Um passeio por Faro, pela escrita e pela leitura

13 01 2006

Estás em casa, a escrever, quando o telefone toca. É um amigo que há já algum tempo não vias e está de passagem por Faro. Tem mais ou menos uma hora e convida-te para a passares com ele. Para conversarem e lhe mostrares a cidade. Aceitas de imediato e perguntas onde está. No Café do Coreto, responde , e tu pões-te a caminho.

O nome Ossónoba (…) deriva da expressão fenícia Osson Êba, armazém no sepal e reporta-se ao período VIII A.C., período em que se estabeleceu uma área comercial no morro da Sé. Durante a ocupação árabe o nome Ossónoba prevaleceu, desaparecendo apenas no séc. IX, dando lugar a Santa Maria do Ocidente. Após o governo de Said Ibn Harun na taifa de Santa Maria, no séc. XI a cidade passa a designar-se Santa Maria Ibn Harun. Depois da conquista por D. Afonso III os portugueses designaram a cidade por Santa Maria de Faaron ou Santa Maria de Faaram. No séc. XVI a XVII o nome evoluiu para Farom , Faroo e Farão. O nome Faro surgiu no séc. XVIII e permaneceu até aos dias de hoje.

O dia está frio mas anuncia já a primavera, e o teu amigo está sentado na esplanada, virado para a doca. Bebes um café, ele recusa um segundo, e começam a conversa em dia. Falam de amigos comuns, de amores e desamores e do que andam fazendo por estes dias. E a páginas tantas falam de hipertexto. É uma paixão comum.

Se a hipertextualidade não é uma “invenção” moderna já que encontram-se alguns registros históricos dessa estrutura narrativa em obras na Ciência, na literatura e na Filosofia, ela ganha impulso com o avanço da crescente ação dialógica entre o homem e a técnica. Tomando a concepção de hipertextualidade como ponto de convergência de outros conceitos, constatamos que ela revela os limites e por isso mesmo, a falência do discurso tradicionalmente lógico, acabado, fechado em si. As infinitas possibilidades de conexões entre trechos de textos e textos inteiros favorecem a flexibilização das fronteiras entre diferentes áreas do conhecimento humano.

Confesso que esta coisa de o leitor hipertextual ser também autor baralha-me um pouco, diz ele, por que me parece trazer qualquer novidade e só serve para confundir. É verdade que o leitor hipertextual traça o seu percurso, faz as suas escolhas, mas isso também o leitor de texto impresso o faz. Desde logo pode escolher ler ou não. É sempre uma opção que tem. Ler ou não ler um livro.

E tu vais dizer alguma coisa mas lembras-te que só têm uma hora e ele quer conhecer a cidade. Nunca ali esteve e ficas a pensar o que lhe deves mostrar. E decides-te pela cidade velha, agora pomposamente designada por Vila Adentro. E dizes ao teu amigo, E se fôssemos dar uma volta pela cidade velha? Ele concorda. Atravessam então o jardim Manuel Bívar e entram Vila Adentro pelo Arco da Vila.

A Vila Adentro, o centro histórico de Faro, está em parte rodeada pelo que ainda resta das muralhas do antigo castelo. (…) Atravessar o Arco da Vila, no topo do Jardim Manuel Bivar, é passar para outro mundo, viajar por séculos de história, ao encontro da cidade árabe e medieval.

Passado o Arco da Vila não há que enganar. É seguir em frente e subir até ao Largo da Sé. Aí é que já se pode escolher. Ou visitar a igreja matriz. Ou passear pelo Largo, entre o Paço Episcopal e a estátua do Bispo. Ou simplesmente atravessá-lo e sair pela porta árabe, e encostarem-se ao muro a olhar a ria.

Hipertexto é um conceito que diz respeito ao nosso modo de ler e escrever.

A Porta Árabe é um arco em ferradura que em tempos constituiu a porta da cidade para quem chegava por mar. Existe uma lenda ligada a este local, que refere um nicho onde estaria colocada a imagem da Virgem, que um dia dali foi retirada pelos Árabes; como resultado dessa acção, o mar deixou de dar peixe e a terra de dar frutos, e a situação só voltou ao normal após a imagem ter sido recolocada.

Mas não escolhes nenhuma dessas alternativas e continuas até à Praça D. Afonso III, onde está a estátua desse mesmo rei, ainda vigilante, testemunho irrefutável da Reconquista da cidade pelos cristãos. Isto mesmo podias dizer-lhe, se fosses um guia, e falasses como tal, mas verdade é que nada lhe dizes sobre isso e ficam ali à entrada do largo, encostados à Sé. E tu pensas naquela redacção que um colega de escola fez quando eram crianças. Uma entrevista ao rei feito estátua e à estátua feita rei. Lembras-te apenas disso. Não fazes a mínima ideia quais eram as perguntas e as respostas. Mas agora que fazes por te lembrar, tens a sensação que as perguntas eram actuais e muito pouco próprias de colocar a um rei assim tão majestoso e possante.

Falam ainda de hipertexto, e o teu amigo diz que uma nova forma de leitura resulta necessariamente de uma nova forma escrita, e tu concordas, mas dizes que a escrita e a leitura também não mudaram tanto assim como se possa pensar. E dizes-lhe que antes de haver hipertexto já havia hipertexto. E não estás a fazer meros jogos de palavras mas a falar a sério. Melhor, estás a fazer jogos de palavras e a falar a sério. Que os jogos de palavras são para ti uma coisa séria.

Mas o tempo passa e têm de ir embora. E o teu amigo surpreende-te dizendo, Agora sou eu que vou à frente e tu segues-me. E lá vão os dois. Percorrem ruas estreitas e cheias de recantos, atravessam arcos, e tens de ser tu a dizer, aqui e ali, Por aí não. E volta sobre os seus passos, e ele perde-se de novo, e quando dá por si está de novo no ponto de partida.

(…) andar na cidade ou clicar numa home page transformam-se em formas de flânerie, em formas de caminhar escrevendo e apropriando-se do espaço. Estabelece-se, dessa forma, nos dois casos, um processo não-linear de concepção, de escritura, a partir de lógicas de apropriação do espaço e dos objetos totalmente pessoais e individualizadas.

E assim como se chegou ao fim do passeio por Faro, também se poderia chegar ao fim deste texto. Se é que um texto tem fim, se é que um texto tem princípio. Mas talvez se possa falar da leitura como um percurso: quer o tracemos nós, quer sigamos um percurso feito. E ainda que de um percurso feito se trate, como este texto, seguimo-lo muitos vezes à nossa maneira e fazendo-o afinal sempre nosso. E é assim que o leitor se torna autor, e assim que o autor afinal escreve: criando um percurso, passeando pelo texto.

Percursos

Não te deixes enganar,
Se quiseres ler este texto
Começa já a duvidar.
Nem uma outra coisa
Se espera de ti.

Acaba com as lamentações,
Um leitor tem sempre à sua frente
Texto, texto e mais texto.

Apenas tens de fazer um percurso e,
Se não lhe achares o sentido,
Continua na primeira palavra

(…)

Não se começa nem se
Acaba um texto
Apenas se continua

A escrever

A ler

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