O telefonema do costume

1 01 2006

Há já alguns dias que lhe quer dizer. Que pensa em dizer-lhe. Mas não consegue. E quando ao fim da tarde ele lhe telefona, como sempre faz, ela decide-se finalmente. E quer dizê-lo. De imediato. De uma vez só. Mas não consegue. E fica a ouvi-lo. À espera de uma oportunidade.

É claro que lhe podia dizer de repente, à queima-roupa, mas não consegue. Talvez porque não saiba muito bem o que dizer. Não a ele mas a si mesma. E enquanto ele fala, tenta pensar em tudo isso. Mas diz a si mesma que tinha tomado uma decisão. E diz.

Porque não nos divorciamos?

E tem de repetir, porque ele continua a falar como se não a tivesse ouvido.

Porque não nos divorciamos de vez?
Porque não? Parece-me uma boa ideia. Trata tu disso, está bem?

E continua a falar. Do que lhe tinha acontecido de manhã, dos novos planos que tinha, do jantar que tinha dado, da situação política e de muitas outras coisas.

Ela ouve-o. Não lhe dissera ainda o que queria dizer, mas sente-se muito mais perto de o fazer. Mas ainda não sabe muito bem o que dizer. O que dizer a si mesma. E continua à espera.

Muitas vezes disse a si mesma que esperaria sempre por ele, que nunca deixaria de estar disponível para ele, ele podia querer estar com ela a qualquer altura. Mas sabia que não era bem assim. Mas não sabia o que queria. Queria dizer-lhe, mas não sabe o que dizer-lhe. O que fazer? Mas talvez a pergunta não precise de resposta. Precisava dizer-lhe. Mas não conseguia. E é ele que diz.

Devias era encontrar alguém.

Disse apenas isso, às vezes dizia-o, e ela respondeu-lhe como lhe respondia muitas vezes, repetindo algumas das palavras.

Alguém?
Encontrar?

E ele respondeu também como muitas vezes lhe respondia.

Sim, alguém!
Sim, encontrar!

E mais uma vez ela não disse o que queria dizer. Mais uma vez sentiu que a verdade é que não sabia o que dizer. E ele repetiu.

Devias era encontrar alguém.

E disse ainda.

E ser feliz. Era isso que devias fazer.

E calou-se.
E ela ficou calada. Mas ainda não tinha dito o que queria dizer. E queria dizê-lo. Mas o que disse foi:

E Lisboa devia ser capital da Espanha.

E riu-se. E ele riu também. O telefonema chegara ao fim. No dia seguinte ele voltaria a telefonar à mesma hora.

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