As coisas são como são
31 12 2005Eduardo gesticula. Muito. E fala. Fala. E fala. Mas Carlos não o ouve. Segue-lhe os gestos. Observa-lhe o rosto expressivo. E sente uma enorme ternura pelo amigo. Sabe o que ele está a dizer. Sabe bem demais.
não sei o que se passa com ela, deve estar doida, não quer falar comigo, não atende o telefone, não responde às minhas mensagens, nem sei onde está, não faço a mínima ideia, está a custar-me muito, não sei o que se passa com ela
Eduardo continua a falar. Carlos continua a olhá-lo. E pensa como a sabedoria é a outra face da dor, a dor que é vivida com intensidade, até ao limite. Olha as mãos de Eduardo, que se agitam à sua frente, mãos grandes e fortes, e só consegue compará-las a pássaros feridos. Depois ri-se da comparação. Ri-se de si mesmo. A mão que lhe comprime a boca impede-o de sorrir. Dá-lhe um ar compenetrado. Atento e compassivo. Eduardo continua a falar. A falar. E a falar.
custa-me mais à noite, muito mais, evito voltar a casa, vou adiando, fico pelos bares e só regresso quando já estou com os copos, completamente bêbedo, e deito-me na cama vestido, só me descalço, e deito-me ao centro da cama, adormeço, e sonho sempre com ela, é impressionante, custa-me mais à noite, muito mais
Carlos gostaria de dizer alguma coisa. Pensa mesmo em dizer algumas das coisas que costuma dizer a si mesmo, mas o que lhe apetece dizer o outro não entenderia, talvez nem mesmo o ouviria, lançado que está. A falar. A falar. E a falar.
Mas as coisas são como são. Não sei o que isso quer dizer, mas as coisas são como são. E não é uma afirmação conformista, passiva. É antes uma declaração de revolta perante o mundo. As coisas são como são. E eu vou suportá-las. E eu vou vivê-las. Intensamente. Esta é a minha humanidade.
O rosto de Eduardo contorce-se em desespero. É ainda um rosto. É, mais do que nunca, um rosto. E Carlos sente uma enorme ternura pelo amigo. Apetece-lhe abraçá-lo, mas continua a olhá-lo. A contemplá-lo. E pensa que as coisas são como são.
Estão a beber Guiness à pressão. Foram ali de propósito. Porque ali havia Guiness à pressão. Eduardo poderia estar a falar de como gosta da Guiness. Poderia estar a descrever o processo de fabricação da Guiness. Mas Carlos olha-lhe o rosto e sabe que não. Não é disso que ele está a falar. A falar. E a falar.
foram muitos anos, essa é que é essa, muitos anos, e amei-a muito, habituei-me a amá-la, nem sei porquê, mas sei que me habituei, e sei que esse tempo não volta, também sei isso, e essa sensação em mim é ao mesmo tempo dor e alívio, nem sei porquê, foram muitos anos, essa é que é essa
E calou-se. E continuou calado. Pegou no copo alto e bebeu um gole longo. E continuou calado. E olhou em redor. E olhou para Carlos. E falou de novo.
Sei que acabou! Mais depressa Lisboa se tornaria capital da Espanha…
E calou-se. E depois voltou a falar. E mudou de assunto. E Carlos entrou na conversa.
