A história não se repete

3 01 2006

Em mil seiscentos e dezanove, Filipe III de Espanha, II de Portugal, visitou finalmente Lisboa. Insinuaram-lhe então que fizesse de Lisboa a capital da vasta monarquia espanhola, mas o rei único nem se dignou responder. Mais de três séculos passados, mais exactamente trezentos e oitenta e seis anos depois, a história não se repete. Nunca se repete.

Pablo está em Lisboa, onde vai com frequência. Com ele está Fernando. Estão a almoçar. Jaquinzinhos com arroz de tomate. Um arroz de tomate malandrinho. E bebem um vinho tinto do Douro. Pablo é louco pela culinária e pelos vinhos portugueses. Falam de um projecto comum. Mas falam também disto e daquilo. Fala cada um na sua língua e a maior parte do tempo não percebem patavina do que cada um diz. Mas não se importam. Não se importam mesmo nada. Quando é necessário repetem o que estavam a dizer, ou pedem que o outro o faça.

São editores, independentes, como gostam de se afirmar. Falam de livros, de poetas, de literatura. E da vida. Do que lhes apetece. E falam do projecto comum. Livros bilingues. Penetração de mercados. Intercâmbios. Falam com amor. Falam com paixão. E compreendem-se. Muito bem. Ainda que a maior parte do tempo não percebam o que o outro está a dizer.

Pablo sabe português, lê-o na perfeição, faz até traduções. É o som do português que o confunde. E ainda que Fernando fale sem sotaque, Pablo não entende o que outro diz a maior parte do tempo. E o mesmo para Fernando. Mas isso não tem qualquer importância. Compreendem-se para além da língua. Para além das palavras.

Os pormenores estão tratados, o almoço quase no fim, e Pablo está lançado numa longa exortação à arte, a verdadeira, a que não se vende. A arte tal ele a entende. Fernando não consegue seguir o que ele diz, mas tem a clara sensação que não podia estar mais de acordo com Pablo. Que partilha a sua opinião. E faz-lhe sentir isso mesmo acenando a cabeça em sinal de concordância e reforçando até, aqui e ali, uma ou outra afirmação que julgou perceber. Mas por momentos alheia-se e, quando dá por isso já Pablo mudou de assunto.

Pablo fala agora da situação política em Espanha e de como Portugal poderia ter um papel importante na renovação não só da Espanha mas da própria Península Ibérica no seu todo. Fernando não percebe onde o outro quer chegar. Ainda pensa dizer-lhe que, muito provavelmente, a maior parte dos Portugueses gostaria que Portugal se transformasse numa província espanhola, mas fica calado, a ouvir o outro, e surpreende-se com a conclusão. Segundo Pablo, a solução seria, nem mais nem menos, que Lisboa se tornasse a capital da Espanha.

Fernando ri-se, e diz: Já esteve perto. Mas já foi há muito tempo. E a história não se repete.

Mas Pablo sorri, triunfante, e remata: É isso mesmo. A história não se repete. Nunca se repete. Há sempre uma primeira vez. Lisboa ainda vai ser capital de Espanha.

E ficam os dois calados. A pensar nisso.

3 Comentários »

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  1. um conto verdadeiramente familiar.

    Comment by fernando esteves pinto — 3 01 2006 @ 11:25 pm

  2. E talvez não. :)

    Comment by Administrator — 4 01 2006 @ 2:09 am

  3. Até que enfim !!!
    Apareceu escrito o que sempre disse: Lisboa, capital da Península Ibérica(?).
    Em 1640 fomos muito burros !!!
    Agora é tarde.

    Comment by josé torres — 17 03 2006 @ 12:57 am

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