Escrever-me

22 01 2006

“Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus. É preferível para a alma humana fazer maus versos, a não fazer nenhum. O exercício da arte poética é sempre um esforço de superação e, assim, o refinamento do estilo acaba trazendo a melhoria da alma”.

Mário Quintana

Escrevi em tempos que o autor se escreve para que o leitor se leia, e, muito mais do que uma resposta, esta frase encerra várias questões para as quais continuo sem solução. Referia-me, é claro, ao que é importante escrever e ao que é importante ler.

O autor escreve-se porque escreve a partir da sua experiência mas também porque nesta tarefa se escreve a si mesmo, como que se constrói ou reconstrói pela escrita. Nesta medida talvez se possa dizer que o escritor se escreve para se ler. Assim, para além da óbvia interpretação literal, que o escritor escreve para ler o que escreve, também se poderá dizer que ele escreve para se iluminar, para se ver com maior clareza.

E se a reflexão sobre a escrita é um dos meus temas ou, como preferiria Raymond Carver, uma das minhas obsessões, talvez a explicação mais fácil para isso seja a de que nunca consigo obter respostas satisfatórias nesta matéria, não me restando outra opção a não ser continuar a interrogar-me. Assim, não se admire o leitor que este texto que agora escrevo levante mais perguntas do que dê respostas.

Há dias, num programa de televisão, um homem dizia que a escrita, de poemas, lhe tinha permitido crescer, o tinha feito aceitar-se cada vez mais como pessoa e assim aceitar, ou apenas ver, a vida tal e qual ela é. Mais ou menos isto. E ouvi então um dos seus poemas, e percebi perfeitamente que era assim como ele dizia. Era assim para ele, e é assim para mim.

Lembro-me apenas do título do poema e do princípio e do fim que o repetia, mas ainda sinto que esse poema falava desse homem e do seu mundo ou, o que talvez seja o mesmo, da forma como ele via esse mundo. E esse homem estava preso, e muitos anos tinham de passar até que fosse devolvido à liberdade. Mas o poema dizia que ele estava pronto. Pelo menos eu assim o senti. Aquele poema era a sua carta de alforria. Mas não seria assim que as coisas se passariam. No entanto não sei se isso realmente importa.

Podemos mudar-nos, mais difícil será mudar o mundo. Mas isso talvez não seja muito importante.

Há cerca de seis meses comecei a escrever poemas. Não estava a pensar falar sobre isso neste texto, mas a verdade é que agora não o posso evitar, concentrando-me sobretudo no segundo aspecto do referido escrever-se. E digo poemas, que escrevo poemas, embora me interrogue ainda se são poemas o que escrevo. Mas isso pouco importa.

Sei muito pouco de literatura e, ainda que por esta altura ache que sei um pouco sobre ficção e narrativa, sobretudo por experiência própria, já quanto à poesia não posso dizer o mesmo. Escrevo poemas, ou aquilo a que chamo poemas, há pouco mais de seis meses, como já disse, e não sinto que tal me confira grande autoridade. Mas também não me sinto impedido de falar sobre isso, antes pelo contrário.

Um dos meus primeiros poemas, se não o primeiro, voltei a lê-lo há poucos dias, mas agora estranhamente traduzido para espanhol, e soou-me melhor assim. Pelo menos foi o que disse a mim mesmo.

Conjugación del todo

Me gusta la sensación que experimento
cuando las cosas parecen encajar.
No como las piezas de un puzzle, nada de eso,
sino de una forma bien diferente, como el mar en la arena,
una brisa en el verano, mis ojos en los tuyos.

No sé si el mundo tiene sentido en los raros instantes
en el que siento que las cosas encajan,
pero sé que dejo todo lo que estoy haciendo,
y me quedo allí, ajeno, tranquilo, absorto,
todo yo sorprendido y deslumbrado.

Y pasa mucho tiempo hasta que me despierto

Mas uma coisa eu sei, os poemas que escrevo permitem-me algo diferente do que a ficção me permite. Com a sua escrita tenho-me escrito, de uma forma que a narrativa nunca me havia possibilitado, ainda que nela também sempre me tenha escrito.

A diferença talvez possa ser melhor compreendida se apelar à ideia de interioridade e de exterioridade. Os poemas que escrevo falam muito mais da minha interioridade. Na ficção projecto-me no exterior. Nos poemas, por assim dizer, a matéria que utilizo está muito mais em bruto e de certa forma assim permanece. Na ficção, na narrativa, é outra coisa. É muito mais um olhar. Nos poemas sou mais eu, ainda que na narrativa eu esteja lá, mas talvez muito mais como espectador. E lembro-me de uma afirmação de Irene Lisboa, do seu livro Solidão, que estou a ler e reler.

“Julgo que para se arquitectarem entrechos romanescos com certa lógica e um sentido contínuo de vida, nos devemos sentir espectadores do mundo dos outros, e até das nossas ficções!”

Por esta altura já o leitor percebeu que cumpri o prometido nas primeiras linhas, levantar muito mais questões do que dar efectivas respostas. E assim fiz, certo que voltarei a este tema, ou não fosse ele uma das minhas obsessões de escritor. Mas antes de terminar, talvez possa ainda reafirmar que me escrevo sempre, sobretudo quando me leio no que escrevo.

E se de pensar e de pensamentos afinal falava, é com pensamentos que agora termino, pois se muitas vezes me dizem que sou muito reflexivo, que é uma outra forma de dizer que penso de mais, a verdade é que a escrita de poemas me tem permitido pensar muito mais sobre mim, pensar até sobre o acto de pensar em mim.

Pensamentos

I

Não penses mais nisso
dizes a ti mesmo
pensar nunca te levou
a lado algum.

Sabes muito bem que
chegada a hora é
o coração que segues.

E ele leva-te sempre
onde tens de ir
queiras ou não queiras.

Por isso continuas
e dizes a ti mesmo
devias aprender a pensar

pensar com o coração.

II

Pensas de mais
dizes a ti mesmo
mas sabes que não é assim.

Pensas muito
é verdade
mas sobre poucas coisas.

Pensas-te, sim
é sobre isso que pensas
é por isso que pensas
pensas para ser

para ser quem és.

4 Comentários »

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  1. Excelente ensaio. Sobretudo porque foi elaborado por alguém que conta com a experiência. Hoje li isto, e lembrei-me de ti: “as palavras tomavam as rédeas às divagações do espírito, dissecavam os sentimentos, controlavam os desejos”. Um beijo.

    Comment by Heloisa — 22 01 2006 @ 4:06 pm

  2. Obrigado. Sempre gentil.

    Comment by Administrator — 23 01 2006 @ 7:48 am

  3. is nou cat dogamo

    Comment by ana — 24 01 2007 @ 2:18 pm

  4. oi

    Comment by jhef — 3 10 2008 @ 3:47 pm

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