Escreve-se à volta de
12 01 2006Estou a pensar sobre ler e escrever e, de repente, penso que se escreve à volta de. E a frase aparece-me completa. Escreve-se à volta de. Podia completá-la. Escreve-se à volta de alguma coisa. Mas não me parece necessário. Escreve-se à volta de. Dito assim sublinha-se o processo, escreve-se à volta de. Independentemente do quê, o que importa é o como. E é isso que vou fazer neste texto que agora começo a escrever, escrever à volta de, muito provavelmente escrever à volta desta mesma frase que o despertou. É isso que vou tentar.
Não será tanto o que é escrever, por que escrever ou para quem se escreve – três perguntas que Jean-Paul Sartre coloca e tenta responder em O que é a literatura – mas sim o como se escreve que me interessa desenvolver aqui. E não qualquer forma de escrever mas a escrita à volta de. E caso se escreva à volta de, posso desde logo imaginar um algo que se vai juntando, um algo que vai crescendo, e assim começo a desenhar uma metáfora.
Existem diversas metáforas de escrita e de leitura, umas e outras, formas de dar nome a realidades que sempre nos escapam. São tentativas de explicação que não precisam de chegar a quaisquer conclusões, bastando que delas se aproximem o mais possível. E se procuro aproximar-me de um como se escreve será aconselhável começar por um o que é escrever.
“Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.” Isto diz Fernando Pessoa no “Livro do Desassossego”. Já Agustina Bessa-Luís, em “Contemplação Carinhosa da Angústia”, diz que “Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada.” E para terminar, ainda em português, mas com uma escritora que não o é, convoquemos Clarice Lispector. “Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere alguma coisa. Não altera em nada… Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro…”
E como escrever é de alguma forma citarmo-nos a nós mesmos, continuo com um poema que escrevi a pensar o que é escrever e como se escreve.
Quando escrevo
para escrever é conveniente ler muito,
saber o que é importante saber sobre literatura
e depois
esquecer tudo,
e escrever apenas o que se é,
nada mais,
como se nunca se tivesse lido ou escrito
coisa alguma.
só assim conseguiremos
escrever-nos.
pelo menos é isto que tento fazer:
faço como se nada soubesse,
a não ser, talvez,
que existo.
E escrever, caso se aceite que se escreve à volta de, pressuporá um centro, um centro à volta do qual se vai escrevendo. Um centro capaz de atrair texto, ideias, sensações e acontecimentos. Vários escritores referem a sensação de que a própria realidade se parece organizar à volta do estão a escrever.
E enquanto continuo a escrever à volta de, encontro-me também às voltas com, e penso que é quase a mesma coisa; mas às voltas ando com a cerca de uma dúzia de livros sobre ler e escrever que reuni em cima da secretária onde neste momento escrevo. E também às voltas com algumas pesquisas na Internet, à volta do que é escrever, e à volta mesmo da própria expressão “à volta de”. E entre outras coisas encontro um texto – um ensaio – escrito à volta de uma palavra – a palavra “olhos” – que parece querer confirmar-me o que comecei por dizer, que se escreve à volta de.
E encontro também esta afirmação de Herberto Helder: “O poema é um objecto carregado de poderes magníficos, terríficos; posto no sítio certo, no instante certo, segundo a regra certa, promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo, o mundo acaba e começa.” E isto recorda-me que quando falo em escrever à volta de, refiro-me sobretudo, por experiência própria e alguma comodidade, à escrita de narrativas, de qualquer texto em que se conte uma história.
Não pretendo fazer aqui qualquer distinção entre prosa e poesia, entre o escritor e poeta, como faz Sartre quando tenta responder à primeira questão que colocou a si mesmo: O que é a literatura? E agarro no livro, aqui ao meu lado e procuro nele um sublinhado que em tempos fiz. “O escritor, ao contrário, lida com os significados. Mas cabe distinguir: o império dos signos é a prosa; a poesia está lado a lado com a pintura, a escultura, a música.” Não me interessa desenvolver este tema agora, não me é necessário, mas é algo mais que junto ao texto que escrevo, que o faz crescer, que o desenvolve. E lembro-me de juntar também um excerto de um conto breve que escrevi faz pouco tempo e que talvez, penso agora, tenha despertado este ensaio que agora escrevo.
Escreve-se então à volta de. É uma metáfora de escrita, do modo como se escreve, que tenho vindo a construir ao longo deste texto em que fui escrevendo à volta de. E tento agora dar-lhe explicitá-la com mais clareza. Escrever é como enrolar um fio sobre si mesmo. Escrever é juntar uma porção de fios em novelo. Escrever é como enrolar um novelo. E ainda que estas formulações sejam elas mesmas um andar à volta e me pareçam escapar, decido escolher uma e avançar a partir dela, à volta dela, pois já a cabeça me começa a andar à volta.
Gosto da ideia de fio, como em fio da narrativa, de diversos fios que se enrolam à volta de alguma coisa e, ao mesmo tempo, à volta de, ou sobre, si mesmos. Tem tudo a ver com escrever. E tem tudo a ver, como tenho vindo a dizer, com escrever à volta de. Para além disso a palavra novelo, ou meada, tem também o significado, em sentido figurado, de enredo e de intriga. O que me parece adequado. E também de embrulhada. O que me parece igualmente adequado.
Diga-se então que escrever é como enrolar um novelo. E vejamos se a metáfora assim encontrada se aguenta. E voltemos ao princípio. Escreve-se à volta de, tal como se enrola um novelo, enrolando o fio ou fios à volta de algo que pode ser um pequeno pau, um outro qualquer objecto ou até os dedos, e depois enrolando-o sobre si mesmo, juntando sempre mais fio, mais linha, o que se tiver à mão, fazendo crescer o novelo.
Escreve-se assim à volta de, à volta de uma palavra, de um título. E também à volta de uma frase, de uma imagem de uma sensação. Vários escritores referem esta forma de nascimento e crescimento da narrativa. Um pequeno centro à volta do qual se escreve e que se esconde e quase desaparece com o desenvolver da escrita. No final só o escritor detém ainda esse segredo. Vera Montero, no livro “A louca da casa”, dá muitos desses exemplos, e eu gostaria de a citar, mas não sei o que é feito desse livro – que o comprei e li - e não se encontra entre os que reuni. Fica a referência e um convite à sua leitura. Mas continue-se.
Escreve então à volta de, mesmo à volta de um objecto, como por exemplo… um cinzeiro. Isto mesmo foi o que Tchékhov disse a Korolenko. Disse-lhe que se ele quisesse teria no dia seguinte um conto com o título “O Cinzeiro”, objecto que tinha escolhido ao acaso de entre os que se encontravam sobre a mesa. E pareceu a Korolenko, conta-nos Vladimir Nabokov, que uma transformação mágica desse cinzeiro começava a dar-se.
Pois é, à volta de. À volta de uma pequena frase escrevi este breve ensaio. Escreve-se à volta de. Escreve-se como se enrola um novelo.
