Ler Alto

8 01 2006

Ler. Escrever. Ler e escrever. Escrever e ler. Seja como for, estas duas realidades influenciam-se mutuamente. De diversas formas.

Escrevemos muitas vezes o que lemos – a isso é costume chamar influências literárias – ou aquilo que gostaríamos de ler – e a isso não sei o que chamar. Ou como diz José Luís Borges, escrevemos o que podemos e lemos o que queremos.

Seja como for, escrevemos para ser lidos, escrevemos para a possibilidade de sermos lidos, escrevemos na certeza de um leitor. O que nunca for lido é como se nunca fosse escrito. Em todo o caso, se está escrito pode ser lido; por isso o melhor é pensar que vai ser lido. Escreve-se para ser lido, de outra forma não faria sentido escrever. Seria como escrever na água.

Mas estou afastar-me do que queria escrever, o que não constitui um problema, mas talvez seja o momento de decidir por onde a escrita irá. E não indo por onde começava a ir, diz-me a experiência que nestes casos é melhor voltar ao princípio.

Ler. Escrever. Ler e escrever. Escrever e ler. Ou talvez seja melhor dizer ouvir. Falar. Ouvir e falar. Falar e ouvir. Isto porque, ainda que não o tenha já explicitado, esse era o ponto de partida.

Já há alguns meses que participo num evento intitulado Ler Alto, onde cada um pode ler em voz alta os seus próprios textos. Todas as primeiras sextas-feiras do mês tenho assim, nos últimos meses, lido alto alguns dos meus textos. E tenho pensado sobre isso e tenho, julgo eu, aprendido alguma coisa.

Nem sempre foi assim, mas hoje lê-se sobretudo em silêncio. Com excepção da poesia, que ainda hoje se lê com frequência alto, lê-se sobretudo em silêncio. Mas ainda não é habitual ouvir-se um romance, um conto ou até uma qualquer matéria de estudo. Excepto os cegos, sem dúvida, mas julgo que esse material, mesmo a eles destinado, ainda é raro, pelo menos em português.

Lê-se assim em silêncio – pelo menos eu leio – e essa foi uma das coisas que percebi. Escrevo para ser lido em silêncio, na folha de papel ou no ecrã, e isso determina em grande medida a forma do que escrevo.

Um exemplo fácil é a escrita para ser lida no ecrã de um computador. Preocupa-me sempre o espaçamento entre as linhas, preocupa-me sempre o espaçamento entre parágrafos. Preocupa-me a legibilidade do que é mostrado no ecrã. A forma como apresento um texto no ecrã é diferente daquela que o mesmo teria numa folha de um livro. Isto sem contar com o hiper-texto.

Outro exemplo poderei ir buscá-lo às pequenas histórias que escrevo e que se dispõem em regra num único parágrafo. Não é por acaso. Gosto de apresentá-las assim porque assim acentuo a sua brevidade, fechando-as sobre si mesmas como buracos negros plenos de energia.

Claro que a forma como apresento, por assim dizer, na folha, ou no ecrã, aquilo que escrevo, não é indiferente à forma como poderia ser lido em voz alta, pois contém indicações de leitura, mas é diferente. E aqui lembro-me da chamada poesia visual.

Poder-se-ia ler em voz alta um poema visual, não tenho dúvidas que sim, mas ele foi escrito para ser visto, para ser olhado. E aquilo que escrevo também, ainda que não exclusivamente.

Escrevo, ou tento escrever, com a maior simplicidade, muito perto da oralidade mas, no entanto, acho que escrevo sobretudo para ser lido em silêncio; ainda que possa ser lido alto; ainda que me possa ler alto. E esta foi uma das coisas que descobri sobre mim e a minha escrita. Foi uma das coisas que descobri com o Ler Alto.

4 Comentários »

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  1. Já deixei o comentário no outro blog de apontamentos.

    Comment by António Baeta Oliveira — 9 01 2006 @ 3:41 pm

  2. :)

    Comment by Administrator — 9 01 2006 @ 3:50 pm

  3. O teu Ler Alto faz-me lembrar o post que escrevi em Agosto de 2005.
    http://100sentimentos.blogspot.com/2005_08_01_100sentimentos_archive.html

    Parabens pelo blog!

    Comment by Lobistico — 10 01 2006 @ 2:53 pm

  4. Lobistico, li e gostei. Obrigado.

    Comment by Administrator — 11 01 2006 @ 8:31 am

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