O título

2 01 2006

O ano é dois mil e quinze. Lisboa é a capital de Espanha. E as coisas estão na mesma.

José está sentado em frente ao computador. Escreve uma frase, depois outra e apaga tudo. Tudo menos o título.

José é escritor. Pode dizer-se isso. Ou pode dizer-se que José pensa que é escritor. Tanto faz. É uma e a mesma coisa. José está sentado em frente ao computador. E escreve.

Escreve sempre ao computador. Nem alguma vez escreveu de outra forma. Quando fala em escrever quer dizer literatura. Verdadeira literatura.

José é escritor. E pensa que o que escreve usando o processador de texto é diferente do que escreveria se o fizesse à mão. A folha de papel. A caneta.

Escreve uma frase, depois outra e apaga tudo. Tudo menos o título. É um bom título. Escreve muitas vezes a partir de um título, à volta dele. Sabe que muitos escritores fazem o mesmo, até a partir de um objecto. De um simples facto. Ele escreve a partir de um título. E lembra-se do cinzeiro de Tchékhov. E do cinzeiro de Carver. E chega a procurar com os olhos um cinzeiro que sabe não estar ali.

Olha o título no topo da página virtual. É um bom título. À volta desse título escreverá um conto. Sabe que o fará. Mas para escrever é preciso paciência. Ele sabe que é assim. Alguns dizem que é preciso talento. Outros falam em trabalho. Ele sabe que é preciso talento. E trabalho. E paciência.

Apaga tudo outra vez. O título aparece de novo isolado no topo da página virtual. Ele nem pensa em apagá-lo. O conto acabará por se contar. E o título será finalmente um título.

José levanta-se. E senta-se. E recomeça a escrever. Mas é tão fácil apagar. Riscar é mais difícil. Ou mais incómodo. Embaraçoso. E mais difícil ainda é rasgar uma folha escrita. Amassá-la. Deitá-la para o lixo. Com o processador de texto é diferente. É muito mais limpo.

Quando se escreve à mão a escrita é mais corrida, isto pensa José, mas tropeça na palavra, e pensa que a escrita é uma corrida. Talvez não se possa parar antes de chegar ao fim. Uma corrida, pensa…

E apaga tudo. Outra vez.

Escrever é para ele espontaneidade. E escrever é para ele controlo. Por isso é que lhe é tão difícil escrever. Porque quer ser espontâneo. Porque quer estar em controlo.

Deixa apenas o título. É um bom título. Capaz de contar uma história. De chamar a si uma história.
E continua. E apaga tudo. Tudo menos o título. No topo da página virtual pode ler-se o título. Nada mais.

Lisboa capital da Espanha.

José olha o título. E continua.

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