Poemas Reunidos

10 01 2006

Diálogos

I – Relâmpago

Ela diz
Hoje senti a tua falta
E cala-se

Ele diz
Sinto a tua falta todos os dias
E cala-se

E pensa. E emenda
Sinto a tua falta todos os dias
Umas vezes mais, outras menos

E ri. Ela ri também
Mas ele pensa ainda
Podia ter dito outra coisa

Como por exemplo
Estás sempre em mim
É efeito da tua ausência

Ou talvez…

Mas já lhe diz adeus
Manda-lhe um último beijo
Desliga o telefone

E começa a sentir a sua falta

II – Inevitabilidade

Ela diz.
Apaixonei-me por ti.
E ele ouve-a,
Mas não diz nada.
Ele sabe
Que nada puderam fazer
A não ser acharem-se
Um dia
Apaixonados.
Ela por ele.
Ele por ela.
Sabem que foi
Assim que aconteceu.
Ele sabe.
Ela também.
E desconfiam,
Um e outro,
Desconfiam
Que não podia ser
De outra maneira.

III – Em aberto

Ao mesmo tempo
Num só momento
Ele vai-se embora.
Ela diz Está tudo terminado.
Ele diz Eu amo-te.
Ela fica calada.

Ao mesmo tempo
Num só momento
Ele diz Eu amo-te.
Ela fica calada.
Ele vai-se embora.
Ela diz Está tudo terminado.

Ao mesmo tempo
Num só momento
Ela diz Está tudo terminado.
Ele diz Eu amo-te.
Ela fica calada.
Ele vai-se embora.

Ao mesmo tempo
Num só momento
Várias possibilidades
Esperam acontecer.

IV – Nós

Ela diz
Amo-te
Ele diz
Amo-te

Mas pensa
Outra coisa

Ela pensa
Amo-te
Ela diz
Amo-te
Ele diz
Outra coisa

Mas pensa
Amo-te

Ela diz
Ele pensa
Ela pensa
Ele diz

Amo-te
Amo-te

V – Fim

Ele não diz
Ela cala
E é em silêncio
Que tudo é dito
Ele não diz
É o fim
Ela cala
É o princípio
E a si mesmos dizem
Em completo silêncio
Todo o fim
É um princípio.

As coisas

I – Coisas

O interior e o exterior de uma coisa
É sempre uma e a mesma coisa.
Nem outra coisa podia ser.
Pois quando a coisa assim não é
É certo que essa coisa logo deixa de ser.

As coisas são mesmo assim.

Já as pessoas são uma coisa diferente.
É uma coisa que bem se pode dizer,
Pois se tal lhes acontece, não é a mesma coisa.
Não deixam simplesmente de ser; que coisa!
Mas ficam muito menos do que certas coisas,
E isto é uma das coisas que eu sei.

II – Coisas que eu sei

Se há uma coisa que eu sei
É que não há dentro e fora
Pois a não ser assim,
Como podias tu estar
Ao mesmo tempo
Dentro e fora
De mim?

Outra coisa que eu sei,
É que quando duas coisas
Entre si se atraem
Ao mesmo tempo se repelem,
Pois só assim podem ser
Duas e uma só coisa.

E sei ainda outra coisa
Talvez seja o que sei melhor,
Que sei pouca coisa
E posso sempre saber mais,
Desde que seja paciente
E nada queira saber.

III – As coisas são como são

Ele perguntou
O que tem de comum uma qualquer coisa com uma coisa qualquer?
Ele perguntou ainda
As diferenças entre as coisas são maiores do que as semelhanças?
Ela continuou calada
O sorriso ainda mais oblíquo

Ele disse
Todas as diferenças são mais finas do que cada um dos teus cabelos
Ou talvez nem existam diferenças
Ele disse ainda
Todas as palavras têm de ser ditas e escritas
Não existem simples palavras
Ela disse
E depois?
As coisas são como são!

Cumplicidade

O que existe entre nós é melhor do que amor:
é cumplicidade.

Fogos, Marguerite Yourcenar

I

Há perguntas a que só nós mesmos
podemos responder
E não existem respostas certas ou erradas
Apenas respostas

Sabemos que assim é
quando ficamos calados
As perguntas à espera
de respostas

E nós à espera
de palavras que digam
o que não conseguimos dizer

II

Perguntas-me por que razão
é o amor tão importante para mim
e eu respondo-te de pronto que o amor
está em primeiro lugar na minha lista
a minha lista de coisas importantes
Mas tu perguntas-me outra vez por que
é o amor tão importante para mim
Como se não me tivesses ouvido
E eu respondo-te da mesma forma
Como se não te tivesse percebido

Tu e eu sabemos muito bem
que o amor dispensa razões

III

Melhor do que amor
é o que existe entre nós
Mas eu não sei o que é o amor
nem o nome do que existe entre nós
E no entanto eu sei
que o que existe entre nós
é verdadeiro e intenso
tão intenso e verdadeiro
quanto é o amor
Mesmo quando dele desconfiamos
e nos convencemos que não passa de uma mentira.

Eu e tu sabemos muito bem que assim é.

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