Falavam todos inglês

3 01 2006

Estão todos a falar inglês. Artur não gosta de falar inglês. Percebe tudo, é o que diz aos outros, mas não gosta de falar. Atrapalha-se. Sabe que percebem com facilidade o seu sotaque, isto mesmo quando fala com correcção, o que nem sempre acontece, e sente-se incomodado. Mas esforça-se, e até contou uma anedota. Uma alentejana. E explicou que o Alentejo é uma província. Uma espécie de West Virgínia, como dizia Cristina, e garantia que tinha encontrado na Net anedotas sobre West Virginia exactamente iguais, ela dizia iguaizinhas, às que se contam sobre os alentejanos.

Estão todos a falar inglês. Artur, Cristina, Mafalda, Jorge e todos os americanos que convidaram para jantar. E Artur sente-se estrangeiro. Estrangeiro no meio de estrangeiros. Isto é o que ele pensa, enquanto fala inglês. Falam todos inglês. Mas não são ingleses. Nem mesmo americanos. Ou Estado-unidenses. Mesmo aqueles que o são.

Artur continua a falar inglês. Mais a escutar do que a falar, mas mesmo assim a falar. O Cabernet - era do Chile ou da África do Sul? - soltara-lhe já a língua, e ele falava com desenvoltura. E com sotaque. Mas com desenvoltura.

Pensava que não existiam americanos. A necessidade de afirmar a sua ligação à Europa, a um qualquer país da Europa, parecia-lhe patética. E a África. O meu avô era irlandês. Descendo de franceses. Os meus antepassados eram africanos. E todos falavam inglês. Até ele. Mas ele não era americano. E continuava a falar inglês.

Dava graças aos filmes não legendados. Aos filmes americanos. Fora com eles que aprendera a falar inglês. Conhecia o calão. Reproduzia ainda que com dificuldade o sotaque. Agora estava a falar com um afro-americano. Há pouco conversava com uma italo-americana. Será que estava ali algum nativo americano? – perguntou a si mesmo. E continuou a falar.

Era um jantar de despedida. Estavam ali há quatro meses e agora iam voltar. Era um último jantar antes de partirem. Tinham convidado várias pessoas com quem haviam contactado durante a estadia. Era um jantar português. Até havia bacalhau, não à posta, cozido ou frito, mas desfiado, com natas. João dizia que era uma francesice. E queixava-se. Tinham comprado o bacalhau numa mercearia italiana.

Num só quarteirão podia encontrar-se produtos de todos os pontos do mundo. Artur encontrara até um livro em português numa pequena loja de livros usados. Um livro de Jorge Amado. Um pequeno livro.

Estão todos a falar inglês. E a beber. E a comer. E a conversar. Artur está num grupo em que se fala de diferenças culturais e de como é preciso tê-las em conta. É um tema a que por ali se volta muitas vezes. Está na ordem do dia. Artur não se consegue lembrar da expressão inglesa, uma daquelas expressões compostas que dizem tudo sem nada dizer. Fala-se de ter em conta a cultura dos outros. O exemplo clássico, e ele apelida-o de clássico porque já o ouviu várias vezes, é o do rapazito índio que não olha os mais velhos nos olhos. Não faz contacto visual. E isso por ali é muito importante. Contacto visual. Eis uma das coisas que se ensina. É muito importante. O contacto visual.

E Artur diz que sabe que eles os acham estranhos. Que se admiram de eles se sentarem tão perto uns dos outros. De se tocarem tanto. E está a falar dos portugueses. E está a falar dos americanos. E está a falar de diferenças culturais. E está farto de falar em inglês. Mas continua.

E diz que a ele lhe faz impressão a forma como o abraçam. Faz-lhe impressão o típico abraço americano. Que o acha intrusivo. E fala em inglês. Estão todos a falar inglês.

Senti isso logo em Lisboa, diz, com os professores americanos que lá estiveram. E cala-se. Os americanos estão a olhar para ele e um deles pergunta:
Lisboa?
Sim, Lisboa, a cidade de Lisboa – diz Artur aliviado, e acrescenta: A capital.

Mas o mesmo americano diz agora:
Lisboa? A capital? Lisboa é a capital da Espanha?

E Artur responde:
Sim, Lisboa é a capital da Espanha. Há pouco tempo. Há muito pouco tempo.

Os americanos olham para ele e parecem surpreendidos. Só então ele percebe que respondeu em português. E repete. Agora em inglês. Estão todos a falar inglês.

3 Comentários »

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  1. É impressão minha ou a tua escrita mudou?

    *****

    Comment by Dunya — 3 01 2006 @ 12:38 pm

  2. Dunya, não me queres dizer como? Como mudou? Eu acho que sim. Que mudou. Ou pelo menos, espero! :)

    Comment by Administrator — 3 01 2006 @ 2:13 pm

  3. Como, não sei expressar.
    É só um feeling.

    Comment by Dunya — 6 01 2006 @ 10:49 am

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