[Apeteceu-me deixar aqui o início, apenas esboçado, de um texto maior, mas que me parece funcionar como um conto. Apeteceu-me ainda dedicá-lo ao Rui Costa e ao Fernando Dinis.]
E um dia aconteceu-lhe. Não foi capaz de erecção. Mesmo no meio do trabalho. Ela foi gentil, disse-lhe que compreendia, que não tinha qualquer importância, e quis pagar-lhe na mesma, mas ele não aceitou; pediu-lhe desculpas, beijou-a e saiu.
Foi nesse dia que pensou profundamente nos serviços que oferecia e chegou a uma conclusão que mudaria a sua vida: o sexo era o menos importante na profissão que desenvolvia; há muito que as mulheres que o contratavam queriam muito mais do que sexo. Sentiu como que uma epifania. Estava mudado.
E se até então era já uma referência na sua profissão, a partir daí tornou-se uma lenda, dentro e fora do meio em que se movimentava.
Se grande parte do que se conta hoje nunca aconteceu, isso pouco importa, pois a influência que essas histórias exercem não depende da sua verdade objectiva, mas do simples facto de serem contadas e ouvidas, uma e outra vez. Contadas e vividas. Uma e outra vez.
Mais tarde se diria que ele fora sempre impotente, e até as mulheres que tinham sido penetradas por ele começaram a duvidar que alguma vez o tivessem sido; mas para ele nunca foi isso que esteve verdadeiramente em causa, mas sim a natureza profunda do que fazia.
Porque o procuravam aquelas mulheres? O que queriam? Porque lhe pagavam?
Foi a essas perguntas que ele tentou responder naquele dia, no dia em que, pela primeira vez, não foi capaz de erecção e, se não obteve uma resposta única, palpável e sólida, descobriu sem dúvida o caminho que queria percorrer. Da mesma forma que já antes lhe tinha acontecido.
O caminho menos esperado. O caminho mais inesperado.
O que é que tu fazes hoje em dia para ganhar a vida?
Acompanho mulheres.
Vais para a cama com elas?
Sim, também. Às vezes mais que isso. Ou menos. Depende do ponto de vista.
Estás a brincar comigo?
Não podia estar mais sério.
Soube que tinhas deixado de dar aulas. Nem quis acreditar. Lembro-me da paixão que tinhas pelo ensino, pela universidade.
Cansei-me.
E agora… és prostituto?
Acho que se poderia dizer assim.
Estás doido?
A primeira vez que recebeu dinheiro por sexo foi quase por brincadeira. Uma amiga da mãe, às escondidas de um jantar chato, chato, chato.
Quero oferecer alguma coisa, disse ela, e ele riu-se. Não precisas oferecer-me nada, que ideia. Mas ela insistiu, foi buscar a mala, tirou a carteira e deu-lhe todo o dinheiro que tinha lá dentro. Ele riu-se, negou com a cabeça, mas ela enfiou-lhe o dinheiro nos bolsos das calças, primeiro num, depois noutro, até ficar sem nada. Tinha mais do dobro da idade dele, mas ele não via essa diferença, via uma mulher bonita, culta, bastante carente e muito desejável. No entanto, não lhe devolveu o dinheiro, voltou mesmo aceitar mais, e não se surpreendeu quando um dia uma amiga dela lhe fez uma proposta clara e directa.
Não era muito bonito, pelo menos de acordo com os padrões clássicos, mas tinha muito sucesso junto das mulheres, sobretudo as mais velhas, talvez porque fossem as mulheres mais velhas que ele preferia. E eram estas mulheres que o procuravam: mulheres mais velhas, mas também mais independentes, mais decididas, mais bem sucedidas. Foi assim desde o início, embora com o tempo a diferença de idade se esbatesse à medida que ele mesmo envelhecia, acontecendo cada vez mais que as suas clientes tivessem praticamente a mesma idade que ele. Manteve-se na sua profissão até ao fim, ainda que cada vez mais discretamente, até quase não se perceber se ainda o fazia por dinheiro ou apenas por gosto. E a verdade é que nunca deixou de ser procurado, nunca deixaram de lhe fazer propostas, muitas delas quase vergonhosas, tendo em conta as quantias envolvidas, verdadeiras pequenas fortunas. Mas aqui entramos já no domínio da lenda.
O que querem as mulheres dos homens? Porque os procuram? Porque se apaixonam? Porque os desprezam? Porque correm atrás deles?
Estas e outras perguntas foram as que ele colocou a si mesmo naquele dia em que não conseguiu uma erecção, e pouco importava se voltaria a ter alguma ou nunca mais, pois não era isso que estava em causa.
Tinha chegado a um momento em que aquelas perguntas eram importantes para ele, se não respondê-las, pelo menos levantá-las.
Há já alguns anos que vivia exclusivamente de vender os seus serviços a mulheres, e a verdade é que não o fazia tanto por dinheiro mas por verdadeira paixão.
Os homens são uns parvos, umas crianças. Pagam-me por sexo e querem que eu os ame. Que parvoíce. São mesmo estúpidos. E ria-se muito.
Era uma profissional das mais bem pagas, os homens pagavam-lhe fortunas, esperavam meses que ela se decidisse, atiravam-se aos seus pés e tudo isso apenas por sexo.
São mesmo parvos, disse-lhe ele, e ela riu-se ainda mais.
Talvez te devesse contratar, disse ela, e por momentos deixou de rir.
Talvez, respondeu ele, e riram-se os dois, ao mesmo tempo, pela primeira vez.
Se tivera poucos relacionamentos amorosos antes de começar a sua profissão, a partir desse momento foi progressivamente deixando de os ter, até que ficou só. Talvez por isso se tenha dito que ele era incapaz de amar, quando o que ele ofereceria não era outra coisa senão amor; pago, é certo, mas amor, e não sexo, não apenas sexo, até chegar ao ponto de o sexo, tal como é entendido vulgarmente, nem mesmo fazer parte dos seus serviços. Mas também aqui entramos já no domínio da lenda.
A mulher apresentou-o pelo nome, sem explicar quem ele era ou o que fazia, mas todos pensaram que era o seu último amante, um homem atraente e bem sucedido. E era isso que ele era, um homem atraente, bem vestido, bem-falante, de maneiras elegantes, culto, fino; aquilo que os seus maridos e amantes não eram nem nunca seriam, e todos a invejavam.
Ele não escondia o que fazia, mas poucos o tomavam por aquilo que ele era, um homem que vendia os seus serviços. E no entanto ele era muito claro quanto a isso, sobretudo com as mulheres que se aproximavam dele.
Mais do que ter prazer, ele sempre gostara de dar prazer, ou, se preferirem, ele só obtinha verdadeiro prazer a dar prazer e, se no geral isto era verdade, era ainda mais verdade quando se tratava de mulheres. E foi talvez por aí que tudo começou.
Ele queria dar prazer ás mulheres, ao maior número de mulheres, e queria tanto fazê-lo que nem restava tempo para mais nada que não tivesse a ver com essa necessidade fundamental. Foi assim que abandonou tudo e se dedicou por completo á sua nova profissão. E não o fez às escondidas, de forma envergonhada, mas com paixão e orgulho no que ele chamava a sua arte.
Vamos no teu carro ou no meu, perguntou ela, olhando para o Porsche com admiração, e ele estendeu-lhe as chaves com um sorriso, Queres experimentar? Ela olhou para ele, riu, e perguntou antes de aceitar, Não pago mais por isso, pois não?
A maior parte das mulheres que o procurava não dizia que não a sexo, mas para a maioria isso não era o mais importante, e muito menos serem penetradas, ainda que docemente.
As mulheres que o procuravam queriam outra coisa. Queriam aquilo que ele tinha para dar, era por isso que o procuravam.
O pagamento era acertado e efectuado no início e não se falava mais nisso, a não ser que surgisse alguma alteração ao solicitado.
Durante algum tempo chegou a ter alguém que lhe tratava disso, uma espécie de agente, de angariador, mas depois prescindiu dos seus serviços, não queria intermediários. Era tudo feito como um qualquer outro negócio: tinha uma tabela de preços, solicitavam os seus serviços e ele dizia quanto queria, depois faziam-se pequenos acertos.
Quero que me acompanhe a um jantar de negócios. Gente muito importante. Deve estar atento a todos os meus pedidos, cortejar discretamente as mulheres e surpreender e divertir os homens com a sua ironia. Nada de novo. Muita discrição. Muito silêncio a perguntas indiscretas. O mesmo de sempre. Um fim-de-semana, todas as despesas por minha contas, o pagamento habitual e um bónus no fim se tudo correr bem. E eu sei que vai correr tudo bem.
Em regra elas escolhiam os locais, os restaurantes, os hotéis, a não ser que lhe pedissem que as surpreendesse, a não ser que ele conhecesse já todos os seus locais preferidos. Ele escolhia os vinhos, acertava todos os pormenores, com elegância, com requinte, discorrendo sempre um pouco sobre tudo, de forma clara e despojada mas com autêntica paixão. E era atencioso, e sorria e escutava, e, para todas, ele era quem elas queriam que fosse, uma espécie de homem de sonho, de príncipe que obedece sem que lhe peçam.
Mas tu gostas dessas mulheres?
Elas pagam-me.
Mas tu gostas delas?
Gosto do que faço.
Mas gostas delas?
Já te respondi.
Sim ou não?
Se queres que responda com um sim ou um não, a minha resposta só pode ser sim.
A família sempre soube o que ele fazia, e foram-se afastando pouco a pouco, com excepção do irmão mais novo que manteve sempre contacto com ele, embora se recusasse a falar sobre o que ele fazia. Não se importou muito, fora sempre um solitário, uma daquelas crianças e adolescentes que são chamados ora de macambúzios ora de introvertidos.
Na verdade, também não tinha muitos amigos, vivia exclusivamente para a sua profissão e ela determinava em grande parte quem era e o que fazia. Tinha muito cuidado com o corpo, lia muito, mantinha-se informado sobre os mais variados assuntos, frequentava aulas de dança e de culinária e viajava sempre que podia. Na sua profissão era invejado e copiado, mas pouco eram aqueles que se mostravam dispostos a, como ele, dedicarem-se por completo à profissão.
Acima de tudo as mulheres querem ser desejadas, e isso é o mais importante. Fazer uma mulher sentir-se desejada é mais difícil que satisfazer-lhe o desejo. E é isso sobretudo que eu faço.
Satisfazer-lhe o desejo?
Fazê-las sentir-se desejadas.
Mas não lhe pagam por sexo?
Pagam-me, mas não só por sexo.
Mas dá-lhes sexo?
Quando querem. Mas se quer saber, até podia usar outra pessoa para isso. O sexo não é o mais importante, pelo menos para as minhas clientes. E para mim também não.
Então o que é?
Já lhe disse.
Sentirem-se desejadas?
Agrada-me que perceba.
Sou mulher.
No dia em que não conseguiu uma erecção a sua vida mudou, mas essa mudança já se preparava há muito tempo. É sempre assim, nada acontece de repente.