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30 11 2005

Estou no café,
Fim do dia, começo da noite,
A beber um cerveja e a comer qualquer coisa
Quando dou por mim a pensar que é sexta-feira.
Ou melhor será dizer sentir,
Porque se pensasse, saberia perfeitamente que não é sexta-feira,
Mas outro dia qualquer,
Outro dia qualquer que não sexta-feira.
E a sexta-feira é tão especial para mim,
Nem sei muito bem porquê, talvez porque a sexta-feira,
Fim do dia, começo da noite,
É para mim uma espécie de não lugar,
Um purgatório, um apeadeiro,
Um lugar entre uma coisa e outra coisa qualquer.
Um lugar entre o ser e o não ser,
Penumbroso, divagante,
Onde ao mesmo tempo sou e não sou.
Estou estão no café
sentado a uma das mesas, a cerveja suspensa
o tempo todo um intervalo,
Os pés no chão, a cabeça longe, muito longe
E estou alegre, e estou triste. E penso, e não penso.
E sinto, sinto e não sinto.
Sou apenas a sensação de ser tudo e de nada ser,
Nem mesmo a tinta azul que desliza pela folha baça
Conferindo-lhe sentido, conferindo-me sentido,
Perdido e achado nesta ladainha,
A que chamo ser,
A que chamo escrever.

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