Um primeiro passo

4 12 2005

[Pode dizer-se que as histórias zen falam do zen ou, melhor ainda, que falam da impossibilidade de dizer o zen. São histórias breves, de uma simplicidade desconcertante, onde a fina ironia e o amor pelo paradoxo estão sempre presentes. Por tudo isto, e também pelos temas que abordam, sempre gostei destas histórias e, depois de as procurar e ler durante muito tempo, comecei a, por assim dizer, mimá-las, escrevendo as minhas próprias histórias zen, o que faço já há alguns anos, aqui e ali. Para o efeito, inventei mesmo um mestre zen, com nome de fruta: mestre Atemóia. Acredito que as minhas histórias falem também do zen ou, pelo menos, da minha ignorância sobre o zen. Mas isso nem é o mais importante.]

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As coisas são como são, disse mestre Atemóia em jeito de conclusão, mas o aluno retorquiu-lhe:
“Talvez as coisas sejam como são, mas a verdade é que a maior parte do tempo interrogo-me porquê e como são, e o restante porque não são de outra maneira. O que tem a dizer a isto?”
Mestre Atemóia sorriu e repetiu pausadamente:
“As coisas são como são.”
Foi nesse momento que o aluno atingiu a iluminação.

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Após mestre Atemóia ter distribuído as tarefas da semana, o aluno a quem coubera ficar à porta do mosteiro abordou-o e perguntou-lhe o que devia fazer, ao que o mestre lhe respondeu que devia ficar à porta. Mas ele retorquiu:
“Mas quem devo deixar entrar?”
“Quem quiser entrar.”
“E quem devo deixar sair?”
“Quem quiser sair.”
“Mas então o que faço?”, insistiu ele.
“Ficas à porta, apenas isso”, respondeu o mestre com um sorriso, “assim todos terão a certeza que há uma entrada e uma saída.”
Foi nesse momento que o aluno atingiu a iluminação.

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Onde devo ir, perguntou um aluno a mestre Atemóia, e este respondeu-lhe: Onde o caminho te levar.
“Mas que caminho devo percorrer?”, perguntou agora o aluno.
“Não interessa que caminho percorras, mas sim como o fazes”, respondeu o mestre.
“E como devo então fazê-lo?”, perguntou ainda o aluno.
“Passo a passo”, disse o mestre.
“Passo a passo?”, repetiu o aluno de imediato, interrompendo o mestre que pareceu não o ouvir e concluiu: “…e que cada passo seja sempre o primeiro.”
Só então o aluno se calou e afastou-se lentamente, passo a passo.

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