, enquanto ele me ia repetindo a mesma afirmação, como se essa simples repetição fosse capaz de me convencer, É um jogo, Um verdadeiro jogo, Dava um conto, Talvez até uma novela, e eu estive quase a responder-lhe que só escrevo ficção, nunca poderia escrever sobre aquilo, pelo menos não da forma como ele o via e me estava a tentar contar, seria sempre outra coisa, e melhor seria então que ele próprio o escrevesse, mas, por esta altura, já não o ouvia, via-lhe o rosto tenso, sentia-lhe a perturbação, e começava a sentir em mim mesmo uma estranha vontade de concordar com ele, ou apenas de ouvir a sua história, nem sei, e dei por mim a pensar que seria até um bom título se não houvesse já um romance, de um italiano, com esse mesmo nome, Devias escrever algo sobre isto, disse a mim mesmo ou foi ele que o repetiu, já nem sei e nem então o soube, Isto é um jogo, sim, estou completamente de acordo, podia ter acrescentado, escrever é um jogo, mas sou eu que fixo as regras, sou eu que jogo e sou eu que decido se vou jogar, escrever é um jogo solitário que jogo por mim e pelos outros e, agora que estou a escrever, a repetir o que então ele me disse e o que então eu pensei, fico na dúvida se não me estou a enganar, se não estou afinal a escrever sobre o que ele me pediu para escrever, porque a excitação, a hesitação, a angústia que nele então li, eram aquilo que ele tinha para me contar, ou nada mais eram do que aquilo sobre que eu poderia escrever, porque a verdade é que eu não escrevo sobre os factos mas sobre o efeito que esses factos exercem, sobre a forma como eles são vistos e sentidos, e não como eles são, Isto é um jogo, Um verdadeiro jogo, Devias escrever sobre isto, isto escrevi eu, e continuei a escrever, não sei bem sobre quê, talvez tenha afinal escrito sobre aquilo que ele me disse, ainda que em nada se pareça, a não ser, talvez, na mesma excitação, hesitação e angústia com que me escrevi.

Adorei este texto. Não só pelo conteúdo, mas pela forma em que foi escrito. Fluxo de pensamentos sem finalizações. Indagações sem respostas únicas ou definitivas. Não será isso a literatura? Um beijo grande.
Comment by Heloisa — 11 03 2006 @ 10:30 am
Uma indagação, uma procura, mas ao mesmo tempo um vaguear, um andar à volta de. Você é uma querida, Heloísa, o melhor leitor que se pode ter, atenta, inteligente e elogiosa.
um beijo grande
Comment by Administrator — 13 03 2006 @ 7:22 am